Além da origem, Brasil não sabe destino do óleo retirado de praias

Ibama, Marinha e Petrobras repassam responsabilidade sobre armazenamento; em PE, petróleo vai para empresa privada

Matheus Moreira
São Paulo

Mil toneladas de óleo já foram retiradas do litoral nordestino, segundo o governo, mas seu destino é incerto. O Ibama, a Marinha e a Petrobras têm versões diferentes sobre o armazenamento do material, e os sites dos órgãos tampouco dão orientações sobre o que fazer com o petróleo recolhido —parte do trabalho de limpeza das praias é feita por voluntários.

Em nota, a Marinha disse que metade do material já teve “destinação final realizada”, mas não explicou o que foi feito com o óleo nem onde foi armazenado. Após a reportagem pedir mais detalhes,  Alexandre Rabello de Faria, contra-almirante da organização, disse à Folha que, num primeiro momento, o acúmulo está sendo feito na Petrobras até a destinação final.

Já o Ibama afirmou que a orientação neste momento é que as prefeituras das cidades atingidas cuidem do armazenamento do óleo. “O Ibama e o respectivo órgão estadual vão mensurar após o incidente, o volume total recolhido por todos os atores (Petrobras, Marinha do Brasil, prefeituras e voluntários) e propor a melhor destinação: aterro para resíduos perigosos ou incineração em fornos de cimenteiras”, afirmou o Ibama. 

O órgão não respondeu se o óleo está sendo armazenado como orientado. 

De acordo com funcionários de secretarias estaduais de meio ambiente do Nordeste ouvidos pela Folha, o Ibama não está repassando informações às entidades municipais e estaduais.

Na cidade de Conde, na Bahia, por exemplo, sacos com óleo recolhido de praias foram armazenados a céu aberto e abandonados. A reportagem não conseguiu contato com a prefeitura até a publicação deste texto e o site oficial do órgão está fora do ar.

Um profissional que acompanhou os trabalhos de limpeza e preferiu não se identificar disse que viu o óleo coletado em Cabo de Santo Agostinho (PE) ser enterrado, com ajuda de um trator, em um buraco na praia afastado do mar. 

A reportagem também ouviu relatos de que muitos sacos de plástico com óleo se rasgaram e despejaram o material no solo.

Procurada, a Petrobras não confirmou a informação da Marinha e também não respondeu aos questionamentos da reportagem, reservando-se a dizer apenas que o Ibama é o responsável por definir o destino do material recolhido pela estatal. 

Faria afirmou que a indústria do cimento demonstrou interesse no óleo, mas ressalta que ainda não há um acordo firmado nem decisão da parte do governo federal. 

Na terça (22), a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) confirmou que tem interesse em receber o material para utilizá-lo como combustível e matéria-prima para a indústria. 

“Se viabilizado o uso, esse material será totalmente destruído, evitando assim novos impactos ambientais causados por um eventual descarte incorreto”, disse a associação, que representa dez grupos responsáveis por 80% da produção de cimento do Brasil.

Faria disse que, apesar da atuação do Ibama, os estados estão buscando caminhos próprios. “Há iniciativas de estados para a destinação direta do óleo em aterros de resíduos perigosos, devidamente lacrado e impermeabilizado.”

Em Salvador, as 104,8 toneladas recolhidas até quarta (23) estão armazenadas na Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana), segundo a prefeitura. O município vem seguindo a orientação do Ibama desde o último dia 10, quando o óleo apareceu pela primeira vez na capital baiana. 

Em Pernambuco, estado que já teve ao menos 21 locais atingidos, o material recolhido está sendo entregue à empresa privada EcoParque Pernambuco. 

A companhia foi acionada pela Semas (Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco) no último sábado (19). Desde então, cerca de 480 toneladas de óleo retiradas da costa do estado foram entregues ao centro de tratamento de resíduos da empresa, segundo Laércio Braga Chaves, diretor técnico da EcoParque. 

Chaves afirma que o material recolhido será processado, misturado a resíduos industriais, triturado e peneirado para servir de combustível na indústria do cimento, substituindo o coque de petróleo, um derivado refinado do óleo. 

Já no Sergipe, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente afirma que o material está sendo recolhido por empresas terceirizadas pela Petrobras e levado para uma unidade da estatal, no município de Carmópolis, a Estação do Alto do Jericó. 

Até o momento, pelo menos 238 locais de 88 cidades dos nove estados do Nordeste foram afetados pelas manchas de óleo que atingem a região desde 30 de agosto. Veja a lista.

Nesta semana, as manchas chegaram às praias do Morro de São Paulo, o terceiro maior destino turístico da Bahia, e voltaram a atingir as praias de Pernambuco, o segundo estado a registrar as manchas de óleo em sua costa. 

Segundo o MPF, trata-se do maior desastre ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão.

Colaborou Phillippe Watanabe, de São Paulo; com Reuters
 

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