Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Após tragédia em Brumadinho, Inhotim se abre para a cidade e consegue mais visitantes em 2019

Museu estabelece gratuidade para quem mora no município e inaugura obras para mostrar vitalidade

Brumadinho (MG)

A nova obra do Instituto Inhotim, uma escultura de concreto de seis metros de altura e 14 metros de diâmetro, assinada pelo americano Robert Irwin, 91, parece estar se abrindo. 

É o mesmo movimento do museu nesse um ano que passou desde o rompimento da Barragem B1, da Vale, em Brumadinho (MG). Os moradores da cidade que abriga o instituto passaram a ter gratuidade no ingresso e se viram representados em shows com artistas locais. 

Obra de Robert Irwin no Instituto Inhotim, que é um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil - Eduardo Anizelli/Folhapress

"É uma instituição que está aprofundando seus laços com o território, com as pessoas do lugar, pra poder ser efetivamente cada vez mais um elemento transformador e regenerador", diz a diretora-executiva do Inhotim, Renata Bittencourt.

O museu sofreu um baque após a tragédia. Embora a lama não tenha chegado perto dos 140 hectares de jardins e galerias de arte, a visitação caiu 40% entre janeiro e abril em comparação com a média do período. 

"Isso é ruim para a instituição porque temos um papel na comunidade. Se não temos público, pousadas e restaurantes têm menos clientes", diz Bittencourt. 

Inhotim precisou mostrar que estava vivo: inaugurou obras, exposições, um jardim (agora o maior do instituto), promoveu festivais de música, além de restaurar e reabrir obras de artistas de renome, como Tunga, Matthew Barney e Yayoi Kusama. 

"Fizemos uma série de ações para comunicar à sociedade que havia um funcionamento normal, que as estradas [para chegar ao Inhotim] funcionavam normalmente. Isso tudo para sinalizar uma vitalidade", afirma Bittencourt.

Ao final do ano, com 268 mil visitantes, o museu superou a visitação de 2018, de 258 mil. Ainda está abaixo, porém, da média de 350 mil pessoas por ano, que se tornou uma meta. Em 2018, a causa da queda foi o surto de febre amarela na região

"Conversando com as pessoas, elas nos disseram que estavam aqui em solidariedade. Estar em Inhotim era um jeito de estar em Brumadinho", diz Bittencourt sobre os visitantes. A diretora-executiva afirma ainda ser visível que a comunidade do município também passou a visitar mais o local após a gratuidade. 

A simbiose entre Inhotim, Brumadinho e a mineração vem desde sua fundação. O empresário Bernardo Mello Paz, fundador do instituto, foi proprietário do conglomerado Itaminas, composto por 29 empresas, a maioria na área de mineração e siderurgia.

"Precisamos reconhecer como foi Brumadinho que construiu esse lugar. Hoje a gente fala mais sobre essa responsabilidade orgânica que Inhotim tem com a cidade. O Inhotim precisa ter uma pele permeável ao que está ao redor e ao que está dentro, porque a comunidade que trabalha aqui é a mesma comunidade", afirma a diretora-executiva. 

Há várias ações para aproximar a cidade e seu oásis: visitas do Inhotim em quilombos, apresentação do coral em asilo, palestras sobre botânica com os jardineiros do museu e os projetos de violino e pedagógicos, que já somam 200 mil atendimentos a jovens de Brumadinho em mais de uma década. 

O tema da mineração está também nas obras do museu. Uma das mostras inauguradas em 2019 traz uma uma escultura de Laura Vinci que usa um equipamento de mineração para tirar grãos de pó de mármore branco de uma montanha e despejá-los no chão, simulando uma ampulheta. 

Obra "Visão Geral", do Instituto Inhotim, faz referência à mineração - Eduardo Anizelli/Folhapress

Para uma instituição em que 80% dos funcionários (400 próprios e 200 terceirizados) são moradores da cidade, a tragédia humana de 270 mortos foi arrasadora. O museu fechou por cerca de 15 dias após 25 de janeiro de 2019 e, no sábado (25), também não foi aberto. 

O Inhotim participou da série de eventos que marcaram a efeméride com uma apresentação da Orquestra de Câmara. "Os jovens da cidade, que estão em formação conosco, desejam oferecer música para a cidade num dia como esse", diz Bittencourt.

Para os funcionários, sobretudo os afetados com mortes na família, o instituto ampliou a disponibilidade de psicólogos em sua assistência médica, fez palestras sobre resiliência e ofereceu a prática de ioga. 

Ao mesmo tempo em que tenta superar o rompimento da barragem, Inhotim busca reverter a queda de receitas vista desde 2016. A auditoria externa da Ernst Young referente ao ano de 2018 chegou a apontar risco de fechar as portas. 

Para Bittencourt, o problema está sendo superado. Em 2019, o museu aumentou a arrecadação com patrocínios e doações, o que permitiu fazer as inaugurações e os restauros. 

"Temos tentado sensibilizar empresas para a necessidade de uma dedicação crescente e contínua à área da cultura", diz ela. Uma das principais patrocinadoras de Inhotim, mesmo antes da tragédia, é a própria Vale. 

Há ainda outros desafios para Inhotim. Seu fundador, Bernardo Paz, foi condenado a nove anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro em 2017 e renunciou à presidência do instituto. Ele recorre em liberdade. 

Em paralelo, há um acordo entre Paz e o governo de Minas Gerais que prevê transferência de 20 obras do acervo para o estado. O objetivo é quitar dívidas de ICMS das empresas de mineração de Paz que se arrastam por mais de 25 anos. As obras valem mais que o total da dívida, segundo diversas avaliações. 

O Ministério Público se manifestou contra o acordo, que ainda precisa ser homologado pela Justiça. 

Apesar de tudo isso, as perspectivas são "de um presente dinâmico e de um futuro de renovação e expansão", nas palavras de Bittencourt. Um dos símbolos dessas conquistas, a obra de Irwin, está no ponto mais alto do museu e funciona como mirante. Pelas aberturas, espécie de janelas, o Inhotim consegue olhar Brumadinho —em todos os sentidos. 

Erramos: o texto foi alterado

Os projetos sociais do Instituto Inhotim realizaram 200 mil atendimentos a jovens de Brumadinho em mais de uma década, e não tiveram 200 mil jovens atendidos como publicado anteriormente. O texto foi corrigido.  

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