'Está muito difícil para todos nós', diz professora de balé de Ágatha

Centro de Danças e Lutas Pró-Arte, onde menina aprendia dança, amanheceu de luto

Ágatha, vestida de palhacinha, no aulão de Carnaval de sua escola de dança, no Rio ORG XMIT: LOCAL1909231514065695 Arquivo pessoal

Rio de Janeiro

Na noite de sexta-feira, um tiro nas costas interrompeu o sonho de Ágatha Vitória Sales Félix, 8, de se apresentar em um circo. Aluna de balé, ela chegou a tirar, na semana passada, as medidas de figurino para o espetáculo de final de ano que estrelaria no circo do ator Marcos Frota, na Quinta da Boa Vista.

Nesta segunda-feira, o Centro de Danças e Lutas Pró-Arte, onde ela estudava balé há dois anos, fechou suas portas em sinal de luto. Essa foi a quarta vez que a academia é obrigada a fechar suas portas em decorrência de ações policiais no Complexo da Maré.

Embora a escola fique estrada Adhemar Bebiano 2060, em Inhaúma, fora da favela, boa parte dos alunos é do Complexo do Alemão.

Uma menina de pele negra está vestida de saia colorida, de tule, e com um arquinho também colorido na cabeça, joga um beijo para câmera
Ágatha, vestida de palhacinha, no aulão de Carnaval de sua escola de dança, no Rio - Arquivo pessoal

Nos dias 4 e 18 de setembro, as aulas tiveram que ser suspensas após alerta de operações da polícia. Como as duas ações aconteceram em uma quarta-feira —coincidindo com os dias de aula de Ágatha — ela só teve uma aula de balé no mês de setembro.

Aluna desde 2017, a menina frequentava a academia às quartas-feiras, a um custo de R$ 50 mensais.

Além das duas vezes em que as aulas foram suspensas diante do risco de conflito e do luto de hoje, a academia fechou as portas no sábado, dia seguinte da tragédia.  

Dona da escola, a bailarina e professora de educação física Aline Xavier, de 33 anos, conta que, por medida de segurança, tomou a decisão de suspender as aulas quando informada da iminência de operações.

Segundo ela, o informe costuma ocorrer pelo jornal local ou mensagem. Informada, ela avisa às mães sobre a suspensão.  

Ainda segundo a professora, tem aumentado a incidência de operações policiais na região. Dona da academia há 15 anos, ela afirma ser essa a primeira vez que um aluno é vítima em operação policial.

Apesar da violência ao redor, Ágatha não se mostrava abalada pelo clima. “Criança não tem essa noção do perigo”, diz a professora.

Segundo ela, Ágatha era uma criança doce e comunicativa. A menina, diz, estava entusiasmada com a possibilidade de se apresentar no circo.

Seria o terceiro espetáculo do qual participaria. Neste ano, ela se fantasiou de palhaça em um aulão de Carnaval. "Está muito difícil para todos nós", afirmou a professora.

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