Marcola e outros 21 integrantes do PCC são transferidos para presídios federais

Facção criminosa é a principal do país; plano de fuga foi descoberto em outubro

Rogério Pagnan
São Paulo

​O chefe máximo do PCC, Marco Camacho, o Marcola, foi transferido na manhã desta quarta (13) para um presídio federal. O destino ainda não foi revelado, mas calcula-se que seja Brasília.

Além dele, também foram transferidos em forte esquema de segurança ​​outros 21 membros da facção, grande parte também integrante da cúpula. O irmão de Marcola está entre os transferidos.

Em 2006, a transferência de presos do PCC para o presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau (a 611 km de SP) levou à maior onda de violência no estado como ataques às forças de segurança, que deixou um saldo de 564 mortos, dos quais 505 eram civis [leia mais abaixo].

Até por isso, a Polícia Militar mantinha uma operação em mais de 3.300 pontos diferentes nesta quarta sem prazo para terminar. A Secretaria da Administração Penitenciária também realizou revistas em praticamente todas as unidades do estado para tentar inibir eventuais rebeliões.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como chefe do PCC
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como chefe do PCC - Sergio Lima/Folhapress

Os presos foram transportados em um avião das Forças Armadas a partir do aeroporto da vizinha Presidente Prudente para a transferência. Além de Brasília, alguns deles serão transferidos para os presídios federais de Porto Velho (RO) e Mossoró (RN). Em razão disso, o governo federal autorizou a presença das Forças Armadas para fazer a segurança no entorno dos dois presídios.

A Garantia da Lei e da Ordem​​ (GLO) decretada pelo presidente Jair ​Bolsonaro (PSL) nesta quarta permite a proteção nos locais até o dia 27.

Sete desses presos tiveram a transferência definida no ano passado por causa de envolvimento em crimes investigados na operação Echelon, entre eles ordem para ataques a agentes públicos e assassinatos de rivais.

Já Marcola está sendo transferido por conta da descoberta em 2018 de um plano de fuga que utilizaria até um exército de mercenários para o resgate dele e de parte da cúpula da facção. ​A Justiça de São Paulo ficou ainda mais pressionada a determinar a transferência depois que, no final do ano, duas mulheres foram presas com suposta carta com ordem do chefão do PCC para matar o promotor Lincoln Gakiya, responsável pelo pedido de transferência, e que investiga há anos o crime organizado. 

Integrantes do Ministério Público disseram à Folha que aguardavam a transferência de Marcola para breve, mas acreditavam que isso só deveria ocorrer depois que o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), deixasse o hospital na capital paulista. Logo após a transferência, a alta do presidente também foi confirmada e o presidente seguiu de volta a Brasília.

 

Em dezembro, cartas interceptadas na saída do presídio mostraram que Marcola pedia a morte de um promotor caso fosse transferido.

A transferência de Marcola provocou um racha nos últimos meses do governo Márcio França (PSB) entre integrantes da cúpula que defendiam a transferência de Marcola e outros que temiam represália por parte dos criminosos se essa transferência fosse concretizada, a exemplo do que ocorreu em maio de 2006, quando forças de segurança foram atacadas em represália à transferência de 765 presos para Venceslau.

Mais de 300 ataques da facção a prédios públicos na época deixaram 59 agentes de segurança mortos em cinco dias. O saldo de mortes aumentaria nos dez dias que se seguiram, quando grupos de homens encapuzados saíram às ruas para vingar as mortes de policiais. Foram 505 civis mortos.

O principal a defender a permanência de Marcola e outros integrantes do PCC em São Paulo era o então secretário Mágino Alves Barbosa Filho, sob argumento de ter informações seguras de que esses ataques ocorreriam. Já o então secretário da Administração Penitenciária, Lourival Gomes, e membros do Ministério Público, refutavam a descoberta de planos de ataques por parte dos criminosos e defendiam a transferência imediata.

Ao mesmo tempo que ocorre a transferência, a Polícia Militar realiza em todo o estado uma operação com 21.934 policiais, com 8.104 viaturas, 13 helicópteros em 3.362 pontos. Segundo a Secretaria da Segurança, "as equipes estão em locais estratégicos, apontados pelo serviço de inteligência da PM, para sufocar possíveis ações de criminosos".

Essa é a segunda vez que Marcola é transferido de estado. Na primeira, em fevereiro de 2001, ele foi enviado para o Rio Grande do Sul e Brasília, onde ficou por mais de um ano. Como ambos eram presídios estaduais e sem estrutura adequada de isolamento, e a movimentação acabou contribuindo para a expansão do PCC para outras unidades da federação.

Atualmente, segundo investigação da polícia e Promotoria, a facção que surgiu de um time de futebol composto por oito presidiários, tem representantes em todo o país e boa parte da América Latina, com mais de 20 mil membros cadastrados e obedientes a Marcola.
 

OS 22 TRANSFERIDOS

  • Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola
  • Lourinaldo Gomes Flor, o Lori
  • Pedro Luís da Silva, o Chacal
  • Alessandro Garcia de Jesus Rosa, o Pulft
  • Fernando Gonçalves dos Santos, o Colorido
  • Patric Velinton Salomão, o Forjado
  • Lucival de Jesus Feitosa, o Val do Bristol
  • Cláudio Barbará da Silva, o Barbará
  • Reginaldo do Nascimento, o Jatobá
  • Almir Rodrigues Ferreira, o Nenê de Simone
  • Rogério Araújo Taschini, o Taschini, ou Rogerinho​
  • Daniel Vinicius Canônico, o Cego
  • Márcio Luciano Neve Soares, o Pezão
  • Alexandre Cardozo da Silva, o Bradok
  • Júlio Cesar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola
  • Luís Eduardo Marcondes Machado de Barros, o Du da Bela Vista
  • Célio Marcelo da Silva, o Bin Laden
  • Cristiano Dias Gangi, o Crisão
  • José de Arimatéia Pereira Faria de Carvalho, o Pequeno
  • Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, o Marcolinha (irmão de Marcola)
  • Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal
  • Antônio José Muller Júnior, o Granada
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