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Arte rupestre e tecnologia se completam na Serra da Capivara, no Piauí

Em meio a cânions e paredões rochosos, parque nacional abriga mil sítios arqueológicos e museu interativo

Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí

Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí Fellipe Abreu/Folhapress

Luiz Felipe Silva
São Raimundo Nonato (PI)

Do alto do Parque Nacional da Serra da Capivara, no sul do Piauí, o que se vê, além de uma longa extensão de montanhas, é a vegetação da caatinga dividindo espaço com cânions e paredões de pedra.

A formação mais conhecida é o Boqueirão da Pedra Furada. O buraco aberto pela ação da natureza chama a atenção, mas o destaque está centenas de metros mato adentro.

No boqueirão (fenda profunda) há vestígios da arte e da cultura dos povos que começaram a habitar a região há 12 mil anos.

Na parte de dentro, passarelas de metal erguidas sobre escavações arqueológicas levam para perto de um paredão com cerca de cem metros de altura coberto por desenhos.

A cada passo, uma nova pintura. Há representações de rituais, de sexo, de partos, de animais gigantes e de caçadas. 

As cores se mesclam. Além do vermelho, mais comum, há azul e branco. As datações dos vestígios também se misturam: habitantes de 2.000 anos atrás incrementaram desenhos iniciados por seus antepassados, milhares de anos antes. 

O Boqueirão da Pedra Furada é o mais acessível e mais famoso dos mais de 1.300 sítios arqueológicos localizados na reserva. A maioria, 950, tem pinturas rupestres (204 estão abertos a visitação de turistas e 17 deles são acessíveis a pessoas com deficiência). 

Fundado em 1979 a partir dos esforços da arqueóloga brasileira Niéde Guidon, o Parque Nacional da Serra da Capivara ocupa 91,8 mil hectares, entre as cidades de Canto do Buriti, Coronel José Dias, São João do Piauí e São Raimundo Nonato, no Piauí. Em 1991, foi nomeado pela Unesco de Patrimônio Mundial da Humanidade. A entrada é gratuita.

Com 32 mil habitantes, São Raimundo Nonato é a melhor opção de base. A cidade tem hospedagens simples e restaurantes de comida típica (procure a galinhada com pirão de mulher parida, feito com o caldo da galinhada).

No parque, os guias destacam quatro circuitos. O mais conhecido deles corta o desfiladeiro Capivara e passa pelas tocas da Entrada do Pajaú, do Barro —ambos guardam pinturas rupestres— e do Paraguaio, primeiro sítio investigado pela equipe de Guidon, nos anos 1970. Os demais são o circuito da Serra Branca, o Jurubeba e o do Sítio do Meio.

A arqueóloga trabalhava no Museu do Ipiranga, em São Paulo, quando recebeu a visita do prefeito de Petrolina (PE), cidade a 300 km de onde hoje fica o parque. Ele levou fotos de pinturas rupestres e despertou o interesse de Guidon. Ela conta que o ano era 1963, quando organizava uma exposição sobre arte rupestre do Brasil. “Ele disse que os desenhos eram do sul do Piauí. Eram completamente diferentes de tudo que eu já tinha visto antes”, diz Guidon.

No ano seguinte, ela se mudou para a França, onde seguiu os estudos e se tornou professora, mas manteve em mente o plano de desbravar o sul do Piauí.

Em uma expedição francesa para a Serra da Capivara, a arqueóloga e sua equipe coletaram resíduos de uma fogueira. Ela enviou o material a um laboratório para datação. A fogueira tinha 26 mil anos, o que contrariava as teses majoritárias na época sobre a povoação da América.

“Quando me mandaram o resultado, fui até o laboratório e disse que haviam misturado minhas amostras. Não era possível ter nada tão antigo assim na América. A chefe do laboratório respondeu: continue pesquisando lá, são suas amostras mesmo. Continuamos e chegamos a até 110 mil anos aqui”, diz Guidon.

Acreditava-se, então, que os primeiros Homo sapiens pisaram no continente há cerca de 14 mil anos.

A descoberta da pesquisadora foi gatilho partida para a intensificação da busca por pinturas, ferramentas, artefatos e resíduos. A ideia era comprovar que o povoamento da América começara muito antes do que se pensava.

Deu certo. O crânio de um homem, Zuzu, foi encontrado e datado de 10 mil anos. Também foram achados pedaços de pedra com 50 mil anos, manipulados para servirem de ferramentas. 

Mais recentemente, a idade das cinzas de uma fogueira próxima do Boqueirão da Pedra Furada foi estimada em 110 mil anos.

Essas descobertas se somam a evidências no Chile, no Uruguai, no México e nos EUA e indicam que o homem chegou ao continente há ao menos 130 mil anos, por três diferentes rotas. 

Além do trajeto já estabelecido entre cientistas, via estreito de Bering, humanos teriam cruzado de barco os oceanos Pacífico e Atlântico.

