Descrição de chapéu Obituário Awaulukumã Waurá (1950 - 2020)

Mortes: O 'livro da sabedoria' do Alto Xingu

Awaulukumã Waurá foi um dos líderes históricos do Xingu que testemunharam a luta e a vitória contra as ações governamentais contrárias aos direitos indígenas

Leão Serva
São Paulo

Era uma noite de lua nova quando Awaulukumã se levantou. No escuro absoluto, junto à “Casa dos Homens”, todos os presentes se calaram para ouvi-lo falar ao repórter, no centro da aldeia Piyulaga, dos índios Waurá: “Queremos saber o que está acontecendo. Antes nós sabíamos quando a chuva ia chegar, quando ia parar e voltar, agora não sabemos mais. Antes, o rio tinha uma altura, agora parece secar, é possível andar por ele com a água na cintura. Na beira do rio, estão secando os lugares onde pegamos barro para a cerâmica, tão importante para nós. Também estão diminuindo as frutas, que os peixes vêm comer na época da cheia. Diminuiu o sapé de cobrir as casas, sumiu a embira de amarrar a casa, ficamos sem madeiras para construção. Tudo isso está sumindo, até o material que usávamos para fazer arco e flecha. Antes fazíamos a roça e sabíamos controlar o fogo. Agora, ele escapa, foge e espalha. As coisas não eram assim quando era pequeno.”

Sua sabedoria naquela noite de 2011, quando a maioria dos brasileiros não se dava conta do aquecimento global, apontava o efeito das mudanças climáticas que ressecam o meio ambiente da Terra Indígena do Xingu, onde os Waurá vivem há muitos séculos (os estudos mostram que diversos nomes de rios e pontos geográficos da região, em diferentes línguas, são palavras aruaque, tronco linguístico dos Waurá, mostrando que eles já estavam ali atribuindo nomes às coisas, antes dos outros habitantes chegarem).

Na cultura comum do Xingu, os Waurá são conhecidos pela qualidade de sua cerâmica, objeto de desejo de todos os vizinhos.

Cacique Awaulukumã Waurá (2005)
Cacique Awaulukumã Waurá (2005) - Sebastião Salgado

Awaulukumã nasceu em algum momento dos anos 1950, quando os irmãos Villas Bôas comandavam a campanha pela criação do Parque do Xingu, depois de se tornarem heróis nacionais como líderes da expedição Xingu-Roncador, acompanhada como uma novela pela imprensa brasileira.

Para a opinião pública das grandes cidades, foi um momento épico de conquista do Brasil Central, com seus habitantes exóticos. Para os índios, foi uma época de doenças e mortes, de população decaindo.

Os Waurá tinham 13 grandes aldeias no fim do século 19, quando passou por sua terra o explorador alemão Karl Von Den Steinen, que em suas memórias virou “Carlos”. Com o contato intensificado nos anos 1950, a população caiu, abatida por doenças e em confrontos com brancos e outros índios.

Eles foram todos morar juntos em volta da lagoa Piyulaga (“lugar de pescar”). Outros grupos chegaram quase à extinção, como os Yawalapiti, do famoso cacique Aritana, reduzidos a uma dezena de pessoas.

Finalmente criado por decreto do presidente Jânio Quadros, em 1961, sob a direção de Orlando Villas Bôas (1914-2002) e do irmão Claudio (1916-98), o Parque do Xingu criou uma proteção.

Awaulukumã contava histórias de conflitos iminentes que foram mediados por Orlando: “Os índios Ikpeng costumavam roubar crianças dos outros grupos, quando morriam seus filhos. Orlando chegou, pacificou”.

Como jovem guerreiro, Awaulukumã testemunhou os duros anos 1960 e 1970, durante a ditadura militar, que, como o atual governo, buscava reduzir as terras indígenas (o Xingu foi cortado ao meio para a abertura de uma rodovia e perdeu território).

Da época, ele guardava elogios para o fundador do Xingu: “Quando havia conflito com os brancos, Orlando ficava nas aldeias até passar o problema”.

Nos últimos anos, lutava para que os jovens mantivessem os hábitos da cultura tradicional, resistindo às tentações do consumo dos produtos industriais. Por isso mesmo, trajava-se sempre de forma tradicional, nu com a pele pintada, enquanto os mais novos se vestem no dia a dia de calção e camiseta.

Awaulukumã ficou doente e por várias semanas esteve internado em Canarana (MT), onde morreu no último dia 17. Foi-se mais um dos líderes históricos do Xingu que testemunharam a luta e a vitória contra as ações governamentais contrárias aos direitos indígenas. É um livro de sabedoria que se perde em um mundo pautado pelo culto à ignorância.

coluna.obituario@grupofolha.com.br
 
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