Descrição de chapéu Fórum Econômico Mundial

Esperar solução para pobreza com plantação na Amazônia é dar falsas esperanças, diz Gore

Político e ativista americano contesta afirmação de Guedes, mas diz que Brasil tem que ser respeitado

Davos

Al Gore, o ex-vice-presidente dos EUA convertido em ativista ambiental, respondeu ao comentário feito na véspera pelo ministro brasileiro Paulo Guedes (Economia) de que o maior inimigo do ambiente é a pobreza durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

“Hoje é amplamente entendido que o solo na Amazônia é pobre. Dizer às pessoas no Brasil que elas vão chegar à Amazônia, cortar tudo e começar a plantar, e que terão colheitas por muitos anos, isso é dar falsa esperança a elas”, afirmou. “Há, sim, respostas para a Amazônia, mas não é esta.”

Gore foi indagado sobre a afirmação de Guedes pela mediadora durante um painel a respeito da Floresta Amazônica do qual participa ao lado do cientista brasileiro Carlos Nobre, do presidente da Colômbia, Ivan Duque, e da primatologista britânica Jane Goodall no palco mais nobre do evento. 

A preservação ambiental é um dos eixos da reunião do Fórum neste ano, e a Amazônia é um foco de preocupação em uma Davos que, em pleno inverno nos Alpes Suíços, amanheceu sem neve nas ruas e temperaturas amenas. 

“Os brasileiros, desde sempre, falam que não querem que outras pessoas se metam na questão amazônica. E isso deve ser respeitado” ponderou Gore antes de criticar a declaração de Guedes.

Al Gore durante sessão do Fórum Econômico Mundial, em Davos
Al Gore durante sessão do Fórum Econômico Mundial, em Davos - Denis Balibouse/Reuters

O ministro brasileiro fizera o comentário durante uma sessão na terça-feira (21) cujo tema era manufatura.

Questionado pela mediadora sobre como os governos poderiam lidar com o medo da população das consequências da mudança climática, Guedes apontou a pobreza como inimiga do ambiente e disse que o Brasil primeiro precisava consertar outros problemas nessa equação. 

Lembrou, também, que as preocupações de quem desmata hoje poderiam ser diferentes daquelas de quem desmatou no passado —uma aparente alusão ao embate entre países emergentes e ricos sobre quem deve se responsabilizar financeiramente pela redução das emissões de gases-estufa.

Durante o painel desta quarta (22), Gore elogiou o trabalho de Nobre e lembrou do projeto do cientista para que a floresta trabalhe com culturas que já produz e que têm maior valor agregado, como o açaí.

O cientista, por sua vez, disse esperar que no próximo ano, quando voltar, possa celebrar menos desmatamento na Amazônia, e que para tanto era preciso da colaboração de todos os envolvidos na cadeia global de produção —empresas inclusive.

Gore também aproveitou para cutucar o presidente americano, Donald Trump, que na véspera discursara e pedira que as pessoas rejeitassem o alarmismo ambiental

“Temos que agir agora, e sabemos o que precisa ser feito, para frear o aquecimento global. O que falta é vontade política”, disse Gore, completando com uma alusão às eleições americanas em novembro. “Felizmente, vontade política é um recurso renovável.”
 

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