Entenda a importância do acervo do Museu Nacional, destruído pelas chamas no RJ

Áreas de arqueologia, paleontologia, antropologia e invertebrados foram quase todas perdidas

Reinaldo José Lopes
São Carlos

Já é possível ter uma ideia bastante clara da escala da devastação causada pelo fogo no Museu Nacional da UFRJ. Do vasto acervo que a instituição tinha, as áreas correspondentes a arqueologia, paleontologia, antropologia e invertebrados (no caso dessa última, cerca de 5 milhões de insetos) foram total ou quase totalmente perdidas. O mesmo vale para laboratórios e salas de aula.

As coleções de vertebrados e botânica, bem como a biblioteca, já tinham sido transferidas para um prédio novo, relativamente distante do antigo palácio imperial; por isso, ficaram a salvo.

Conheça abaixo alguns dos principais itens que faziam do museu um dos mais importantes da América Latina, a maioria provavelmente destruída pelo incêndio.


AFRESCOS DE POMPEIA

Pinturas que foram presenteadas ao museu em meados do século 19 pelo rei das Duas Sicílias, Dom Fernando 2º, irmão da imperatriz Teresa Cristina e cunhado de Dom Pedro 2º. Sua proveniência não está 100% estabelecida, mas tudo indica que teriam vindo do templo da deusa Ísis na cidade romana de Pompeia, destruída por uma erupção vulcânica no século 1º a.C.

Quadro afresco de Pompéia
Quadro afresco de Pompéia - Ana Carolina Fernandes/Folhapress

BOTOCUDOS

Cerca de 30 crânios desse grupo indígena do interior de Minas Gerais e Espírito Santo, quase exterminado devido a ataques patrocinados pelo governo de Dom João 6º no começo do século 19, estavam abrigados na instituição. Uma análise de DNA publicada em 2014 sugere que ao menos alguns membros dessa etnia tinham parentesco com os habitantes da Polinésia.


SARCÓFAGO DA DAMA SHA-AMUN-EM-SU

Caixão de egípcia que viveu entre os séculos 9º a.C. e 8º a.C., foi presenteado ao imperador Dom Pedro 2º quando ele visitou o Egito em 1876. Ricamente decorado com a simbologia típica dos mitos egípcios, pertencia a uma mulher que tinha o título de cantora do santuário do deus Amun na antiga cidade de Tebas.

Esquife da dama Sha-amun-en-su
Esquife da dama Sha-amun-en-su - Divulgação

LUZIA

O esqueleto humano mais antigo do Brasil, e um dos mais antigos de todo o continente americano, com 12 mil anos de idade, correspondente a uma mulher jovem. Encontrada nos anos 1970, numa gruta em Pedro Leopoldo (MG), região metropolitana de Minas Gerais, ela tinha feições peculiares, semelhantes às dos aborígines australianos atuais e diversas das dos indígenas modernos. Há crânios similares em coleções da USP e da Dinamarca, mas nenhum tão antigo quanto o dela.

A reconstituição do rosto de Luzia, feita a partir do fóssil considerado o mais antigo de um ser humano nas Américas, apresentada no Museu Nacional, no Rio, observada pelo professor Ricardo Santos
A reconstituição do rosto de Luzia, feita a partir do fóssil considerado o mais antigo de um ser humano nas Américas, apresentada no Museu Nacional, no Rio, observada pelo professor Ricardo Santos - Patrícia Santos/Folhapress

MAXAKALISAURUS TOPAI

Descrito originalmente em 2006 por pesquisadores do museu, era um dinossauro quadrúpede e herbívoro de pescoço longo, pertencente ao grupo dos titanossauros, que viveu há cerca de 80 milhões de anos e media cerca de 13 m. Os titanossauros, cujo couro era adornado por “calombos” ósseos, eram os grandes herbívoros dominantes do Brasil durante a fase final da Era dos Dinossauros. Os fósseis da espécie foram descobertos em Prata (MG).

Miniatura do dinossauro Maxakalisaurus topai
Miniatura do dinossauro Maxakalisaurus topai - Divulgação

METEORITO DO BENDEGÓ

Descoberto no sertão da Bahia no fim do século 18, objeto vindo do espaço foi levado para o Rio de Janeiro em 1888 e adornava a entrada do museu, sendo a primeira peça do acervo a ser vista pelos visitantes. Por ser resistente a altas temperaturas, o meteorito em si não parece ter sido afetado.

O meteorito Bendegó
O meteorito Bendegó - Reprodução

MÚMIA DO ATACAMA

Cadáver mumificado de um homem que morreu há cerca de 4.000 anos no deserto do Atacama (Chile). Sua morte pode ter sido causada por uma fratura nos ossos da face.


OXALAIA QUILOMBENSIS

Maior dinossauro carnívoro já descoberto no Brasil, com até 14 metros de comprimento (comparável ao célebre Tyrannosaurus rex), focinho semelhante ao de um jacaré e hábitos semiaquáticos. Oriundo do Maranhão, foi descrito por pesquisadores do museu em 2011. Fora do museu, não havia outros fósseis da espécie.


PRÉDIO HISTÓRICO

O Palácio de São Cristóvão, prédio principal do museu, era ele mesmo um patrimônio de valor incalculável para a história do Brasil. Abrigou a família real portuguesa de 1808 a 1821, a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e a primeira Assembleia Constituinte do Brasil republicano de 1889 a 1891. Passou a abrigar o museu no ano seguinte e estava tombado desde 1938.

Foto do século 19 do Palácio de São Cristovão, no Rio de Janeiro
Foto do século 19 do Palácio de São Cristovão, no Rio de Janeiro - Acervo Biblioteca Nacional

TRONO DE DAOMÉ

Bela peça em madeira, doada ao então príncipe-regente Dom João 6º em 1811, estava no acervo do museu desde 1818. O presente veio dos embaixadores do rei Adandozan de Daomé (1718-1818), que governava o território com esse nome na África Ocidental, hoje correspondente, grosso modo, à República de Benin.

Trono de Daomé
Trono de Daomé - Reprodução

TROPEOGNATHUS MESEMBRINUS

Pterossauro (réptil voador) que viveu no Nordeste brasileiro durante a Era dos Dinossauros, pode ter medido mais de 8 m de uma ponta à outra de suas asas. O espécime de maior porte foi estudado por pesquisadores do museu. Outros espécimes valiosos de pterossauros também estavam na instituição, já que um dos principais especialistas do mundo nesse grupo de animais, o paleontólogo Alexander Kellner, trabalha no Museu Nacional e é seu atual diretor.

Esqueleto construído de um pterossauro
Esqueleto construído de um pterossauro - Divulgação
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