Descrição de chapéu Coronavírus

Sem esperar ajuda do governo, Paraisópolis contrata médicos para combater vírus

Associação de moradores contratou um serviço médico privado 24 horas por dia, incluindo ambulâncias, médicos, enfermeiras e socorristas

Stephen Eisenhammer
São Paulo | Reuters

Emerson Barata desenha um mapa circular de Paraisópolis e começa a marcar os casos confirmados de coronavírus na maior comunidade de São Paulo. No centro da favela de cerca de 120 mil moradores, localizada entre prédios de luxo e mansões de muros altos, ele desenha quatro pontos.

"Vai ficar muito pior", disse o líder comunitário, de 34 anos, a uma equipe médica reunida, acrescentando mais dois pontos a zonas externas da favela. "Ainda não chegou ao pico."

Barata está comandando a resposta ao coronavírus na favela paulistana, onde, além dos seis casos confirmados, sua equipe suspeita de outros 60.

Ele não tem ligação com o governo, assim como a equipe médica ao seu redor. O ex-jogador de futebol, que não conseguiu seguir carreira dentro dos campos, faz parte da associação de moradores de Paraisópolis, cuja profunda desconfiança no governo a levou a tomar a iniciativa.

Equipe médica caminha por Paraisópolis, em São Paulo
Equipe médica caminha por Paraisópolis, em São Paulo - Amanda Perobelli/Reuters

A associação de moradores contratou um serviço médico privado 24 horas por dia, incluindo três ambulâncias, dois médicos e duas enfermeiras, além de socorristas.

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro chegou a classificar o vírus como "gripezinha" e disse aos brasileiros que voltassem ao trabalho, Barata perde o sono tentando preparar sua comunidade para o que descreve como "guerra".

Barata se recusou a dizer quanto custa o apoio médico ou como estava sendo financiado, confirmando apenas que parte vinha de doações. Muito ainda precisa ser levantado, disse ele. A equipe médica possui contrato inicial de 30 dias, com possibilidade de renovação.

"A favela é a mais afetada", afirmou ele, parado em um estacionamento diante da oficina de um mecânico que serve de base para a equipe médica. "Quem estava desassistido (pelo Estado) agora então está mais ainda."

Especialistas em saúde pública concordam. A aglomeração de pessoas, o saneamento precário, a falta de assistência médica e não respeitar medidas de isolamento tornam as favelas brasileiras --onde vivem cerca de 11 milhões de pessoas-- particularmente vulneráveis ​​ao vírus.

É provável que Paraisópolis esteja na linha de frente. Muitos de seus moradores trabalham no rico bairro vizinho do Morumbi, marco zero do surto no Brasil. Em toda a América Latina, muitos dos primeiros casos foram diagnosticados em pessoas com condição financeira suficiente para viajar para o exterior, mas a previsão é que o vírus atinja severamente os mais pobres.

O Brasil é o país mais afetado pelo coronavírus na América Latina, com quase 7.910 casos confirmados e 299 mortes, segundo balanço de quinta-feira do Ministério da Saúde.

Pessoas limpam uma ambulância depois que os moradores da maior favela da cidade, Paraisópolis, contrataram um serviço médico privado 24 horas por dia para combater a doença por coronavírus
Pessoas limpam uma ambulância depois que os moradores da maior favela da cidade, Paraisópolis, contrataram um serviço médico privado 24 horas por dia para combater a doença por coronavírus - Amanda Perobelli/Reuters

Entre os moradores de Paraisópolis que testaram positivo, dois trabalham no Hospital Albert Einstein, instituição médica privada que diagnosticou o primeiro caso na América Latina. Outro caso é de uma babá.

A secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, Célia Parnes, disse que a “a grande preocupação nas favelas é a velocidade do contágio", e o governo está trabalhando para ajudar bairros pobres como Paraisópolis com refeições subsidiadas e cancelamento dos protestos de dívida por 90 dias.

Ela afirmou que o atendimento médico público em Paraisópolis não é diferente do restante da cidade, dizendo que as ambulâncias chegam à favela e que falar sobre ausência do Estado é um "grande exagero".

Mas ela elogiou o trabalho da associação de moradores. "Eu reconheço e tiro meu chapéu", afirmou.

A Prefeitura de São Paulo, em comunicado enviado por email, disse que distribui alimentos e itens essenciais aos moradores de Paraisópolis, além de enviar carros com alto-falantes ressaltando a importância de lavar as mãos e ficar em casa.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) informou que estava distribuindo 2.400 caixas d´água para bairros pobres para ajudar durante a crise de saúde. Moradores de Paraisópolis já receberam mais de 900.

Isolamento difícil

Moradores de Paraisópolis reclamam que a água acaba depois das 20h e o lixo fica acumulado ao longo dos becos estreitos e úmidos que atravessam a comunidade.

A autoridade máxima da comunidade é o Primeiro Comando da Capital, a maior e mais poderosa facção criminosa do país.

"Acho que vai ficar feio... é uma 'gripezinha' que mata", disse Luiz Carlos, um médico de cabelos grisalhos que faz parte da equipe médica contratada.

Roberto de Souza, de 41 anos, acredita que pegou o vírus em seu trabalho em uma farmácia -- apesar de usar luvas descartáveis ​​e uma máscara ao atender clientes. Ele teve uma dor terrível nas pernas e logo depois uma tosse constante.

Após o teste positivo, ele se isolou no segundo andar de um imóvel em Paraisópolis.

"O que mais dói é ficar sozinho trancado", disse ele, com uma máscara facial, entre crises de tosse. "Eu tenho que não só me preocupar comigo, mas de não passar para o próximo."

Roberto de Souza vive sozinho. Em Paraisópolis, isso é minoria.

Em uma casa apertada uma mulher estava em isolamento, doente, com sintomas de coronavírus. Mas seus três filhos, mãe e irmão não tinham para onde ir, por isso continuavam morando com ela.

Para enfrentar esse desafio, a associação de moradores está tentando usar duas escolas locais --fechadas devido ao coronavírus-- para abrigar até 500 casos suspeitos e confirmados, sem sintomas graves.

Apesar de todos os preparativos, Barata está preocupado que os moradores não estejam levando a ameaça a sério o suficiente. Ao contrário do restante de São Paulo, onde há um isolamento, em Paraisópolis a maioria dos bares e lojas permanece aberta. As ruas estão movimentadas.

Barata teme que muitos mudem de atitude apenas quando um pai ou um amigo morrer. Aí será tarde demais.

"Estamos tentando transmitir a mensagem: isso não é brincadeira", afirmou.

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Em Paraisópolis, morador narra angústia de não ter comida, emprego e moradia definida em meio à pandemia

Colaboraram Amanda Perobelli e Leonardo Benassatto, da Reuters

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