'Intervenção no Rio é jogo de xadrez de Temer', afirma especialista

Para presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública medida é paliativa

Dhiego Maia
São Paulo

Jogar para as Forças Armadas o comando da segurança pública do Rio de Janeiro foi uma jogada profissional de xadrez do governo de Michel Temer (MDB), que não conseguiu implementar medidas de fôlego na área. Essa é a opinião do sociólogo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em entrevista à Folha, Lima diz que a intervenção federal no Rio vai surtir, em um primeiro momento, efeitos paliativos, como a desarticulação de facções criminosas e uma diminuição dos índices de violência. "Mas serão momentâneos, porque pelo desenho que aí está nada foi feito para atacar a complexidade da questão, que envolve um trabalho conjunto das forças de segurança."

Renato Sergio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Renato Sergio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública - Silva Júnior/Folhapress

Confira trechos da entrevista concedida à Folha.


Folha - Como o senhor analisa a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro? 

Renato Sérgio de Lima - A intervenção é uma medida que vai deslocar a atenção por completo da pauta muito ruim da área que já era tocada por este governo. Um exemplo é o Plano Nacional de Segurança Pública, criado há um ano e que não obteve nenhum efeito prático. É um jogo profissional de xadrez habilidoso para atenuar um problema que não será resolvido agora e vai cair em cheio no colo do próximo presidente.

Na prática, como funcionará a intervenção?

O interventor [general Walter Braga Netto] passa a assumir toda a gestão da pasta da segurança, que inclui o orçamento, as estratégias de inteligência e os recursos humanos, como os bombeiros e as polícias Civil e Militar. Eu vejo que os policiais militares não terão muito problema nisso porque já são vinculados ao Exército e as culturas das duas instituições não são estranhas. Quem pode não gostar muito da ideia será a Polícia Civil, que vai perder sua autonomia.

Por que foi preciso fazer a intervenção no Rio?

O Rio chegou a esse ponto porque é um Estado central do país e tem forte cobertura midiática. Tudo que acontece lá ganha força. Mas nos esquecemos que o Rio vive a mesma explosão de casos de violência de Ceará, Rio Grande do Norte e Goiás. A intervenção foi uma jogada política para responder a uma situação de descalabro civil que se impôs e ganhou mais força com as últimas cenas de arrastões no Carnaval e de seu gestor declarando falhas nos planos de segurança.

O senhor acredita que a intervenção poderá reduzir os índices de violência no Rio?

Em um primeiro momento sim porque não estamos falando apenas da presença de homens das Forças Armadas, que já estão no Rio desde o ano passado. Haverá um novo desenho de estratégias e substituições de peças que não estavam dando certo. Crimes a mando de facções criminosas nas comunidades poderão cair, mas ainda acho que a medida vai gerar apenas um 'efeito-tampão'. É hora de discutir como as polícias estão organizadas, desarticular o crime organizado de dentro dos presídios e investir pesado em inteligência.


RAIO-X

Nome Renato Sérgio de Lima
Formação sociólogo; tem mestrado e doutorado na área (USP)
Cargos professor da FGV-SP e atual presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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