Hospitais deveriam ter controle de fumaça e elevador de segurança

Ausência de cultura de prevenção contra incêndios no país deve levar a tragédias como a do Rio

Paulo Gomes
São Paulo

O incêndio do Hospital Badim, que deixou ao menos 11 mortos na zona norte do Rio de Janeiro na quinta-feira (12), não foi um fato isolado. Casos recentes em áreas urbanas mostram que a cultura de prevenção ainda é subestimada no país e que novos casos devem ocorrer enquanto isso não for encarado como prioridade.

"Acham que [segurança] é custo, não investimento", afirma Wesley Pinheiro, consultor de prevenção a incêndio das associações dos hospitais do Rio e de São Paulo.

Os dois estados tiveram os incêndios urbanos de maior repercussão recente no país, como o da ocupação do edifício Wilton Paes de Almeida, o do Ninho do Urubu e o do Museu Nacional.

Em termos de instituições de saúde, ao menos 20 foram atingidas pelo fogo no país só neste ano. Em São Paulo, o fogo atingiu em janeiro o Incor e em junho o HCor, ambos sem deixar feridos. 

São estabelecimentos com particularidades que podem contribuir para a propagação do fogo, como o diesel de um gerador de energia ou o oxigênio de um balão de ar, ambos combustíveis. Há também, como em diversos outros locais, depósitos e lavanderias com abundância de material inflamável.

Por si só, o prédio de um hospital não tem fatores que o tornem mais vulnerável.

É a característica de sua população —flutuante e com dificuldade de locomoção— que torna muito grave estabelecimentos de saúde terem um baixo nível de segurança contra incêndios. Não à toa, as 11 vítimas no Badim tinham mais de 65 anos.

Diferente do que possa se acreditar em relação a incêndios, o que mais mata não é o fogo, mas a fumaça decorrente dele. Foi o caso no Rio, já que, segundo o IML, a maioria das vítimas morreu por inalação de fumaça.

É imperativo, portanto, que exista controle de fumaça em hospitais. Isso é feito com detectores, com sistema de exaustão —em que um duto suga a fumaça para fora do ambiente e outro traz o ar para dentro— e com revestimento antichamas, da fiação aos pisos.

"Com material que retarda a propagação, é mais fácil de detectar [o foco de incêndio] e, consequentemente, de combater", diz Carlos Henrique dos Santos, perito em incêndios da empresa de prevenção Sprink.

O revestimento deve vir aliado a outro ponto que impede o alastramento do fogo, a compartimentação. "Se você setoriza o edifício, o incêndio fica retido", explica o engenheiro Antonio Fernando Berto, chefe do Laboratório de Segurança ao Fogo e a Explosões do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). Na prática, isso implica no isolamento das diferentes áreas, com portas e paredes corta-fogo.

Hospitais também necessitam de elevadores de segurança espaçosos, que possam levar macas, com antecâmara como as escadas de emergência, e de áreas de refúgio, segundo Sérgio Roberto Athayde, engenheiro civil em segurança no trabalho. E, claro, manutenção em dia da parte elétrica e de gás. "Preventiva, não só corretiva."

Para Berto, do IPT, "uma coisa que esse hospital [Badim] não tinha era segurança". Ele não enxerga mudança de cenário. "A questão agora é quando será o próximo."

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