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Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"

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Coronavírus

A volta dos que não foram

Não é porque vacinamos que vamos sair por aí fazendo suruba ou trenzinho de lambada

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Eu sei, eu sei, eu sei: não é porque vacinamos que devemos sair por aí fazendo suruba, trenzinho de lambada ou lambendo o corrimão do trem. Enquanto não estiver todo mundo imunizado segue a chatice de máscara, distanciamento, álcool gel, lavar a mão cantando mentalmente dois parabéns pra você, inteirinhos (confesso que desde outubro do ano passado começo direto no "é pique é pique"). Alguma hora, contudo, a vida vai voltar ao normal e iremos rever as pessoas. É aí que a coisa complica.

Diante da piracema social que se anuncia, tenho ouvido muita gente afirmar que pretende dar uma, digamos, aparada nos contatos. Os americanos já devem ter nome e acrônimo pra isso. Tipo FOMA –"fear of meeting again". O que poderia ser vendido no Brasil, numa livre tradução, por PHODE: "Preguiça Horripilante, Ô, De Encontrar".

Faz sentido. Estamos há muitos meses nos imaginando correndo pela praia feito um comercial de Molico, não queremos descobrir no dia um da liberdade que temos de ir a dois lançamentos de livro, um aniversário do ex-concunhado, seis chás de bebê, três chás de revelação e outros chás de cadeira.

Os mais radicais na poda social –aqueles que pretendem transformar chorões em bonsais– chegam a dizer que ninguém precisa de mais de dez pessoas para ser feliz. Outros, mais comedidos –querem só aparar as pontas– falam em 50, 100 contatos, embora as escolas divirjam sobre o número mágico ser só de amigos ou já incluir familiares.

Acertar o downsizing no quadro de funcionários de nossa vida sentimental não significa somente decidir o número dos que ficam, mas o objetivo deles, ou melhor, nosso, em relação a eles. O que você quer no "novo normal"? Cair na vida como se não houvesse amanhã? Acordar pelado às três da tarde numa cama desconhecida abraçado ao troféu de "Folião 2022" do Clube Esperia? Ou, como um piloto que sai dos boxes depois de trocar os pneus, quer recuperar o tempo perdido na carreira e sair fazendo amigos e influenciando pessoas? Talvez sua reengenharia não tenha tanto um objetivo final, mas prime pela seleção em si. Manter do lado apenas as pessoas de quem gosta e que gostam de você. Cortar fora as falsianes, os interecélios, os malas sem alça e os com, também.

Ao ver a dificuldade chegando a galope, resolvi criar uma nova profissão: o coach de recolocação social. Como uma Marie Kondo flamejando uma meia velha diante de um armário, a coach lerá nome a nome da sua lista de telefones, perguntando: "Fabiano Boucinhas: tem alguma função na sua vida ou algum valor afetivo?". Caso o Fabiano seja o goleiro no seu futebol de terça ou seu melhor amigo da segunda à oitava série, mantém. Caso seja um cara que você abraçou empolgado num bar em 2011 jurando que no dia seguinte iriam se falar para organizar um bloco de Carnaval ou compor uma versão de Wooly Bully em trash-metal universitário, deleta.

O último dia desta rearrumação, espécie de formatura pré-liberdade, será a/o profissional pronunciar o próprio nome e perguntar: "Mantém ou deleta?". Então sairemos todos de casa, sem Lysoform e sem documento, atrás de novos desafios ou velhos amores. Ou velhos desafios e novos amores. Ou o que quer que queiramos depois desta porcaria de joça de puerra lueca de quinto dos infernos em que uma microscópica mamona assassina inventou de nos meter.

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