Para criar novas represas, Turquia alaga cidades com tesouros arqueológicos

Historiadores e moradores protestaram, mas as águas podem subir a qualquer momento

Torre fina e comprida, de pedra, sai de lago, com cidade em volta
Minarete de mesquita em vilarejo semisubmerso no Eufrates após a construção de represa - Francesca Angiolillo/Folhapress
 
Halfeti

O minarete se ergue das águas do rio Eufrates, dando prova inconteste de que ali havia uma mesquita.

Se a torre à qual o imã sobe para chamar os fiéis à oração é o ponto mais alto do templo, imagina-se quanto jaz ali embaixo —aliás, não se imagina apenas; entrevê-se, sob o tom azul-esverdeado do rio.

A emoção de navegar pelas águas de um dos cursos fluviais mais importantes da história da humanidade se tinge de melancolia diante da visão do vilarejo semisubmerso de Savasan, que fica no distrito de Halfeti, província de Sanliurfa, no sudeste do país.

O caso da cidade, cuja fundação remete ao ano 855 a.C., sepultada pela construção da represa de Birecik (pronuncia-se "Biredjik") não é único na história da Turquia, país onde os rios se represam para geração de energia e irrigação. 

A represa Atatürk, por exemplo, permitiu, entre outras atividades, o plantio de algodão nos arredores de Sanliurfa. Para isso, tiveram de desaparecer Nevali Çori, importante sítio arqueológico do Neolítico, e Samósata, capital do reino de Comagena.

Em pouco tempo, a história deve se repetir em Hasankeyf, cidade que tem entre 10 mil e 12 mil anos de existência, situada às margens do rio Tigre.

Houve movimentação de arqueólogos e historiadores, desistência de financiadores, queixas ao Parlamento Europeu, protestos dos próprios habitantes, tudo para impedir essa nova inundação, que permitirá o funcionamento de uma hidrelétrica.

O governo manteve-se firme na intenção, e as águas podem subir a qualquer momento. Uma porção dos moradores foi deslocada para novos assentamentos, bem como parte dos monumentos.

Jardins, mesquita, igrejas e tumbas, porém, perecerão com o fechamento das comportas da barragem de Ilisu.

Acontece que a porção da Mesopotâmia que coube ao que hoje é a Turquia não é a do Crescente Fértil —arco territorial favorecido pelos rios Tigre, Eufrates e Nilo.

O sudeste da Turquia corresponde à Alta Mesopotâmia, bastante mais árida. Para vencer o peso desse fator natural no desenvolvimento da região, desde os anos 1970 o país investe num plano de represas e hidrelétricas.

Como as nascentes do Tigre e do Eufrates se encontram em território turco, as obras interferem na vazão dos rios, segundo a Síria e o Iraque. 

Os governos dos dois países mais ao sul, banhados pelos rios, protestaram contra os prejuízos que os projetos da Turquia acarretariam. 

A Turquia e a Síria fecharam um acordo para garantir a vazão do Eufrates, mas a guerra na Síria não contribui para sua observação.

Em Halfeti, existe a intenção de tornar os edifícios remanescentes em hotéis, lojas e restaurantes. Por ora, navega-se até o que são ruínas.

O passeio pelo rio Eufrates pode incluir uma parada no Rum Kale, uma fortaleza que, no momento da visita desta jornalista, encontrava-se fechada para restauro.

Resta a Halfeti, além de ser uma das testemunhas da escolha de sepultar o passado em nome do futuro, a fama por suas dúbias rosas negras. 

Uns dizem que elas só nascem ali e só no verão, graças ao pH da água do rio Eufrates. Outros, que não são negras, mas carmesim escuro. Botânicos não dão registro fidedigno da existência dessa variedade. 

A jornalista viajou a convite do Ministério da Cultura e Turismo da República da Turquia 

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Duas noites em Istambul, duas na Capadócia, duas em Kusadasi, uma em Ancara, uma em Pamukkale e uma em Çanakkale. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Sem aéreo

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