Descrição de chapéu The New York Times

Diego, tartaruga cujo apetite sexual ajudou a salvar sua espécie, se aposenta

Número de espécimes passou de 15 para 2.000 graças ao programa de procriação do Parque Nacional de Galápagos

Aimee Ortiz
Nova York | The New York Times

Com seu pescoço longo e enrugado, face amarela e anódina, e olhos escuros, Diego tem alguma coisa de especial.

Tartaruga de mais de cem anos de idade, Diego nunca teve grandes problemas para se acasalar.

Membro da espécie Chelonoidis hoodensis, ou tartaruga gigante da ilha de Espanhola, parte do arquipélago das Galápagos, no Equador, ele era uma das 15 tartarugas que faziam parte de um programa de procriação em cativeiro no Centro Fausto Llerena de Tartarugas, na ilha de Santa Cruz.

Entre os machos do programa, Diego exibia um apetite sexual excepcional, a tal ponto que recebe crédito por ter ajudado a salvar sua espécie da extinção.

Agora, com o futuro da espécie garantido, ele poderá se aposentar.

 

Em um comunicado divulgado na sexta-feira (10), o Parque Nacional das Galápagos anunciou o fim do programa de procriação, afirmando que uma avaliação havia determinado que o programa atingiu seus objetivos em termos de conservação.

O programa começou em 1965, com esforços dedicados inicialmente a salvar a população de tartarugas da ilha Pinzón, outra ilha das Galápagos. Em 1970, os pesquisadores começaram a trabalhar para salvar as tartarugas da ilha Espanhola.

Na época, restavam 14 espécimes da tartaruga, 12 fêmeas e dois machos, de acordo com a Galápagos Conservancy. Em 1976, um terceiro macho, Diego, que havia vivido por 30 anos no zoológico de San Diego, nos Estados Unidos, foi incluído no programa de restauração da população.

O programa de procriação ajudou a ampliar a população de tartarugas de 15 para dois mil espécimes, afirmou Jorge Carrión, diretor do Parque Nacional das Galápagos, em comunicado.

Testes de paternidade indicam que Diego é responsável por cerca de 40% das crias produzidas, disse James Gibbs, professor de biologia ambiental e florestal na Universidade Estadual de Nova York, em Syracuse.

“Outro macho mais reservado e menos carismático, ‘E5’, gerou cerca de 60% das crias. O terceiro macho, ‘E3’, virtualmente nenhuma. Por isso, Diego foi crucial”, ele acrescentou.

O que Diego tem de especial? Por que ele atraiu tantas parceiras e conquistou tamanha atenção internacional, especialmente se o outro macho era mais produtivo?

Gibbs disse que Diego “tem uma personalidade marcante, é muito agressivo, ativo e expressivo em seus hábitos de procriação, e por isso acho que ele conquistou a maior parte da atenção”.

“Mas foi claramente o outro macho, mais discreto, que obteve sucesso muito maior”, ele acrescentou. “Talvez ele prefira se acasalar à noite”.

Gibbs disse que tudo gira em torno do macho que as fêmeas selecionam.

“Muita gente pode se surpreender com isso, mas é comum que tartarugas formem o que definimos como ‘relacionamentos’”, ele disse. “As hierarquias sociais e relacionamentos das tartarugas gigantes não são bem compreendidos”.

Carrión, o diretor do Parque Nacional das Galápagos, propôs uma explicação mais simples: “Sem dúvida, Diego tem algumas características que o tornam especial”.

Gibbs disse que as tartarugas gigantes se tornaram espécie ameaçada porque o acesso fácil à ilha permitiu que baleeiros, piratas, pescadores e outros as caçassem para alimentação, primariamente no século 19.

“Por muitos anos, a ilha foi dominada por bodes selvagens, que não só concorriam com as tartarugas pela comida mas destruíram boa parte de seu habitat”, ele acrescentou.

Em entrevista na noite de sábado (11), Carrión disse acreditar que Diego foi tirado de sua ilha natal, Espanhola, em algum momento da década de 1930.

Os conservacionistas também trabalharam para a restauração ecológica da ilha de Espanhola, o que incluiu promover o crescimento dos cactos que servem de comida para as tartarugas. Isso ajudou a recuperar a espécie que estava a ponto de se extinguir, disse Carrión.

Os cascos de formato único das tartarugas permitem que elas se estiquem para alcançar a comida. Diego, estendido ao seu máximo comprimento, atinge cerca de 1,5 metro. Ele pesa cerca de 80 quilos.

O programa de promoção da procriação é parte da Iniciativa de Restauração das Tartarugas Gigantes, um esforço colaborativo liderado pela Galápagos Conservancy e pela diretoria do Parque Nacional das Galápagos.

O centro de tartarugas da ilha Santa Cruz foi estabelecido pela Estação de Pesquisa Charles Darwin em 1965, informa a Galápagos Conservancy em seu site. Agora há três centros de tartarugas em operação, todos administrados pela diretoria do parque nacional.

Tomando por base dados disponíveis sobre a ilha e sua população de tartarugas no período iniciado em 1960, o que inclui um recenseamento conduzido em 2019, pesquisadores desenvolveram modelos matemáticos com projeções para os próximos 100 anos.

“A conclusão foi de que a ilha tinha condições suficientes para manter sua população de tartarugas, que continuará a crescer normalmente – mesmo sem qualquer repatriação de espécimes jovens”, afirmou Washington Tapía, diretor da Iniciativa de Restauração das Tartarugas Gigantes nas Galápagos, em comunicado.

Quase 80 anos depois de ser levado da ilha, Diego deve retornar a Espanhola em março.

A ilha é muito seca, e chega a ser árida, disse Carrión, mas, para Diego, ela é o lar.

Tradução de Paulo Migliacci

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto afirmou incorretamente que Diego, membro da espécie Chelonoidis hoodensis, é uma tartaruga marinha. Ele é uma tartaruga terrestre.

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