Diferenças de gênero, raça e classe têm influência da genética, diz cientista polêmico em livro

Obra anterior de Charles Murray, 'The Bell Curve', foi alvo de críticas severas nos anos 1990

São Carlos (SP)

Qualquer pessoa dada à ilusão de que os fatos falam por si quando questões importantes estão em jogo deveria ler com lupa e doses redobradas de ceticismo o livro “Human Diversity: The Biology of Gender, Race and Class” (“Diversidade Humana: A Biologia dos Gêneros, Raças e Classes”), do cientista político americano Charles Murray, 77.

De um lado, boa parte dos fatos que aparecem no livro de Murray –talvez 70% ou 80% deles– são apresentados de forma correta, embasados nas evidências científicas mais recentes sobre os temas espinhosos que o pesquisador decidiu abordar. De outro, o livro sofre de uma miopia assustadora quando tenta saltar da coleção de dados para as implicações sociais e de políticas públicas trazidas pela massa de informação que discute.

Protesto contra o racismo em Washington, nos EUA, em frente à Casa Branca
Protesto contra o racismo em Washington, nos EUA, em frente à Casa Branca - Olivier Douliery - 15.jun.20/AFP

O parágrafo anterior, aliás, talvez seja uma boa descrição da carreira do autor como um todo. Seu livro mais conhecido mundo afora, “The Bell Curve” (“A Curva do Sino” ou “A Curva Normal”), feito em parceria com o psicólogo Richard Herrnstein e publicado em 1994, foi alvo de críticas severas.

Na obra, a dupla defendeu que as diferenças de QI entre negros e brancos nos EUA seriam uma das causas importantes do status socioeconômico inferior das pessoas de origem africana, e que ao menos parte da variação entre raças no que diz respeito à inteligência teria origem genética.

Murray, que hoje trabalha no American Enterprise Institute (órgão dedicado a debater políticas públicas com viés conservador), claramente não se intimidou com a polêmica sobre questões raciais. Na verdade, decidiu voltar ao tema no novo livro, incluindo nele outros debates igualmente indigestos.

O cientista político resume as conclusões às quais chegou, após peneirar a literatura científica, numa espécie de decálogo que aparece logo no começo do livro (veja lista ao final deste texto). Os itens de 1 a 4 da lista são uma defesa da ideia de que existem diferenças consistentes, em média, entre homens e mulheres no que diz respeito a personalidade, aptidões cognitivas e interesses profissionais, e que boa parte dessas diferenças tem base biológica.

Nos itens que vão de 5 a 7, Murray argumenta que as distinções genéticas entre as grandes populações humanas (europeus, africanos, indígenas etc.) são consistentes com a classificação tradicional desses grupos em “raças”, e que tudo indica que tal variação genética também afeta o comportamento e a cognição (personalidade, inteligência etc.).

Por fim, os últimos itens do decálogo defendem que a estrutura das classes sociais depende de diferenças de capacidades que possuem “um componente genético substancial”. Em outras palavras: você é pobre (ou rico)? Boa parte da culpa é dos seus genes.

Ao longo de sua argumentação, o autor faz questão de se deter diversas vezes para destacar que nada daquilo deveria ser suficiente para servir de base para o preconceito ou para criar escalas de superioridade ou inferioridade para os gêneros, as raças ou as classes sociais. “Diferente” não quer dizer melhor ou pior, frisa Murray.

Charles Murray em sua casa em Maryland, nos EUA
Charles Murray em sua casa em Maryland, nos EUA - Brendan Smialowski - 1.fev.12/The New York Times

“As diferenças entre os grupos humanos são interessantes, e não assustadoras ou dignas de causar um terremoto. Se isso soa tedioso, este livro não é para você”, escreve Murray. “O grosso da variação que vemos no sucesso durante a vida não é explicada nem pela natureza [genética] nem pela criação. Não vivemos num mundo determinístico governado pelos genes ou pelas origens sociais, muito menos pela raça ou pelo gênero.” Ele até se recusa a empregar o termo “meritocracia” ao falar de diferenças sociais. “O ingrediente mais importante [do sucesso profissional], a variante ‘g’ [medida genérica de inteligência, obtida a partir de testes de QI], é questão de sorte.”