A história do homem na região do Parque Nacional da Serra da Capivara é contada em museu localizado na sede da Fundação Museu do Homem Americano, na cidade de São Raimundo Nonato. O ingresso custa R$ 20.

Em dezembro de 2018, o próprio parque ganhou um espaço, o Museu da Natureza.

O edifício em formato circular, desenhado pela arquiteta Elizabete Buco, fica em meio à vegetação e aos paredões. 

O prédio de 1.700 metros quadrados abriga 12 salas com temas que vão da origem do universo à chegada do homem à região.

O investimento total foi de R$ 13,7 milhões. O resultado é um museu hi-tech, com painéis e telas interativas, projeções de vídeos e até simulador de voos sobre o parque. 

As interações ajudam a compreender as mudanças na região, que até 9.000 anos atrás era uma mistura de floresta amazônica com mata atlântica e habitat de animais brasileiros gigantescos.

Fósseis desses bichos, que conviveram com o Homo sapiens, estão expostos. É o caso do tigre-dentes-de-sabre (até 2,5 metros de comprimento), do mastodonte (até 5 metros) e da preguiça-gigante (até 6 metros). No fim do circuito, há uma réplica em tamanho real da preguiça-gigante.

Trata-se de um museu marcado pelos contrastes: entre o seu visual futurista e a natureza da caatinga; entre o passado do homem, contado em milhares de anos, e a história do universo, contabilizada em milhões e bilhões de anos.


Como chegar

Há voos diários para o aeroporto de Petrolina (PE). De lá, alugue um carro e pegue a rodovia BR-235. Em Remanso, siga pela BR-324 até São Raimundo Nonato: são 295 km, com trecho de terra (40 km). A viagem leva em torno de quatro horas e meia. Para explorar o parque, entre em contato com a associação de guias, em São Raimundo Nonato (a diária parte de R$ 150). Informações pelo email ospimenteira@gmail.com

Onde ficar

Hotel Serra da Capivara  As diárias partem de R$ 144. End.: estrada Pará São João do Piauí, 140, São Raimundo Nonato (PI); tel.: (89) 3582-1798

Real Hotel As diárias partem de R$ 247. End.: rua Largo Manoel Agostinho de Castro, 22, São Raimundo Nonato; tel.: (89) 3582-1495

O que fazer

Museu do Homem Americano A entrada custa R$ 20. Aberto todo dia (exceto 2ª), das 9h às 17h. 
End.: rua João Ferreira dos Santos, São Raimundo Nonato; tel.: (89) 3582-1612

Museu da Natureza  O ingresso custa R$ 30. Aberto todo dia (exceto 3ª), das 13h às 18h.
End.: Parque Nacional da Serra da Capivara (acesso pela avenida Nestor Paes Landim); tel.: (89) 3582-1612


Pacotes

R$ 2.969 
6 noites entre Petrolina e a Serra da Capivara, na Maringá Lazer (maringalazer.com.br
Uma diária na cidade pernambucana e as demais em São Raimundo Nonato (PI), com café da manhã e três almoços. Inclui passeios (museus, trilhas, sítios arqueológicos), além de seguro-viagem e traslados. Valor por pessoa. Sem aéreo

R$ 3.340 
5 noites na Serra da Capivara, na Pisa (pisa.tur.br
Hospedagem na cidade de São Raimundo Nonato, com café da manhã e lanche de trilha (no primeiro dia não há refeições, e no último, apenas café da manhã). Inclui visita a sítios arqueológicos e museus, além de traslado, guias e seguro-viagem. Preço por pessoa, sem passagens aéreas

R$ 3.800
7 noites em Petrolina, Serra da Capivara e Juazeiro, na Expedição 360 (expedicao.360meridianos.com)
O pacote inclui hospedagem, guias, transporte entre as cidades e parte das refeições. Em Petrolina, há visita a vinícola e banho no rio São Francisco. Depois, são quatro dias na Serra da Capivara, incluindo visitas a museus e sítios arqueológicos e roda de conversa com moradores locais. Os últimos dois dias são entre Petrolina e Juazeiro. Sem aéreo, com saída em 23 de março

R$ 3.875 
5 noites na Serra da Capivara, na Venice (veniceturismo.com.br
Com café da manhã, jantar e almoço (ou lanche durante os passeios). Inclui visitas a museus e sítios arqueológicos, além de traslados e seguro-viagem. Valor por pessoa, sem passagens aéreas

R$ 4.420 
7 noites, entre Petrolina e a Serra da Capivara, na Ambiental (ambiental.tur.br
Uma noite na cidade pernambucana e seis no Piauí (cidade de São Raimundo Nonato), com café da manhã e um almoço. Inclui passeio a vinícola, city tour em Petrolina e Juazeiro, visita aos sítios arqueológicos, museus e a comunidades que cercam o parque, além de traslado e guias. Preço por pessoa. Inclui aéreo a partir de São Paulo

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