Voluntários relatam intoxicação após manuseio de óleo nas praias

Casos refletem a desorganização das ações de retirada do óleo das praias do Nordeste

João Pedro Pitombo João Valadares
Salvador e Recife

Era o primeiro dia em que a estudante de biologia Laís Araújo, 22, participava de um mutirão de voluntários para recolher o óleo nas praias do litoral de Pernambuco.

Após algumas horas de trabalho, os sintomas surgiram. Primeiro, veio o ardor nos olhos. Depois, uma dor de cabeça muito forte. Ainda sentiu falta de ar, cólica, náusea e coceira no corpo. Foi atendida por um médico no próprio local.

“Ele disse que eu não poderia mais trabalhar na remoção do óleo, mas tive que continuar para ajudar a minimizar a poluição nas nossas praias”, afirma.

Assim com Laís, outros voluntários e trabalhadores que têm atuado na limpeza das praias também estão sob risco de intoxicação com o petróleo, que possui componentes tóxicos e nocivos à saúde.

Os casos refletem a desorganização das ações de retirada do óleo das praias nos últimos dois meses, quando milhares de voluntários, servidores de prefeituras e até mesmo praças da Marinha atuaram sem a devida proteção.

Nas últimas semanas, não foram raras as imagens de pessoas retirando o óleo em trajes do dia a dia, sem proteção nas mãos, nos pés e no rosto.

Apenas em Pernambuco, a Secretaria Estadual de Saúde registrou 19 casos de pacientes que procuraram unidades de saúde após manusearem o óleo.

Dos 19 casos, 17 ocorreram no município de São José da Coroa Grande e dois em Ipojuca, ambos no litoral sul de Pernambuco Todos apresentaram sintomas leves, como vômito, náusea e ardência nos olhos.

Os casos estão em processo de investigação pelas equipes de Vigilância em Saúde, mas a principal suspeita é de que o mal-estar dos pacientes tenha sido causado pelo contato com o óleo e também pelo uso indevido de solventes para retirada do petróleo grudado no corpo.

Especialistas afirmam que recolhimento do óleo deve ser feito apenas com equipamentos de proteção individual como luvas de látex, botas impermeáveis, máscaras respiratórias e macacão de proteção.

“Quando é exposto ao sol, o óleo começa a vaporizar e a liberar gases tóxicos”, explica o biólogo Ícaro Moreira, professor do curso de Engenharia Ambiental da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Caso não esteja devidamente protegido, o trabalhador ou voluntário que entrar em contato com o óleo pode sofrer dores de cabeça, náuseas, vômitos, vertigem, dermatites e até queimaduras.

Em determinados casos, o mal-estar pode acontecer mesmo que a pessoa esteja devidamente protegida, como foi o caso da estudante Laís Araújo. Os sintomas apareceram apesar de ela ter usado todos os equipamentos de proteção recomendados pelas autoridades de saúde.

“Estava com botas, luvas e máscara. Mesmo assim, fiquei desse jeito. O material é muito tóxico”, afirmou a estudante, que integra o movimento Xô Plástico, que atua na limpeza de áreas de praia e manguezal.

Nesta sexta (25), o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, declarou que as praias do Nordeste que já foram limpas das manchas de óleo estão aptas a receber turistas. Ele não soube, porém, informar quais critérios técnicos utilizou para embasar a afirmação.

Especialistas contestam a afirmação e dizem que o banho de mar deve ser evitado nas praias que foram atingidas pelo óleo, mesmo que a praia já tenha sido limpa. Isso porque o petróleo também pode chegar à costa na forma dissolvida, na qual a sua presença é detectada apenas por meio de análises de laboratório.

“Esse petróleo na forma microscópica é um dos mais tóxicos”, diz o professor Ícaro Moreira. 

Caso a pessoa se suje com o óleo no mar ou na areia, a  orientação é não usar óleos solventes como querosene, gasolina, álcool, acetona e tiner. Segundo a Secretaria de Saúde de Pernambuco, o ideal é usar óleos vegetais, como óleo de cozinha ou outros produtos que contenham glicerina.

Além do contato de voluntários e com o óleo nas praias, também preocupa a contaminação com petróleo de peixes, mariscos e outros animais marinhos das áreas atingidas.

Um estudo de pesquisadores do Instituto de Biologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia), cujo resultado preliminar foi divulgado nesta quinta-feira (24), constatou a presença de óleo no organismo dos animais de áreas aonde o óleo chegou.

Até o momento, foram analisados 38 animais marinhos coletados em três praias do litoral norte da Bahia, uma das regiões mais afetadas pelo óleo.

Em todos eles, foi constatada a presença de óleo em seus organismos, principalmente nos sistemas digestivos e respiratórios. Os pesquisadores ainda aguardam uma análise química para verificar se os animais estão contaminados.

Até lá, a orientação é evitar consumir peixes, crustáceos e mariscos das áreas atingidas pelo óleo das praias impactadas.

Segundo o cadastro do Ministério da Agricultura, existem pelo menos 144 mil trabalhadores da pesca nas cidades atingidas pelo óleo.

Nesta quinta-feira (24), o presidente em exercício Davi Alcolumbre (DEM), assinou um decreto para prolongar por mais dois meses o pagamento do seguro-defeso a pescadores afetados pelo vazamento de óleo no Nordeste. O benefício, contudo, foi concedido a penas 50 mil profissionais.

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