Tudo muito razoável, sem dúvida. E algumas constatações são difíceis de contestar, como a de que, nos países em que há mais igualdade de gênero (como os da Escandinávia), homens e mulheres têm tendência maior a seguir carreiras profissionais distintas, com elas preferindo trabalhar com pessoas (em áreas como o ensino e a medicina), eles lidando mais com coisas (engenharia, computação etc.). É plausível que diferenças biológicas sutis estejam por trás disso.

O autor, porém, avança o sinal repetidas vezes quando se põe a falar de raças e classes sociais. Para Murray, é praticamente artigo de fé que as próximas décadas de pesquisa genômica vão revelar que o DNA contribui de modo substancial para diferenças cognitivas entre grupos raciais.

Entretanto, tais características –controle de impulsos ou curiosidade inata, digamos– dependem de uma quantidade tão grande de genes, e estão submetidas a uma gama tão variada de pressões ambientais, que parece improvável que todas as sociedades de um continente tenham sido moldadas geneticamente de maneiras similares no que diz respeito a elas.

Porque é basicamente a isso –populações em escala continental– que o termo “raça” se refere. Considerando a diversidade de trajetórias pré-históricas e históricas dentro da Europa ou das Américas, digamos, faz algum sentido que, em média, os europeus como um todo sejam geneticamente mais propensos à cooperação (por exemplo) do que os indígenas como um todo? Murray não tenta discutir isso em momento algum.

O mesmo vale para questões de classe social. Murray é capaz de reconhecer que a pobreza extrema que existia em cidades americanas ou europeias do começo do século 20 não tinha a ver com a incapacidade genética dos pobres. No entanto, de algum modo, ele parece achar que as barreiras à ascensão social criadas pela pobreza se tornaram tão fracas, a partir dos anos 1960, que as pessoas que continuam nessa condição se tornaram uma espécie de subclasse de “pobres genéticos”.

Em alguns momentos, a impressão é de que o autor não pensou nas implicações do que ele próprio escreveu. A passagem a seguir é especialmente reveladora. Discutindo como o impacto dos pais sobre a personalidade e o sucesso profissional dos filhos é relativamente limitado –o QI, que depende em grande parte da genética, seria mais importante—, ele faz a seguinte ressalva: “O papel limitado do ambiente familiar não se aplica a situações da vida que podem ser determinadas diretamente pelo dinheiro. Se você é rico, pode transferir riqueza para seus filhos”.

Bem, é justamente isso que pode fazer a diferença entre pessoas talentosas sem acesso a recursos como financiamentos e gente medíocre que nunca vai precisar morar numa casa alugada na vida. Se Murray não é capaz de enxergar isso, não há como dar crédito às suas tentativas de tentar explicar a desigualdade “cientificamente”.

O lado biológico das diferenças de gênero, raça e classe, segundo Charles Murray

  1. Diferenças de personalidade entre os sexos são consistentes no mundo todo e tendem a aumentar onde há mais igualdade de gênero
  2. Em média, mulheres têm vantagens na habilidade verbal e na cognição social, enquanto os homens são melhores em tarefas visuais e espaciais e nos extremos da habilidade matemática
  3. Em média, mulheres preferem trabalhar com pessoas, enquanto os homens preferem trabalhar com coisas
  4. Diferenças sexuais no cérebro têm relação com diferenças de personalidade, habilidades e comportamento social
  5. Diferenças genéticas entre populações humanas costumam corresponder a etnias e raças
  6. A seleção natural atuou de modo intenso e local nas populações humanas mundo afora
  7. Diferenças entre populações continentais em variantes genéticas associadas a personalidade, habilidades e comportamento social são comuns
  8. O ambiente familiar influi pouco na personalidade, nas capacidades e no comportamento social
  9. A estrutura das classes sociais depende, em boa parte, de habilidades que têm um componente genético considerável
  10. Os efeitos de intervenções para tentar modificar a personalidade, as habilidades e o comportamento social são limitados

Human Diversity: The Biology of Gender, Race and Class

  • Preço R$ 51,68 (ebook)
  • Autor Charles Murray
  • Editora Twelve
  • Págs. 528
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