Folias centenárias acontecem o ano todo na Zona da Mata pernambucana

Maracatu rural e ursos são tradições nas cidades de Nazaré da Mata e São Lourenço da Mata

Pernambuco

Três cidades localizadas na Zona da Mata e no agreste do estado, todas a menos de duas horas de carro da capital, Recife, cultuam suas festas típicas, com ensaios e espaços culturais dedicados a apresentá-las aos turistas em qualquer mês do ano.

Ícones do maracatu rural, caboclos lanceiros do grupo Cambinda Brasileira simulam luta em Nazaré da Mata (PE)
Ícones do maracatu rural, caboclos lanceiros do grupo Cambinda Brasileira simulam luta em Nazaré da Mata (PE) - Paulo Paiva/Diário de Pernambuco

Entre os três Carnavais, o que mais atrai visitantes é o maracatu rural, surgido no fim do século 19, na Zona da Mata, que reúne traços das culturas europeia, indígena e africana. Foram os trabalhadores das lavouras que deram início à essa festa, no tempo em que a atividade canavieira era predominante na região.

Hoje, há mais de cem grupos de maracatu rural e 14 mil brincantes distribuídos pelo estado, segundo o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que registrou essa manifestação folclórica como patrimônio cultural em 2014.

Mesmo com a chegada de outras indústrias na região, a cana continua dominando a paisagem. E a maior parte dos participantes ainda trabalha em usinas de açúcar, segundo Giorge Bessoni, cientista social do Iphan de Pernambuco.

A maioria dos grupos fica na região da mata norte, onde está Nazaré da Mata, cidade que é considerada o berço desse folguedo —palavra usada para descrever festas populares de caráter lúdico.

A cidade, a 66 km do Recife, tem 17 grupos. Entre eles está o Cambinda Brasileira. Criado em 1918, é o que está em atividade há mais tempo de forma ininterrupta no estado.

Com uma orquestra de percussão e sopro, o cortejo de um único grupo pode ter mais de cem integrantes. Todos são comandados por um mestre.

A cada som de apito emitido por ele, o grupo faz uma reverência e escuta as loas —como são chamadas as trovas cantadas pelo mestre. Ao fim delas, os integrantes voltam a se agitar, enquanto tomam conta do espaço os sons de instrumentos como caixa, surdo e mineiro —uma espécie de ganzá grande.

Antes, o dia a dia do canavial dominava os temas das loas, sempre improvisadas. Hoje, a inspiração também vem do que ocorre fora da zona rural. “A gente fala do presidente, do Lula, da enchente de Minas, do coronavírus”, diz o mestre João Paulo, 70, do grupo Leão Misterioso.

O cortejo do maracatu rural tem rei, rainha e baianas, que vão na linha de frente. Mas o que mais o identifica são os caboclos de lança.

Essas figuras são vistas só nesse tipo de folguedo, conhecido também como maracatu de baque solto. Já o maracatu de baque virado, ou “nação”, comum em áreas urbanas, se diferencia por ter orquestra formada só por instrumentos de percussão.

É fácil reconhecer os caboclos. Usam chapéus grandes com fitas longas e finas feitas de material brilhante, que lembram uma cabeleira. Na mão, empunham lanças. Sob o manto bordado e colorido, levam sacos de chocalhos presos ao corpo —cada um representa um ano em que o participante desfilou.

A antropóloga Laure Garrabé, da Universidade Federal de Pernambuco, explica que os caboclos foram as primeiras figuras da festa. No século 19, já batucavam nas casas grandes pedindo dinheiro para o Carnaval.

Hoje, quando chega essa época do ano, 60 desses grupos se reúnem em Nazaré da Mata, no Parque dos Lanceiros, nas margens da BR-408.

Não é só no Carnaval que os grupos tomam o local. O anfiteatro do parque recebe apresentações o ano todo. No espaço, há exposição permanente dos principais personagens da festa e de seus figurinos.

De setembro até a Páscoa, caboclos de lança ensaiam pelas ruas da cidade. Há também as sambadas, espécie de torneios entre mestres de maracatu. Esses treinos reúnem mais de mil pessoas, atravessam a madrugada e vão até o amanhecer, diz o mestre João Paulo.

O centro cultural Mauro Mota, em Nazaré, tem exposição permanente de trajes usados no cortejo e cartazes sobre a história do folguedo.

Casal de papangus, tradição da cidade de Bezerros, no agreste pernambucano, usam figurino recoberto de fuxicos para desfile no domingo de Carnaval
Casal de papangus, tradição da cidade de Bezerros, no agreste pernambucano, usa figurino recoberto de fuxicos para desfile no domingo de Carnaval - Divulgação

Tão velha quanto o maracatu rural é a festa dos papangus, atração de Bezerros, cidade a 100 km de Recife.

Diz a lenda que familiares dos senhores de engenho saiam mascarados para visitar amigos nos entrudos, celebrações trazidas pelos portugueses no século 17. Esses folguedos ocorriam na véspera da Quaresma e desaguaram no Carnaval popular de rua.

