Cidade paulista que teve prefeito assassinado tem histórico de ação contra corrupção

Ribeirão Bonito teve dois prefeitos depostos em 17 anos; tucano Chicquinho Campaner foi morto quinta

Ribeirão Preto

Num intervalo de 17 anos, a pequena Ribeirão Bonito, a 265 km de São Paulo, viu prefeitos serem afastados, vereadores cassados por recebimento de mensalinho e, na tarde desta quinta-feira (26), foi abalada com o assassinato do prefeito Francisco José Campaner (PSDB), 57.

Chiquinho Campaner, como era conhecido, foi morto a tiros numa estrada rural da cidade. Ao menos quatro disparos, segundo a prefeitura, o acertaram, três no peito e um na cabeça. Outras duas pessoas também foram baleadas, mas não correm risco de morte.

A tumultuada história política do município da região central do estado teve início em 2002, quando Antônio Sérgio Mello Buzzá foi cassado após ações desenvolvidas por uma ONG então recém-criada, a Amarribo (Amigos Associados de Ribeirão Bonito).

O prefeito de Ribeirão Bonito, Francisco José Campaner (PSDB), que foi morto a tiros na quinta-feira (26) - Reprodução de redes sociais

Surgida em 1999 tendo como fundadores alguns filhos ilustres da cidade —como Josmar Verillo, ex-presidente da Klabin, Toninho Trevisan, de uma renomada empresa de auditoria e consultoria, Antonio Chizzotti, padre e docente na PUC-SP, Zezinho Chizzotti, procurador aposentado, e Rubens Gayoso Jr., empresário—, a ONG teve papel essencial na cassação e prisão de Buzzá, que morreu em 2012.

Acusado de integrar um suposto esquema de desvio de dinheiro dos cofres públicos que chegava a R$ 1 milhão à época (R$ 2,9 milhões, atualizado pelo IPCA), viu a Amarribo apontar a compra de combustível acima da capacidade da frota, desvio de dinheiro da merenda escolar e aquisição de produtos de empresas fantasmas.

Não foi para isso que a ONG nasceu. A ideia era retribuir à cidade de 13.219 habitantes o que dela receberam na infância. Restauraram capela e cinema e promoveram eventos, até a denúncia contra Buzzá cair nas mãos do grupo.

Após a cassação, criaram uma cartilha contra a corrupção que foi distribuída no país todo e, seis anos depois, lá estavam eles novamente ligados ao afastamento de um novo prefeito.

Rubens Gayoso Júnior (PT), acusado de improbidade administrativa, foi cassado pela Câmara com os votos de 6 dos 9 vereadores, por ter contratado por R$ 3.990 mensais um jornal de São Carlos para publicar editais públicos.

Como houve casos de reportagens publicadas que favoreciam o prefeito —por exemplo a distribuição de óculos na periferia da cidade—, uma comissão processante foi aberta após ação da Amarribo.

O episódio provocou também rupturas na associação.Toninho Trevisan, um dos fundadores, apoiava o prefeito cassado, o que gerou racha interno na Amarribo. Ele deixou a ONG e, com ele, saiu também outro membro decano.

“Ele apoiava [o prefeito] e nós achávamos que havia irregularidades. Não podíamos ter dois pesos e duas medidas. Aí ele saiu”, disse Verillo, ex-presidente da Amarribo e que hoje comanda o conselho. A Folha não localizou Trevisan.

Verillo disse que ninguém na cidade imaginaria que o prefeito pudesse ser morto e que a situação preocupa por Dourado, cidade vizinha, ter registrado em outubro o assassinato de Marcelo D’Elia, diretor-executivo da ONG Unido.

“Quando houve corrupção extrema do Buzzá, a Amarribo agiu, liderou, depois teve o segundo caso e notamos desde então uma evolução. Aquele tipo de corrupção acabou. Hoje pode ter às vezes alguma pequena irregularidade, mas não como havia antes. Tanto que a prefeitura foi uma das que passaram pela crise sem ficar sem caixa. Esse é o maior legado”, disse.

Também foram alvo de denúncias da Amarribo o caso que ficou conhecido como mensalinho de Ribeirão Bonito. Quatro vereadores deixaram os cargos —três renunciaram e um foi cassado— após terem sido flagrados em vídeo pedindo propina de “milão” (R$ 1.000) mensais para aprovar projetos de Gayoso na Câmara. As imagens foram feitas pelo próprio ex-prefeito, a pedido da Promotoria.

Conselheiro da entidade e ex-presidente, Pedro Sérgio Ronco disse que o trabalho da ONG é fundamental por ter gerado outras entidades do gênero no país.

“Talvez ela tenha sido uma pioneira nesse trabalho de corrupção, e é importante que outras sejam criadas com esse mesmo propósito, de acompanhar os rumos políticos das cidades”, disse.

Nos municípios em que não foram registrados casos de afastamentos desde o início dos anos 2000, houve quatro trocas de prefeitos nesse intervalo. Ribeirão Bonito está indo para a sétima mudança, com o vice de Campaner, Luiz Arnaldo de Oliveira Lucato (DEM).

A posse deve ocorrer neste sábado (28), de acordo com a prefeitura, para um mandato até 31 de dezembro do ano que vem.

Na manhã desta sexta, o diretório estadual do PSDB emitiu uma nota de pesar assinado por Marco Vinholi, presidente do diretório estadual paulista,  na qual o partido e o governador João Doria, tucano, lamentam o ocorrudo e se solidarizam com a família e amigos de Campaner. 
 

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