Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Área de milícia no Rio tem aplicativo exclusivo para transporte

Ante ameaças, Uber veta serviço em Rio das Pedras; especialistas veem envolvimento de criminosos

Rio de Janeiro

A favela de Rio das Pedras, dominada pela mais antiga milícia do Rio de Janeiro, tem desde março um aplicativo exclusivo de transporte. A ferramenta comunitária é turbinada pela ameaça a motoristas de outros apps que acessam o bairro. 

O domínio é tanto que a Uber decidiu vetar chamadas originadas em Rio das Pedras. 

Vista de praça com camelôs e transeuntes em comunidade carioca, em dia nublado, com ônibus à direita
A comunidade de Rio das Pedras, onde funciona o aplicativco RP Driver, é dominada por milícia - Fabiano Rocha / Agência O Globo

O serviço da RP Driver, como é chamado, existe há pelo menos um ano. Até março, era acionado em um grupo de WhatsApp. Há dois meses, foi criado o aplicativo para automatizar a demanda.

O app foi desenvolvido pela Driver Machine, que faz plataformas de transporte personalizadas em todo o país para grupos de motoristas que tentam fugir das taxas dos grandes serviços —a empresa diz que os contratos a impedem de divulgar dados de clientes.

Investigadores ouvidos pela Folha desconheciam o aplicativo. Afirmam que um serviço do tipo dificilmente é oferecido sem participação ou anuência paga da milícia. 

A Folha tentou contato com representantes do app, mas eles não responderam a telefonemas nem a mensagens.

A ferramenta é oferecida também na favela da Muzema e em outras comunidades da região, todas dominadas pela mais antiga milícia do Rio, chefiada, segundo o Ministério Público, pelo ex-policial militar Adriano da Nóbrega.

Foragido há cinco meses, Nóbrega foi companheiro no 18º Batalhão da PM de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) sob investigação, e teve a mãe e a mulher nomeadas no gabinete do senador quando este era deputado estadual no Rio. Durante o mandato de Flávio, o ex-PM chegou a ser condecorado com a Medalha Tiradentes pelo então deputado.

Folha conversou com moradores de Rio das Pedras e outras regiões ocupadas. Alguns deles relatam ameaças a motoristas de aplicativos tradicionais e o avanço de transportes ligados a criminosos.

“Outro dia fui à farmácia ao lado do supermercado e pedi um Uber. O Uber chegou, mas não parou e foi para longe. Andei até o motorista, que falou que a milícia não deixa pegar ninguém perto do mercado”, disse uma moradora de uma região controlada pelas facções, que pediu anonimato por medo.

“Uma senhora chamou um Uber, e os caras da milícia tiraram as compras dela do carro e disseram que se não fosse no carro controlado por eles não ia com ninguém”, continuou outra pessoa da mesma região, no bairro de Paciência

 

Ao tentar pedir um motorista pela Uber em pontos movimentados de Rio das Pedras, a Uber afirma que o serviço não está disponível. “Peça de locais acessíveis e para locais acessíveis”, diz a mensagem.

Em nota, a empresa diz que “para aumentar a segurança de motoristas parceiros e usuários, nosso aplicativo pode impedir solicitações de viagens de áreas com desafios de segurança pública em alguns dias e horários específicos”.

“A Uber tem adotado no Brasil a tecnologia de 'machine learning' para identificar riscos com base na análise, em tempo real, dos dados das milhões de viagens realizadas diariamente por meio do aplicativo e bloquear as viagens potencialmente mais arriscadas”, diz.

Outros aplicativos, como o 99, aceitam chamados da região. Mas, segundo relatos, os motoristas não vão até o local temendo represálias.

A empresa Driver Machine, que elaborou o RP Driver, disse que tem como objetivo “democratizar a tecnologia para quem quer empreender em mobilidade urbana”. 

“Cada cliente conduz o negócio de maneira independente, configurando tarifas, modo de operação e atendimento aos passageiros e motoristas. Nós somente fornecemos a tecnologia, ou seja, não somos proprietários dos aplicativos”, diz a empresa em nota.

Em sua página no Facebook, o RP Driver traz o preço de corridas na região e afirma que todos os motoristas moram em Rio das Pedras e usam crachá de identificação. 

O aplicativo está disponível para aparelhos com sistema Android. É necessário colocar nome, email, telefone e criar uma senha, ou carregar os dados da conta no Facebook, como em outros apps.

Após aceitar uma lista de 18 termos de uso —como a obrigatoriedade de fornecer dados verdadeiros sob pena de responder por falsidade ideológica—, o usuário tem acesso a um canal de “fale conosco” e a uma tela de mapa com os motoristas nas imediações.

Como nos aplicativos tradicionais, os motoristas podem ser avaliados. A plataforma, porém, informa que não se responsabiliza pelo atendimento das chamadas nem por atos inapropriados ou ilegais praticados pelos condutores.

Além disso, o cadastro do usuário só pode ser cancelado com um pedido direto aos administradores da plataforma.

O aplicativo oferece download da interface para interessados em servir como motoristas da plataforma. A Folha baixou o arquivo e verificou que, para cadastro, são solicitados nome completo, email, telefone com DDD, data de nascimento, informação do sexo, documento de identidade e foto do rosto.

A informação de que há um aplicativo para transporte em áreas de milícias surpreendeu especialistas no comportamento das facções. 

“Eu não sabia. Sofisticação e controle total. Administração científica para o crime organizado. Se continuar assim, vão abrir uma universidade particular com curso de administração criminosa”, disse José Claudio Souza Alves, autor de “Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense” e professor de sociologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

O setor de transporte foi uma das primeiras fontes de renda da milícia carioca, que desde sua origem cobra taxas a motoristas de vans clandestinas em sua zona de domínio. 

Com o tempo, as quadrilhas diversificaram receitas, avançando em venda de cigarros, pesca, consulta em hospitais, serviços de pedreiro, barris de chope adulterados, seguros de carros e coleta de lixo.

Recentemente, um serviço chamado RP Balsas, que levava ilegalmente passageiros de Rio das Pedras até o metrô da Barra da Tijuca, foi interrompido e teve as embarcações apreendidas pela Capitania dos Portos. 

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