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Trump joga holofotes sobre extremistas dos Proud Boys, que atuam contra atos antirracismo

Fraternidade criada em 2016 foi citada pelo presidente americano durante debate na TV

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São Paulo

Para os Proud Boys, o modo de vida ocidental está em perigo e precisa ser defendido da ameaça representada por estrangeiros, especialmente os muçulmanos.

O nome do grupo, no entanto —que ironia—, vem da música "Proud of your Boys" (orgulho dos seus garotos), da trilha do filme "Alladin", produção da Disney inspirada em um conto do Oriente Médio.

Aberta apenas para homens, a fraternidade ganhou holofotes nesta semana, após Donald Trump citá-la no debate de terça (29). "Proud Boys, stand back and stand by", disse o presidente que busca a reeleição, ao ser questionado se condenaria a ação de grupos supremacistas brancos.

Participantes de protesto se ajoelham enquanto organizador lê oração durante ato organizado pelos Proud Boys em Portland - Maranie R. Staab - 26.set.20/AFP

A menção ao grupo, que pode ser traduzida como "afastem-se e esperem", foi celebrada por seus membros, porque, de leitura dúbia, a declaração também pode ser entendida como "fiquem esperando, prontos para agir". Agora, camisetas com a frase do presidente já estão à venda.

Criado em 2016 por Gavin McInnes, co-fundador do conglomerado Vice Media, os Proud Boys chamaram a atenção ao confrontarem, com uso da violência, manifestantes antirracismo durante protestos, ainda que neguem serem racistas, jogando com a mesma estratégia ambígua de Trump.

Um dia após o debate presidencial, na quarta (30), por exemplo, Alan Swinney, um membro da fraternidade, foi preso sob 12 acusações, como a de disparar tiros com armas de paintball contra ativistas em Portland.

McInnes deixou a Vice em 2008 e passou a ser figura frequente em meios de comunicação ligados à extrema direita, nos quais divulgava sua visão de mundo.

Os valores defendidos pelo grupo, como fechamento das fronteiras, diminuição da presença do Estado, abolição do politicamente correto, defesa do porte de armas e glorificação do empreendedorismo, frequentemente se tornam base para discursos de ódio —e por isso eles foram banidos por Facebook, Instagram e Twitter.

Hoje, reúnem 55 mil seguidores no Parler, plataforma que tem sido um porto seguro para a extrema direita.

Em diversas entrevistas, McInnes disse ter orgulho de ser branco e deixou claro que considera pessoas de outras origens, como negros, latinos, muçulmanos e indianos, seres inferiores.

Também já deu declarações questionando a capacidade intelectual das mulheres e fez ataques a transgêneros, segundo o instituto Southern Poverty Law Center (SPLC), que investiga grupos de ódio. Ele diz que as frases foram tiradas de contexto e que não têm ligação com supremacismo branco.

Os Proud Boys também idolatram Roger Stone, ex-lobista e amigo de Trump que se gaba de usar qualquer método possível para conseguir o que quer. Condenado à prisão por mentir a investigadores, recebeu um indulto presidencial pouco antes de expirar o prazo para ir à cadeia.

O primeiro grande embate público envolvendo o grupo ocorreu em Charlottesville, em agosto de 2017.

Diversos grupos de extrema direita foram até a cidade para uma passeata contra a remoção da estátua de Robert E. Lee, general da Guerra Civil que defendia a escravidão. Alguns participantes usavam suásticas no braço ou empunhavam tochas, aludindo à Ku Klux Klan.

Naquela ocasião, houve embates com grupos antirracistas. Uma manifestante que protestava contra os supremacistas brancos foi morta, e vários outros ficaram feridos. Membros dos Proud Boys estiveram em vários outros atos antirracismo, com armas e trajes militares, para tentar dissuadir as manifestações.

Em 2018, nove participantes foram processados após atacarem ativistas em Nova York.

Naquele ano, o FBI classificou os Proud Boys como um "grupo extremista com laços com o nacionalismo branco". O órgão federal enviou um alerta às polícias locais de que membros do grupo contribuíram para a escalada de violência em comícios políticos em campi universitários e em cidades como Charlottesville, Portland e Seattle, segundo um relatório interno citado pelo jornal The Guardian.

O documento apontava ainda que "os membros têm defendido o fechamento das prisões, a entrega de armas para todos, a deportação de todos os imigrantes ilegais e o fechamento do governo". Após a revelação do relatório do FBI, McInnes deixou o grupo.

Estimativas da imprensa americana apontam que os Proud Boys têm apenas algumas centenas de membros. Seu site lista filiais na Austrália, no Canadá e em alguns países europeus.

Segundo o instituto SPLC, as regras do Proud Boys incluem o veto à masturbação, pois isso aumentaria o desejo sexual, algo capaz de tornar os homens dependentes das mulheres. Eles também defendem a veneração das donas de casa e criticam o feminismo.

Há ali uma hierarquia. Para chegar ao quarto nível, é preciso se envolver em uma briga física pela causa, de acordo com o SPLC. Antes, no terceiro nível, deve-se fazer uma tatuagem.

Outro símbolo de identificação é uma camisa polo preta, com listras amarelas na gola. Bonés com a frase "Make America Great Again", lema de Trump, são bastante comuns, assim como trajes militares.

Os Proud Boys entraram na Justiça contra o SPLC e contra jornalistas que fizeram reportagens sobre o grupo, alegando terem sido alvo de difamação. Oficialmente, o grupo diz estar aberto a pessoas de todas as origens e orientações sexuais, desde que compartilhem a visão de que o Ocidente é melhor em tudo.

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