Procura-se 'Sheik', 'Fuminho' e 'Maria do Pó': conheça os criminosos mais cobiçados do país

Bandidos desconhecidos estão em lista do Ministério da Justiça de mais procurados

Camila Mattoso Fábio Fabrini
Brasília

Os bandidos mais procurados do país não aparecem na TV, não são odiados pela maioria dos brasileiros e nem integram alguma organização como o Escritório do Crime, grupo suspeito de matar a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco no caso policial mais rumoroso dos últimos anos. 

A lista com os 20 mais cobiçados pelas polícias do Brasil está sendo elaborada por setores de inteligência ligados ao ministério da Justiça e tem, nas primeiras posições, gente pouco conhecida, como o libanês Joseph Nour Eddine Nasrallah, 64, o Sheik.

Ele foi preso pela Polícia Federal em 2007, na Operação Kolibra (Conexão Líbano-Brasil), suspeito de liderar uma organização que compra toneladas de cocaína na América do Sul e exporta em navios cargueiros para os EUA, Portugal, Espanha, Reino Unido, a Alemanha, a Suíça e para países do Oriente Médio.

A alcunha honorífica que passou a figurar em suas fichas policiais se deve ao luxo da mansão do libanês, em Valinhos (SP), descoberta pela Polícia Federal na época da prisão dele.

À Folha, o delegado Antonio Bonhsack descreveu na ocasião que o imóvel tinha uma banheira avaliada em US$ 60 mil (R$ 243 mil) e detalhes em ouro nas paredes de mármore.

Fachada da casa do libanês Joseph Nour Eddine Nasrallah, em Valinhos (SP)
Fachada da casa do libanês Joseph Nour Eddine Nasrallah, em Valinhos (SP) - Divulgação

Sheik, segundo sua defesa, tem atualmente condenações por tráfico, associação criminosa e lavagem de dinheiro. 

Ele passou quase sete anos de cadeia após ser capturado pela Polícia Federal, mas em 2013 conseguiu um habeas corpus do ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), e foi liberado. Em maio de 2016, voltou à prisão por causa da sentença, confirmada em segunda instância, que o condenou a dez anos de reclusão, em regime fechado, por associação ao tráfico transnacional. 

Mas o ministro mandou soltá-lo novamente, argumentando que a decisão não havia transitado em julgado, ou seja, não era definitiva. No mês seguinte, a 1ª Turma do STF cassou a liminar de Marco Aurélio, mas a polícia não soube mais de Sheik. 

O advogado do libanês, Luiz Eduardo de Almeida Santos Kuntz, diz que seu cliente está tecnicamente foragido: “Desde o fim de 2016, não o vejo”. “Se estivesse preso, já teria vindo me procurar de novo, para ser sincero.”

Kuntz diz que sempre tentou, nos termos da lei, obter reduções possíveis de pena e que as prisões não fossem deliberadamente antecipadas.

O top 20 do crime no Brasil ainda não está fechado e deve ser apresentado ao ministro da Justiça, Sergio Moro, nos próximos meses. 

Os nomes sob avaliação foram colhidos em entrevistas com 64 autoridades policiais, país afora, com base em pontos como a extensão da rede de relacionamento do criminoso, atuação internacional, a capacidade financeira e o acesso a armamento pesado. 

A metodologia ainda está em fase de elaboração, usando critérios de análises de risco para a avaliação. 

A lista serve também para mostrar qual o perfil do governo na segurança pública. 

Os principais focos desse primeiro ranking são pessoas relacionados a crimes violentos e ao crime organizado. Não está descartada, no entanto, a inclusão de autores de delitos de repercussão.

Disputa com Sheik as primeiras posições da lista Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho –que, ao contrário do que sugere o nome, é apontado com um dos maiores traficantes de cocaína da América do Sul. 

Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, na lista do Ministério da Justiça de mais procurados
Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, na lista do Ministério da Justiça de mais procurados - Reprodução

Ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), ele é apontado pela polícia como o responsável pelos assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, ambos da mesma facção, no ano passado.

Também atribui-se a ele o financiamento do plano para resgatar o líder máximo do PCC, Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola, do Presídio de Presidente Venceslau, em 2018. Como mostrou a Folha em novembro do ano passado, segundo investigadores o PCC usaria dois helicópteros de guerra, lança-mísseis e metralhadoras na ação, orçada em R$ 100 milhões. Depois da descoberta do plano pelo governo paulista, Marcola foi transferido para um presídio federal.

O objetivo do Ministério da Justiça é que a sua lista de procurados tenha como público prioritário policiais, e não a população em geral.

A pasta pretende tornar os criminosos priorizados mais conhecidos entre os próprios agentes de segurança, para facilitar a captura. Não haverá recompensa.

Segundo pessoas do ministério, milicianos do Rio, por exemplo, não vão entrar na lista porque não atendem a alguns dos critérios. Eles, em geral, não cometem crimes fora do estado, o que faz com que não tenham peso nacional.

Outro que deve ser posto sob holofotes Edvaldo Silva Santos, o Edvaldo da Manga, que não é acusado de roubar frutas, mas bancos. 

Atribui-se a ele envolvimento na tentativa de assalto a um avião de transporte de valores em Salgueiro (PE), em setembro do ano passado. 

Seis criminosos, armados de fuzis, acabaram mortos em troca de tiros com a polícia e nada foi levado.

Entre os nomes em estudo pelo ministério estão os de envolvidos em outros dois momentos notórios da crônica policial brasileira: os assaltos ao Banco Central em Fortaleza, em 2005; e a uma carga de ouro no Aeroporto de Guarulhos, neste ano.

O rol de criminosos também tem, por enquanto, apenas uma representante do sexo feminino: Sônia Maria Rossi, a Maria do Pó, considerada a mulher mais procurada pela polícia paulista. A mulher é acusada de comandar o tráfico em favelas paulistanas.

Em 1999, ela protagonizou o maior escândalo da polícia de São Paulo na gestão Mário Covas (PSDB): o desaparecimento de 340 kg de cocaína do prédio em que funciona o complexo policial de Campinas (99 km da capital). O caso foi investigado pela CPI do Narcotráfico no Congresso, em 2000.

Sonia Aparecia Rossi, conhecida como Maria do Pó
Sonia Aparecia Rossi, conhecida como Maria do Pó - Reprodução
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