Dieta americana acaba com os micróbios 'de fábrica' dos imigrantes

Diversidade de microrganismos caiu e obesidade aumentou, segundo estudo publicado na Cell

Ben Guarino
Washington

Dentro de você existe um império de germes com trilhões de moradores. Cerca de 250 gramas de bactérias e seus genes formam nosso microbioma. Ainda que micróbios sejam pequenos, um microbioma saudável e diversificado é poderoso. Sua influência, sugerem estudos, permeia a condição humana — de viradas de humor a ganhos de peso.

O microbioma começa como um presente final da mãe, quando uma criança nasce, mas muitos fatores afetam sua composição. Há provas crescentes que indicam que a localização geográfica tem impacto profundo sobre a diversidade de micróbios, e alguns lugares são muito menos diversos que outros.

Um novo estudo publicado esta semana pela revista Cell acompanha imigrantes de várias gerações do sudeste asiático que se mudaram para os Estados Unidos. Seus micróbios reagiram a essa mudança. E ao chegarem ao território americano, a diversidade microbiana das imigrantes se reduziu e passou a se assemelhar aos microbiomas muito menos variados dos americanos de origem europeia. Ao mesmo tempo, a presença de obesidade entre as imigrantes disparou.

Bacteroides fragilis, uma das bactérias componentes da microbiota do intestino humano (crédito Fotolia)
Bacteroides fragilis, uma das bactérias componentes da microbiota do intestino humano - Kateryna_Kon - stock.adobe.com

"Constatamos que a mudança para um novo país altera o microbioma de uma pessoa", disse Dan Knights, microbiólogo computacional da Universidade de Minnesota e um dos autores do estudo. "Você adquire o microbioma do novo país e possivelmente alguns dos novos riscos de doença que são mais comuns naquele país".

Nos Estados Unidos, os imigrantes estudadas passaram a comer alimentos mais ricos em açúcares, gorduras e proteínas. Seus microbiomas mudaram em apenas alguns meses.

"As pessoas começam a perder seus micróbios nativos quase imediatamente, depois de chegarem aos Estados Unidos", disse Knights. "A perda de diversidade é bastante pronunciada. Basta vir aos Estados Unidos, basta viver nos Estados Unidos, e a perda de diversidade do microbioma é da ordem de 15%."

O índice de obesidade entre muitas dos imigrantes estudados também aumentou em 600%. As pessoas que se tornaram obesas também perderam 10% adicionais da diversidade de seu microbioma. "E os filhos de imigrantes", disse Knights, "sofreram mais 5% ou 10% de perda".

Com a queda da diversidade microbial, aumenta o risco de doenças como diabetes e obesidade. "Estudos anteriores já haviam revelado que os moradores de países em desenvolvimento tendem a ter maior diversidade em seu microbioma, e menor risco de doenças metabólicas", disse Knights. "Também era sabido que se mudar de um país em desenvolvimento para os Estados Unidos eleva o risco dessas doenças". Mas ninguém havia testado, até agora, se o microbioma mudava depois que a pessoa se torna imigrante.

"A associação percebida entre mudanças de fatores dietéticos, rumo a uma dieta nutricional mais 'ocidental', e a perda de diversidade bacteriana foi particularmente notável"", disse Eran Elinav, que estuda o microbioma humano no Instituto Weizmann de Ciência, em Israel. (Em 2014, Elinav e colegas reportaram que viajar a fusos horários distantes, de avião, altera o microbioma, como se os germes sofressem de "jet-lag".)

Mas as mudanças na dieta ocorreram mais devagar que as mudanças no microbioma, o que sugere que há outros fatores, além da comida americana, em ação. "Constatamos que a dieta não basta para explicar a rápida ocidentalização do microbioma", disse Knights. É possível que diferenças na água potável e nos antibióticos também contribuam.

O novo estudo ajuda a sustentar a hipótese de que o estilo de vida ocidental influencia o microbioma. O nível de industrialização tem correlação com uma queda de diversidade: os povos indígenas da América do Sul, por exemplo, tem cerca de duas vezes mais espécies de micróbios em seus organismos que a pessoa média dos Estados Unidos.

"Sabíamos com base em alguns estudos pequenos, realizados sem grupo de controle, que o microbioma muda - e sabemos há muitos anos que adotar um estilo de vida ocidental está associado a uma presença maior de doenças", disse Jack Gilbert, especialista em ecossistemas microbiológicos e diretor do Centro de Microbioma da Universidade de Chicago, que não participou do estudo. "Isso une os dois conceitos".

Knights e seus colegas, parte do Projeto Microbioma Imigrante, examinaram microbiomas por meio de amostras de fezes de mais de 500 mulheres. Dois grupos étnicos da Ásia, os hmong e os karen, representam grande proporção dos imigrantes radicados em Minnesota. (Homens não foram incluídos no estudo porque o número de mulheres dessas comunidades que se mudaram para o estado é substancialmente mais alto que o de homens.)

Algumas das mulheres hmong e karen estudadas viviam na Tailândia e lá ficaram. Outras eram imigrantes de primeira e segunda geração nos Estados Unidos. Para obter um retrato do antes e depois, os pesquisadores obtiveram amostras de microbioma de 19 mulheres karen antes de sua partida e depois de sua chegada. Os cientistas compararam todos esses microbiomas aos de 36 mulheres de ascendência europeia nascidas nos Estados Unidos.

A espécie dominante no microbioma mudou de variantes da bactéria prevotella para um grupo de bactérias conhecido como bacteroides. A bactéria prevotella produz enzimas usadas na digestão de alimentos fibrosos mais comuns na Ásia que nos Estados Unidos. Na Tailândia, as mulheres comiam mais palmitos, cocos, tamarindo e a parte bulbosa de uma planta chamada konjac.

"A qualidade da análise de dieta foi a melhor possível, para qualquer amostra populacional. Sim, fatores de estilo de vida podem influenciar essas tendências, mas as tendências que observamos poderiam ser facilmente explicadas por mudanças de dieta", disse Gilbert.

"Sabemos, com base em estudos com animais, que a presença do conjunto errado de micróbios pode causar obesidade", disse Knights. Em uma pesquisa pioneira conduzida pela Universidade Washington, em St. Louis, cientistas removeram germes de mulheres obesas e os transplantaram para camundongos saudáveis. Os camundongos ganharam peso, mesmo que estivessem recebendo a mesma alimentação que colegas roedores mais magros.

Os autores do atual do trabalho não têm provas de que as mudanças microbianas aumentam diretamente o risco de obesidade em mulheres imigrantes, no entanto. É possível que o estilo de vida ocidental cause a obesidade e que o microbioma se ajuste independentemente. Ou uma sequência de eventos poderia ocorrer: uma nova dieta e estilo de vida levaria a micróbios diferentes, e esses micróbios, como sugerem os estudos com ratos, teriam efeito direto sobre a obesidade. Por enquanto, "não existe prova formal" que conecte alterações no microbioma a doenças humanas, disse Elinav.

Knights suspeita de que esses padrões se apliquem a pessoas de todo o mundo que adotem os estilos de vida de países ocidentais, ou que se mudem para esses países. "Porque pudemos confirmar as mesmas constatações em dois grupos étnicos diferentes, antecipamos que coisa semelhante aconteça em outros grupos de imigrantes", ele disse. Mas, como sempre, caberá a pesquisas futuras provar se essa previsão é verdade.

Tradução de Paulo Migliacci

The Washington Post
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