Novas práticas de higiene devem ser incorporadas pela população após a pandemia

Uso de máscara em locais fechados, principalmente no inverno, é recomendado por especialistas

São Paulo

Nem maníacos por limpeza poderiam prever que desinfetar sacos de arroz e lavar uma coleção de máscaras de tecido seriam comportamentos cotidianos em 2020.

Novos hábitos de higiene pessoal e de limpeza da casa foram adquiridos neste momento, e muitos devem ser mantidos pela população quando tudo passar.

“Nunca vivenciamos uma pandemia como esta, que praticamente isolou o planeta inteiro. Acredito, sim, que isso fará com que medidas de prevenção sejam incorporadas”, afirma Stefan Cunha Ujvari, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e autor do livro “Pandemias: A Humanidade em Risco” (ed. Contexto, 216 págs., R$ 37).

Desde o início da quarentena, ninguém mais entrou calçado na casa da professora de educação física Zuleika Albuquerque, 54, na zona norte de São Paulo. No corredor de entrada do apartamento, um tapete sinaliza até onde o uso de sapato está permitido.

Ali funciona uma área de desinfecção. Sobre um banco, há um frasco de álcool em gel e um pacote de lenços, para que mãos e bolsas sejam higienizadas. Ao lado, fica um cesto onde quem chega pode já jogar a roupa suja.

​Zuleika também está entre os 36% dos paulistanos que aumentaram o consumo de produtos de limpeza durante a quarentena, como mostra pesquisa Datafolha realizada entre 2 e 6 de julho.

“Tudo eu quero lavar. Estou gastando mais sabão, detergente, água sanitária. Passei a usar um desinfetante mais forte que não tinha antes na minha casa”, afirma.

Dos novos hábitos, só um a professora não deverá incorporar à rotina depois que a pandemia passar: a higienização de cada embalagem que chega do supermercado. “Isso me toma muito tempo.”

Já para a administradora Suely Omodei, 55, essa e outras medidas são um caminho sem volta. “Quero manter o que eu estou fazendo. Aqui em casa nada será tirado quando chegar a vacina, a gente descobriu que existem outras doenças”, diz ela.

Em seu apartamento, os calçados também estão proibidos. Junto à sua vizinha, Suely comprou uma sapateira que deve ocupar o hall em caráter definitivo.

Além da lavagem reforçada das compras e das mãos, ela ainda pretende continuar com o uso das máscaras, mesmo quando a Covid-19 já não representar mais um perigo.

“O asiático está acostumado com isso. Vou seguir indo de máscara para os lugares onde tem muita gente”, diz.

De fato, esse é um bom hábito a ser mantido sobretudo no inverno, quando há uma maior circulação de vírus respiratórios, afirma Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Para a infectologista, a máscara deveria continuar sendo usada no pós-pandemia em ambientes fechados e com aglomeração, principalmente no transporte público.

Já o costume de deixar os calçados na porta não é útil para bloquear a transmissão da Covid-19 nem de outras doenças. “Ninguém pega vírus da sola do sapato”, diz a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz.

De qualquer forma, ela considera o hábito saudável. “Faz bem, porque voltamos da rua com muita sujeira.”

A medida preventiva mais importante, reforçam os médicos, é a correta higienização das mãos com água e sabão.

“O brasileiro toma muito banho e lava pouco as mãos. Esse hábito de higiene, sobretudo no ambiente coletivo, terá que ser incorporado à nossa cultura independentemente desta epidemia”, diz Dalcolmo.

Nesse sentido, o álcool em gel é um aliado fundamental e deve ser usado sempre que não for possível lavar as mãos. As especialistas também recomendam que seja mantida a etiqueta da tosse: cobrir o nariz e a boca com o lenço ou com a parte interna do braço ao tossir ou espirrar.

Mas não é preciso ficar obsessivo com limpeza. “Nos últimos seis meses, o que a gente viu é que a presença do vírus em superfícies, do ponto de vista da transmissão, é quase desprezível”, diz Stucchi.

A infectologista explica que, independentemente da Covid-19, é importante manter os ambientes limpos e arejados, além de higienizar antes de consumir toda embalagem que vai entrar em contato direto com a boca —caso da lata de refrigerante ou do copo de iogurte.

O advogado Nivaldo Aparecido Monteiro, 65, porém, acha melhor continuar pecando pelo excesso. “Prefiro ser considerado ignorante e tomar todas as medidas de precaução”, afirma.

“Minha esposa tem uma doença que lhe dá baixa imunidade e eu sou do grupo de risco pela idade. Creio que não devemos agir acreditando que já sabemos tudo sobre o coronavírus”, completa.

Neste momento, esse exagero nos cuidados é, sim, bem-vindo, segundo o psicólogo Ronald Fischer, pesquisador do Instituto D’Or.

Ele diz que, na pandemia, é difícil fazer um diagnóstico de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), porque quase todo o mundo está com uma preocupação exacerbada em relação à prevenção.

“Esse comportamento está muito funcional, porque protege as pessoas. Mas vai ter um momento em que não será mais necessário tomar tanto cuidado, e a gente terá que reestabelecer um equilíbrio.”

Para o psicólogo, um trauma individual ou coletivo pode contribuir para que aconteça uma mudança de hábitos a longo prazo.

“Principalmente quando a pessoa sofreu, perdeu amigos ou familiares, ela tem um estímulo para continuar com um comportamento que pode evitar que aconteça algo parecido no futuro.”

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