Curso de inglês grátis atende 2.500 alunos de baixa renda pelo país

ONG criada em São Paulo há cerca de 20 anos tem professores voluntários

Roberto de OIiveira
São Paulo

Entender o significado das letras de sua banda favorita, a britânica Queen, ou assistir a um filme em streaming sem precisar de legendas já parece ótimo.

Imagine, então, emendar um bate-papo na rua com algum estrangeiro. Samuel Rodrigues, 17, que mora com os pais na região da praça da República, no centro de São Paulo, está no último estágio (o J) de um curso de inglês gratuito oferecido pela CPM (Cidadão Pró-Mundo), ONG surgida na capital paulista cerca de 20 anos atrás.

Hoje, a entidade atende ao menos 2.500 estudantes de baixa renda em 12 unidades no país, sendo 9 delas na Grande São Paulo. O curso de inglês, com duração de cinco anos, é dividido em módulos semestrais, identificados com as letras do alfabeto (de A a J).

O material didático usado é o da Cambridge University Press, editora britânica considerada a mais antiga do mundo em operação contínua, para a universidade de mesmo nome.

A Cidadão Pró-Mundo trabalha com 1.400 voluntários. A maioria deles atua como “volunteacher”, ou seja, gente que domina o inglês e se dispõe a ensinar o idioma sem cobrar nada.

Curioso para conhecer uma escola pública brasileira, o espanhol Joan Miró, 35, professor de biologia, entrou no prédio da Escola Estadual Professora Marina Cintra, na Consolação, centro paulistano, que fica perto de sua casa.

Miró dá aula de biologia em uma escola espanhola. Estudou inglês em instituição pública na Espanha, mas aprimorou seus conhecimentos do idioma em Manchester, no Reino Unido, onde morou por um ano. Ele, que habita terras brasileiras há cinco anos e meio, se dedica ao voluntariado da CPM há quatro.

As aulas de inglês são realizadas nas manhãs de sábado e domingo em salas de instituições públicas integrantes do programa Escola da Família, que, aos fins de semana, se transformam em centros de convivência.

“Tenho colega que tira onda pelo fato de eu acordar cedo todos os dias para ir à escola e, ainda assim, encarar as manhãs de sábado para estudar inglês”, conta Rodrigues, que despertou às 8h (duas horas depois do que de costume) no último sábado (31), sob céu azul e termômetros na casa dos 30°C.

As aulas do rapaz vão das 10h às 13h. Ocorrem no primeiro andar da Marina Cintra. “Não tenho grana para bancar uma escola particular. Aqui, além de ser de graça, nós podemos conhecer gente de fora, trocar experiências”, diz ele, referindo-se ao “guest speaker day”, atividade do calendário letivo.

Nesse dia, uma vez por semestre, estrangeiros dialogam com os alunos sobre temas diversos, de cultura pop a viagens e trabalho.

Essas conversas foram decisivas, na avaliação do rapaz, no momento de escolher o Reino Unido como o país para um tão sonhado intercâmbio. “Minha conversação é boa”, gaba-se.

Para as gêmeas Talita e Tarsila Pinfildi, 29, pedagogas que moram na Barra Funda (zona oeste), as aulas trouxeram segurança na hora de encarar uma conversa em inglês —assim como Rodrigues, elas devem concluir o curso até dezembro.

“Antes era mais mímica, pouca comunicação verbal”, diz Talita, ao se lembrar da viagem que ela e a irmã fizeram a Nova York, em janeiro de 2016, meses antes de ingressarem na CPM.
Tarsila, aos risos, resume a aventura: “Minha prima, que já era fluente, nos salvou”. 

As duas chamam a atenção para a característica voluntária do projeto. “Os professores vêm aqui no sábado e não recebem nem um tostão para fazer isso”, explica Tarsila. “Eles têm um só propósito: o de ensinar a gente”, conclui Talita.

O número restrito de alunos (20, em média, por sala) é outro ponto positivo, na opinião dos estudantes, assim como a presença de dois professores em cada classe. 

Jovens que estudam ou estudaram em escola pública ou são bolsistas integrais em instituições privadas têm prioridade na matrícula. Outro critério de escolha é a faixa etária: de 11 a 25 anos.

Tanto alunos interessados em aprender inglês como professores dispostos a ensinar podem se inscrever pelo site (cidadaopromundo.org). A seleção dos voluntários é feita por meio de análise de currículo, teste de inglês e entrevista.

Existe aluno que aprendeu inglês com a Cidadão Pró-Mundo e depois retornou para lá como professor voluntário. É o caso de Lilian de Assis, 33, caloura da primeira turma, criada em 1997, no Capão Redondo, zona sul da capital.

Naquela época, as aulas ocorriam na casa de moradores. Depois, passaram a ser realizadas em um centro comunitário católico. Era, como define Lilian, bem “roots”.

Aos poucos, o empenho de quem queria ensinar uniu-se à vontade de quem estava a fim de aprender e, assim, a iniciativa foi se moldando até alcançar o modelo mantido até hoje.

Durante o curso, ela decidiu estudar letras na PUC. Com uma carta de indicação da CPM nas mãos, conseguiu desconto de 40% nas mensalidades. Atualmente, trabalha como professora de inglês e mantém a atividade voluntária de ensino no mesmo bairro onde começou.

“Não imaginava que o projeto fosse ganhar toda essa dimensão. Fico impressionada. É uma iniciativa de forte impacto social, que abre portas e oportunidades para as pessoas da periferia”, diz Lilian.

A propósito: foi no Capão que Marcos Fernandes, fundador da CPM, teve a ideia de criar o curso. Tudo começou quando ele levou um amigo norte-americano para conhecer a comunidade e ambos presenciaram o esforço da galera para se comunicar, mesmo sem falar a língua do visitante.

Com as aulas gratuitas de inglês, vieram outras maneiras de encarar o mundo.

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