Descrição de chapéu pantanal

Foto do Pantanal em cinzas de Lalo de Almeida para a Folha é finalista em prêmio global

World Press Photo anuncia concorrentes a foto do ano e aborda o pós-tragédias

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São Paulo

As imagens captadas pelo fotógrafo da Folha Lalo de Almeida ao longo das queimadas que devastaram o Pantanal em 2020 estão entre as finalistas na categoria Ambiente do World Press Photo, a mais prestigiosa premiação de fotojornalismo do mundo, anunciadas nesta quarta (10).

A sequência de fotografias de Lalo, que ao longo de meses cobriu os incêndios na região ao lado do repórter Fabiano Maisonnave, ganha força principalmente pelo registro de um bugio ajoelhado e carbonizado.

A semelhança com a figura humana e a dificuldade para distinguir a diferença entre o corpo do animal e o cenário em volta todo destruído são outros elementos marcantes da foto.

Desde 2019, quando o World Press Photo passou a divulgar os finalistas a foto do ano antes de anunciar o vencedor da categoria, o prêmio oferece um panorama mais amplo do que aconteceu no ano anterior e dá pistas de como o júri de cada edição chegou ao resultado final.

Até então, a fundação holandesa revelava apenas a fotografia eleita, monopolizando a atenção para um assunto específico, quase sempre relacionado a conflitos.

Ainda assim, nos últimos dez anos houve duas exceções significativas: as escolhas das imagens do dinamarquês Mads Nissen, de um casal gay na Rússia em um momento de intimidade, em 2015, e do americano John Stanmeyer, um ano antes, de imigrantes africanos com os braços esticados para conseguir captar sinal em seus celulares.

Além dos temas pouco usuais para vencedores da categoria, as imagens se destacaram por não exibirem momentos eletrizantes. Essa tônica, uma marca fundamental do fotojornalismo, deve continuar a ter força no World Press Photo, mas os finalistas deste ano apontam para um caminho diferente.

Entre os seis indicados, há uma foto de conflito —a disputa entre azeris e armênios por Nagorno Karabakh—, outra do tema obrigatório de 2020 —a pandemia de coronavírus— e, por fim, o registro da tragédia em Beirute, onde uma explosão na zona portuária da capital libanesa deixou centenas de mortos.

A segunda metade dos finalistas muda a chave. Além de uma imagem que aborda questões raciais —a remoção de uma estátua em Washington— e outra que discorre sobre pessoas transgênero, o World Press Photo selecionou pela segunda vez para a principal categoria do prêmio um registro ligado a ambiente.

Na primeira vez, em 2019, a imagem escolhida trazia uma integrante de um grupo anti-caça para a preservação da natureza no Zimbábue. A imagem de uma mulher com arma na mão e uniforme militar, porém, versava mais sobre empoderamento feminino do que meio ambiente. Já a fotografia do espanhol Luis Tato exibe um homem tentando espantar gafanhotos que devastam pastagens no Quênia.

Curiosamente, é essa a fotografia que, entre os finalistas de 2021, representa o filão de imagens de impacto imediato, facilmente encontrável em revistas como National Geographic.

Todas as outras, porém, são mais silenciosas.

A foto do espanhol também causa espanto porque o episódio retratado não foi uma pauta proeminente no ano passado. Ainda que esteja ligado à mudança climática, o problema dos gafanhotos nem de longe ocupou no noticiário o espaço que os incêndios no Pantanal, capturados por Lalo, ocuparam.

Esta é a segunda vez que o profissional figura entre os indicados ao prêmio. Em 2017, ele ficou em segundo lugar na categoria de assuntos contemporâneos com uma série sobre famílias afetadas pelo zika vírus.

Ainda que Lalo seja o único brasileiro na edição deste ano, o Brasil está presente na categoria principal. Mads Nissen, dinamarquês vencedor do World Press Photo pelo retrato do casal gay em 2015, fotografou no país a crise da Covid-19.

A imagem, como tantas que vimos no ano passado, mostra o primeiro abraço de uma idosa em cinco meses. Rosa Luzia Lunardi, 85, aparece de costas, em São Paulo, abraçando uma enfermeira e enrolada em um plástico que acaba assumindo um formato parecido ao de asas de anjo.

Assim como outros dois finalistas —a foto de um ferido pela explosão no Líbano, registrada por Lorenzo Tugnoli, e a de uma família armênia atingida pela guerra com o Azerbaijão, de Valery Melnikov—, a foto de Nissen se dedica mais ao momento posterior de uma crise do que a crise em si.

As escolhas do World Press Photo talvez indiquem um caminho: quando o imediatismo é a regra, a dedicação aos desdobramentos de grandes histórias oferecem compreensão maior dos fatos.

Os vencedores serão anunciados no dia 15 de abril.

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