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Oscar 2020

São Paulo vive o caos exibido no filme 'Parasita'

Diferentemente da Seul de Bong, a perturbação na vida real paulista é para todos

São Paulo

Uma água barrenta escorre em velocidade pela longa escadaria que leva a família ao bairro onde vive. Sob chuva forte, o pai e seus dois filhos continuam correndo. Quando chegam à casa deles (um porão, na verdade), veem objetos flutuando —potes de plástico, sandálias, papéis. A água imunda está à altura da cintura.

Não é São Paulo, é Seul. Não é fato, é ficção. No entanto, nesta segunda (10), a vida real paulistana parece mais desoladora do que as cenas terríveis da capital sul-coreana sob chuva forte em “Parasita”, de Bong Joon-ho.

Por volta de 1h30, Jane Fonda anunciou o Oscar de melhor filme para “Parasita”, que já tinha vencido em outras três categorias: direção, roteiro original e filme internacional. Por uma coincidência triste, quando Bong e sua equipe agradeciam, atônitos, pelo maior prêmio da noite em Los Angeles, São Paulo já enfrentava a chuva, e o caos estava por vir.

Quatro horas depois, a marginal Tietê foi interditada devido a alagamento na altura da ponte da Casa Verde. Entre meia-noite e 9h, o Corpo de Bombeiros foi acionado para atender 320 ocorrências de enchente na cidade.

As cenas de inundação em “Parasita” foram gravadas durante a noite. Não fosse por isso, imagens publicadas nas primeiras horas da manhã desta segunda poderiam compor a tragicomédia sul-coreana.

Mas há uma diferença entre a São Paulo dos temporais (alguém se lembra da terra da garoa?) e a Seul imaginada pelo cinema.

Em texto publicado no domingo (9) na Ilustríssima, o arquiteto e professor Guilherme Wisnik falou das escadas no filme como um emblema da exclusão social.

“O conflito de classes se espacializa na oposição entre a família rica, que reside em uma espaçosa e ensolarada casa na parte alta de Seul, e a família pobre, que habita o úmido e malcheiroso porão semienterrado de um edifício nos baixios alagáveis da mesma cidade”, escreveu.

Diferentemente da Seul de Bong, a perturbação em São Paulo é para todos. Dezenas de ruas do Alto de Pinheiros, bairro com casas de alto padrão, foram inundadas pela água que transbordou do rio Pinheiros, uma água marrom como a que se vê em “Parasita”.

Como registrou a TV Globo, as piscinas da sede social do São Paulo, no Morumbi, outro bairro nobre, estão repletas de lama.

Sem planejamento e sem grandes obras de prevenção, a tragédia urbana em que se converteu a cidade mais rica do país castiga todas as classes sociais. Nesse ponto, alguma igualdade prevalece –e isso não é um consolo.   

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