Convidado para interino, número 2 do MEC enfrenta resistência de ala ideológica

Atuação em gestão de Fernando Haddad (PT) em São Paulo é usada para minar nome de secretário-executivo da pasta

Brasília

Mesmo depois do anúncio de demissão de Abraham Weintraub do MEC (Ministério da Educação), a sucessão na pasta continua envolta em disputas dentro do governo.

O secretário-executivo da pasta, Antonio Paulo Vogel, foi convidado para assumir o cargo de modo interino. Porém, setores da ala ideológica do governo tem feito campanha contra seu nome.

O governo Jair Bolsonaro quer manter o comando do MEC com um interino até a definição do substituto, e usar o período para avaliar também a repercussão da escolha.

Se agradar a base presidencial, dizem assessores presidenciais, o interino teria chances de ser efetivado. Como Weintraub tem o apreço da militância mais fiel ao presidente, Bolsonaro analisa, segundo dizem nos bastidores, como manter o aceno.

Número 2 do MEC, Vogel seria o sucessor natural como interino, uma vez que é o mais familiarizado com o andamento da máquina. Tem a confiança do próprio Weintraub e dos militares, mas seu nome não conta com total entusiasmo de integrantes do governo e militantes ligados ao escritor Olavo de Carvalho.

Nesta sexta-feira (19), seu histórico de atuação na gestão de Fernando Haddad (PT) na Prefeitura de São Paulo tem servido de munição para tentar enfraquecer seu nome. Vogel foi secretário-adjunto de Finanças de Haddad, adversário eleitoralde Bolsonaro em 2018.

A interlocutores Vogel não descarta assumir a pasta de modo interino, mas não estaria em seus planos permanecer. Servidor federal, ele pretende voltar para a área econômica do governo.

Os chamados olavistas insistem em nomes com forte ligação com o grupo, como o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim. Mas o nome é rejeitado entre militares, que avaliam o risco de manutenção de um clima de instabilidade, dado ao perfil ideológico do secretário.

A ligação de Nadalim com o site Brasil Sem Medo, lançado por Olavo de Carvalho e seguidores em 2019, ajudou a enfraquecer sua cotação para assumir o MEC. Ele aparecia como sócio da empresa Alcântara e Nadalim Cursos On-Line Ltda., que constava de link do próprio site (retirado do ar depois) como proprietária do Brasil Sem Medo.

O MEC não respondeu ao questionamento sobre a relação do secretário com o site. O diretor do site, Silvio Grimaldo, negou que Nadalim seja sócio.

Segundo interlocutores da cúpula do MEC, integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal) foram avisados dessa ligação e fizeram chegar ao governo contrariedade —foi o embate com o STF, afinal, que derrubou Weintraub. O próprio Nadalim não estaria disposto a assumir o cargo.

Além deles, controladores do ensino superior privado também resistem a Nadalim mas também a Vogel —mais um fator que colabora para indefinição.

Olavistas têm feito campanha, defendendo, além de Nadalim, o nome da secretária de Educação Básica, Ilona Becskeházy, que assumiu a subpasta em abril deste ano impulsionada pela simpatia de olavistas nas redes sociais. Doutora em educação pela USP (Universidade de São Paulo), é uma das poucas pessoas da área que vinham defendendo a gestão Weintraub, sobretudo a política de alfabetização.

Os olavistas ainda ressucitaram a aposta em Eduardo Melo, ex-militar e religioso, como haviam feito quando Ricardo Vélez Rodríguez foi demitido do MEC, em abril de 2018. Integrante da equipe de Vélez foi exonerado em março último em uma purga interna.

Também emerge o nome do presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Benedito Aguiar.

Com histórico acadêmico, ele conta com simpatia de integrantes da bancada religiosa no Congresso por ter presidido a Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas. A favor de Aguiar pesa a relativa proximidade com o ministro do STF Alexandre de Moraes, que lecionou no Mackenzie quando ele foi reitor da universidade.

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