'Meu casamento sobreviveu à pandemia', diz Mariliz Pereira Jorge

Segundo pesquisa Datafolha, 32% das pessoas melhoraram sua relação com o cônjuge durante a quarentena

Mariliz Pereira Jorge
São Paulo

Enquanto a grande maioria das pessoas apenas tenta sobreviver, discutimos em lives se a humanidade será melhor depois da pandemia. Não será.

Fico com a conclusão do filósofo Mario Sergio Cortella: “O trauma não vai nos redimir”. Segundo ele, muitos só querem voltar à vida normal.

Não significa que não teremos algum impacto em nossas experiências individuais. Eu, por exemplo, descobri que amo meu marido. Pode não parecer grande coisa, mas pela previsão da explosão do número de divórcios, podemos nos considerar vitoriosos.

Quem estava preparado para viver um intensivão de “Eu Sei que Vou Te Amar” (Arnaldo Jabor) com a dinâmica de Big Brother e sem empregada? Achei que estava, mas a paz não durou uma semana.

É fácil amar o companheiro com faxineira, vida social agitada, viagens a trabalho, drinques com as amigas, colo de mãe e puxada de orelha do psicanalista.

A prova de resistência foi nutrir esse mesmo sentimento sem nada disso para amortecer as diferenças, os desencontros e, principalmente, a pia cheia de louça, talvez o maior ponto de atrito entre os casais trancafiados em casa, além do tédio.

Constatar que fomos feitos um para o outro como imaginávamos há oito anos foi um alívio, mas não veio sem várias DRs, sem eu ter quer ouvir que estava insuportável e ele que era um folgado.

O meu digníssimo chegou a esta administração, a minha, já aprovado nos módulos “não sou sua empregada” e “ajuda é o cacete”. O que essa pandemia revelou foi que ele estava empacado na etapa “mas era só pedir”.

Depois que eu gritei umas oito vezes que eu não era sua mãe, e fui encarada com a expressão “não é minha mãe, mas grita igualzinho”, ele entendeu. Mulheres não querem pedir, elas querem iniciativa, e isso vale tanto para sexo safado às duas da tarde quanto para varrer a sala ou limpar o banheiro. É que sexo rola muito mais facilmente quando a casa cheira a desinfetante.

Tive que controlar meu TOC com limpeza e hoje já relaxo se a cama passa o dia desarrumada e as almofadas do sofá estão espalhadas pelo chão.

Não dá para ser tão xiita com um marido que faz pudim, waffle e bolo de chocolate, mesmo que a cozinha pareça um cenário de guerra depois.

Quando tudo passar, lembrarei que sem ele eu teria comido lasanha congelada durante a maior parte do tempo.

Sem poder sair, tivemos que aprender a respeitar ainda mais os espaços, os silêncios, as individualidades, o tempo de cada um. Reaprender a viver de uma forma diferente o que já vivíamos todos os dias.

E a nos preparar para o que vem pela frente. Tenho medo de ter desaprendido a fazer as coisas mais banais e de ter dificuldade de me entender novamente com o mundo.

Não à toa, o escritor e futurista americano Alvin Toffler (1928-2016) já dizia que “o analfabeto do século 21 não será aquele que não consegue ler ou escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”.

Talvez por isso haja alguma vantagem na resiliência do brasileiro, que também pode ser apenas distração em relação à realidade. Só isso explica 85% dos entrevistados pelo Datafolha se declararem otimistas em relação à vida pós-pandemia.

Mas talvez toda essa gente esteja certa e eu apenas tenha perdido a esperança na humanidade ao ver desembargador dando carteirada, presidente brincando de garoto-propaganda de tratamento pra Covid-19 e uma classe média que lamenta perder o verão europeu, enquanto a vida escancara o abismo de desigualdade no país.

Para quem vive o isolamento como recomendado, começo a pensar que o mundo será melhor, sim. Só de pensar em poder sair de casa sem restrições já será um grande progresso.

Andar pelas ruas sem máscara é para ficar otimista, ainda que isso demore um ano, ou mais, para acontecer. Imagine tomar um chopinho no meu boteco preferido sem medo de morrer. Ao ver uma foto de um copo todo suado, repleto de líquido cor de ouro e colarinho generoso, sorri de saudade.

Quero ver meus pais, abraçar meus amigos. Não tem como não ser melhor. E que sorte passar por tudo isso e descobrir que tenho um companheiro, e não um encosto.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.