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Disputas por rotas de cocaína levaram a 280 mortes em presídios em três anos

Lógica da dominação é simples: quem manda nas cadeias brasileiras comanda o crime fora delas

Rogério Pagnan
São Paulo

Mais do que uma disputa entre selvagens para ver quem arranca mais cabeças de integrantes de facções rivais, os massacres assistidos no país desde o final de 2016 são batalhas entre criminosos na disputa pelos milhões de dólares do comércio de cocaína.

Todas as mais de 280 mortes registradas nesses quase três anos, e todo o sangue escorrido no Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e Rondônia, estão ligadas pelo mesmo motivo: a busca pela hegemonia do sistema prisional e as consequências disso.

A lógica da dominação é simples: quem manda nos presídios também comanda o crime fora deles, das rotas do escoamento da droga às “biqueiras” nas ruas. Isso porque um chefe do tráfico pode ter muitos comparsas armados na rua, que irão protegê-lo e ajudá-lo. Mas, quando ele é preso, vai sozinho e desarmado para a prisão. Se não pertencer à facção dominante, terá de acatar as ordens dessa turma, se quiser continuar vivendo.

Uma série de documentos obtidos pela Folha, de serviços de inteligência das polícias e do Ministério Público, indica que desde 2014 o sistema penitenciário brasileiro já vivia grande tensão com o possível rompimento entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Integrantes do PCC, facção nascida nos presídios paulistas, vinham sofrendo represálias em alguns estados onde até então tinham boas relações com quadrilhas locais, muitas das quais ligadas ao CV. A convivência respeitosa terminou quando os outros grupos perceberam o crescimento exponencial do PCC e o proibiram de “batizar” novos integrantes.

Batismo é quando um criminoso passa a integrar uma facção e aceita seguir as regras impostas por ela. Mais forte se torna o grupo que mais batiza “irmãos".

A guerra entre as facções eclodiu, segundo autoridades, em outubro de 2016 no presídio de Monte Cristo, em Boa Vista (RR), quando 12 presos de um bando rival foram mortos por criminosos do PCC, também em atos de selvageria que tem como propósito intimidar os inimigos.

De lá para cá, as batalhas vêm se repetindo e não há nenhum sinal de que acabarão tão cedo. Embora com siglas e locais diferentes, elas ocorrem quase todas em rotas de tráfico de cocaína e envolve uma das dezenas de siglas diferentes, como FDN, ADA, PCM, PCE, SDC e até Okaida (nome inspirado na Al-Qaeda) e Estados Unidos.

A indiferença da população pelo tema (e pela sorte dos presos), algo verbalizado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, demonstra que estamos no caminho errado no seu combate. Não é com a morte dos presos que se resolve problemas de segurança.

São Paulo, por exemplo, assistiu uma guerra sangrenta no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, quando o PCC matou quase todos os seus inimigos até se consolidar como, praticamente, o único grupo a comandar os presídios paulistas, com sua massa de mais 230 mil pessoas, e o tráfico em um estado com cerca de 44 milhões de habitantes.

Essa hegemonia teve resultados colaterais. Sem as mortes ocorridas em disputas por pontos de venda de drogas pelas ruas do estado, houve uma brutal redução dos índices dos homicídios dolosos: de 35,27 por grupo de 100 mil habitantes, em 1999, para 6,7 vítimas, no ano passado. Algo que não se viu em qualquer outro lugar do Brasil.

Por outro lado, também deu poder jamais visto a criminosos como Marco Camacho, o Marcola, capaz de causar receio ao ex-governador Márcio França (PSB). Em 2018, ele decidiu não transferir o presidiário para o sistema prisional federal, quando Marcola foi apontado como autor de um ousado plano de fuga.

A polícia de São Paulo tem efetivo de mais de 120 mil homens da ativa, entre policiais civis e militares, e é considerada uma das mais bem equipadas no país.

É preciso saber se as forças de segurança do Pará serão capazes de combater um grupo muito forte, caso ocorra uma eventual hegemonia do CCA (Comando Classe A), o grupo apontado como o responsável pelas 58 mortes em Altamira. Quando se vê um estado que não consegue evitar mortes até mesmo quando os presos estão algemados, dentro do compartimento de cargas de camburões, é difícil não duvidar.

Massacres em presídios do país

2016
Boa Vista: integrantes do PCC atacaram rivais do CV,  doze presos são mortos, sete carbonizados

2016
Porto Velho: oito presos são mortos asfixiados,

 2017
Manaus: na virada do ano, série de rebeliões deixou 67 mortos em uma semana

2017
Boa Vista: em reação às mortes ocorridas em Manaus dias antes, detentos matam 33 pessoas

2017
Nísia Floresta (RN): dando sequência à crise de janeiro de 2017, motim deixa 26 mortos na Penitenciária de Alcaçuz

2018
Santa Izabel (PA): rebelião e tentativa de fuga termina com 22 mortos na região metropolitana de Belém 

2019
Manaus: em dois dias, rebeliões em quatro presídios deixam 55 mortos

2019
Altamira: disputa de facções pelo controle do Centro de Recuperação Regional de Altamira deixa 62 mortos

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