Já os blocos de papangus surgiram no só nos anos 1930. Ao som do frevo, os brincantes desfilam vestidos dos pés à cabeça, com luvas e máscaras.

Antigamente, os papangus cobriam o rosto com um capuz de três furos, para olhos e boca. As máscaras, hoje muito elaboradas, ainda são o principal símbolo da festa. 

Em Bezerros, que tem 50 grupos de papangus, o artista Lula Vassoureiro, 75, é um dos maiores produtores de máscaras. É a terceira geração da família a se dedicar ao ofício.

Em seu ateliê aberto a visitação Lula umedece tiras de jornais velhos na água e as gruda com uma cola feita de trigo em um molde de máscara. “De vez em quando eu faço isso, ó”, diz, levando um punhado da cola à boca. “É feito canjica.” O artesão leva cinco minutos para montar uma máscara, sem a pintura. 

Na Estação da Cultura, instalada em antiga estação de trem no centro de Bezerros, há uma mostra permanente de fantasias e máscaras de papangus. O curador, Roberval Lima, 50, conta que o nome papangu se refere ao comedor de angu, prato preparado com fubá, água e sal, que até hoje é servido aos foliões.

Além dos papangus, a cultura dos cordéis arrasta turistas a Bezerros. Trata-se da terra natal de J. Borges, 84, cujas xilogravuras são conhecidas mundialmente. Seu ateliê é aberto: se você der sorte, verá o próprio trabalhando.

Há xilogravuras de Borges à venda também no Centro de Artesanato. O espaço tem um museu do artesanato pernambucano que inclui bonecos e a famosa renda Renascença. A visita vale a começar da entrada, com jardim de plantas típicas do agreste e do sertão.

Em São Lourenço da Mata, a 21 km de Recife, resiste um outro folguedo de tradição europeia medieval no qual foliões fantasiados de ursos saem à rua pedindo dinheiro. “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”, diz o verso da marchinha (pirangueiro significa pão-duro). No passado, grupos ciganos pediam esmola com ursos reais amarrados. Aqui, o costume virou Carnaval e ganhou uma orquestra de percussão.

A cidade tem cinco grupos de urso que brincam durante todo o ano. O bairro do Pixete reúne a maioria deles.

Conceição Roberta, 50, presidente do grupo Marrom Teimoso, conta que também há sambadas de urso, no mesmo espírito de competição das sambadas de maracatu.

Os ursos dançam em frente aos músicos, ao som de batuques. Seus movimentos dão a sensação de que a pelagem da fantasia está vibrando. Na orquestra, destaca-se o “treme-terra”, espécie de surdo. No momento da “rajada”, o encerramento do folguedo, os músicos aceleram o ritmo. Vale ver e ouvir de perto: nas batidas mais agressivas você sente, de fato, o solo tremer.

O principal ponto da cidade é o Alto da Igreja, praça central em uma área elevada com bancos, coreto, a paróquia de São Lourenço Mártir e uma ótima vista dos morros da região.

A 500 m da praça, outro lugar com vista é o Belisco’s Café, que diz se inspirar na culinária francesa sem perder o sotaque pernambucano. O carro-chefe é o crepe Chico Science (R$ 19,90), com carne de sol, abacaxi, queijo coalho e mel de engenho.

Artesanato é bom motivo para visitar cidades menores

Quem gosta de arte popular vai se divertir em Tracunhaém (“formigueiro”, em tupi-guarani), município na Zona da Mata pernambucana que se tornou um polo famoso de produção de peças de barro. Há desde objetos utilitários até obras decorativas. Seu Centro de Artesanato reúne trabalhos feitos por mais de 20 artesãos locais. Durante a visita, é possível observar os artistas trabalhando na área equipada com fornos. 

A 13 quilômetros dali fica Lagoa do Carro, conhecida como terra do tapete. Criada há 30 anos, a associação de tapeceiras da cidade, aberta ao público, comercializa, além de seu produto principal, almofadas, pesos de porta e bolsas, tudo produzido à mão. As artesãs se orgulham de ter criado o ponto jasmim e se preocupam com a formação de novas gerações de tapeceiras.

Em Bezerros, o Centro de Artesanato é composto por loja, museu, auditório e um jardim de plantas características do agreste e do sertão. Ali, há mais mais de 5.000 peças artesanais, confeccionadas em diferentes partes de Pernambuco, à venda, como os objetos de barro da região de Caruaru. 

Boneco gigante no museu do Centro de Artesanato em Bezerros (PE)
Boneco gigante no museu do Centro de Artesanato em Bezerros (PE) - Divulgação

O museu apresenta um panorama da produção artesanal no estado e destaca os ofícios mais emblemáticos.

Vizinha a Bezerros, Gravatá tem a Estação do Artesão, ideal para escolher um suvenir e apoiar a cultura popular do agreste. Esculturas de alumínio e bonequinhas da sorte —feitas de pano com pouco mais de um centímetro— são os itens mais tradicionais.

A jornalista viajou a convite da Secretaria de Turismo de Pernambuco

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