Descrição de chapéu Coronavírus

Brasil chega a 150 mil mortos sem saber real dimensão da Covid-19

Pesquisadores brasileiros tentam corrigir subestimativa causada por diminuição de anticorpos em infectados

São Paulo

O número de mortos deixados pela Covid-19 no Brasil superou, neste sábado (10), 150 mil pessoas.

Neste sábado, foram registrados 544 mortes e 24.650 casos da doença, de acordo com o consórcio de imprensa, que teve início após ameaças do governo Jair Bolsonaro (sem partido) de sonegar dados. O total, dessa forma, chega a 150.236 óbitos e 5.081.840 pessoas infectadas pelo novo coronavírus desde o início da pandemia.

Inicialmente, constava no texto que o consórcio de imprensa havia registrado 34.650 casos da Covd-19. O número real é de 24.650. Tratava-se de um erro de digitação. Portanto, o número total de infecções também foi corrigido.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se solidarizou com familiares e amigos dos 150 mil mortos. "Como presidente da Câmara, quero dizer que o Legislativo priorizou, desde o início, o combate à Covid e as suas consequências à economia, especialmente em relação aos mais vulneráveis que foram os mais atingidos", escreveu Maia em suas redes sociais. "Os desafios que ficam a partir de agora vão exigir cada vez mais união, solidariedade e colaboração. Ninguém vence uma crise dessa magnitude sozinho", concluiu.

À noite, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), também lamentou as mortes em redes sociais, e disse que "O Congresso Nacional se comove com todos os familiares das vítimas desta tragédia e permanece trabalhando para minimizar as consequências da pandemia".

Passados sete meses e meio desde o primeiro caso no país, contudo, a dimensão real da doença entre os brasileiros continua a ser uma incógnita.

Mesmo os primeiros pesquisadores que tentaram estimar o número total de pessoas infectadas, isto é, que tentaram descobrir a soroprevalência, a porcentagem de pessoas contaminadas, com ou ou sem sintomas, foram driblados pelo novo coronavírus,

A quantidade de anticorpos de quem foi infectado começa a diminuir depois de algumas semanas. Decai a ponto de testes em geral usados nessas pesquisas não captarem mais esses sinais de infecção. Depois de um tempo, uma pessoa um dia contaminada pode parecer que jamais foi invadida pelo novo coronavírus. Por esse motivo, provavelmente, essas primeiras grandes pesquisas indicaram estabilidade relativa ou queda da taxa de infecção desde junho: subestimaram o tamanho da epidemia. O número de casos confirmados oficialmente passa de 5 milhões.

Conhecer o tamanho da infecção pode ajudar a definir políticas de saúde, até de vacinação. Pode indicar em que altura uma certa porcentagem de infectados por si só leva à redução do número de novos casos, a chamada imunidade coletiva. A correção dessas pesquisas pode ser necessária para se descobrir se a infecção deixa as pessoas imunes ao vírus, por quanto tempo e com qual nível de resistência à doença. Mesmo sem anticorpos detectáveis, pode haver imunidade, mas, anticorpos não são garantia de proteção.

Novos estudos tentam corrigir a subestimativa. Nos testes feitos pela Prefeitura de São Paulo com amostras da população paulistana, a porcentagem de infectados variou entre 9,8% e 13,9% de julho a agosto. Essa variação pequena não é compatível com o número de doentes e de mortos. Trabalho de pesquisadores brasileiros publicado em setembro indica que a cidade de São Paulo poderia ter mais de 22% de infectados em agosto —o número de total de contaminados, portanto, seria 10 vezes o que aparece na conta oficial dos casos confirmados. Em Manaus, seriam até 66% os infectados, ante os 27,5% dos resultados “sem correção”.

Os inquéritos sorológicos, como o da prefeitura paulistana e o Epicovid, nacional, tentam obter o número geral de infectados na população a partir do exame de uma amostra, de uma parte desse mesmo conjunto de pessoas. Os sorteados são examinados com os chamados testes rápidos, que detectam se há anticorpos em sangue coletado por uma picada no dedo.

Esses testes são mais baratos e de aplicação simples, sem o que seria inviável fazer exames em dezenas de milhares de pessoas. Antes de serem usados, sua sensibilidade, a capacidade de detectar a infecção, é comparada à de testes mais precisos. No entanto, esses exames são calibrados com pacientes mais graves da doença. Ou seja, aparentemente, os testes acabam sendo mais sensíveis para infecções em que houve maior reação de defesa do organismo e, portanto, mais produção de anticorpos.

No caso de assintomáticos ou de doença menos agressiva, haveria produção menor de anticorpos e decaimento mais rápido, indicam estudos, imunologistas e epidemiologistas ouvidos pela Folha.

“O total de anticorpos sempre diminui. No caso do novo coronavírus, isso parece ser mais rápido do que no caso do Sars ou do Mers”, diz o imunologista Gabriel Victora, professor e chefe do Laboratório de Dinâmica de Linfócitos da Universidade Rockefeller, nos EUA. No caso de Sars e Mers, dois coronavírus muito letais mas que se espalharam pouco, no começo do século, os anticorpos duram de um ano a três anos. Nos coronavírus que causam resfriados comuns, menos de um ano e até três meses.

No entanto, as células de defesa têm uma memória do corona ou outro invasor, produzindo mais anticorpos em caso de nova infecção —de resto, a reação imunológica depende de uma reação coordenada, complexa de vários tipos de células de defesa. Resta saber qual o nível de proteção que esse sistema de defesa oferece contra um novo ataque viral. Por outro lado, as reinfecções com o mesmo tipo de vírus poderiam causar doença mais amena, ainda que as ondas de contaminação sejam recorrentes, como nos surtos de resfriado, diz Victora.

Uma nova infecção pode ocorrer também porque o vírus passa por mutações, porque a imunidade contra um tipo de corona não basta para proteger contra um outro similar ou porque a defesa dos uma vez infectados se desfaz aos poucos. Não se sabe bem, mesmo no caso dos velhos coronavírus. Menos ainda do novo.

Nos estudos epidemiológicos, a tentativa ainda é de dar uma dimensão para o espalhamento do coronavírus. No estudo de Manaus e São Paulo, em vez de visitar e testar a população, os pesquisadores utilizaram amostras de doações de sangue estocadas de fevereiro até agosto em hemocentros. É menos custoso e permite fazer testes melhores, diz a imunologista Ester Sabino, uma das autoras do trabalho, professora de medicina da USP e integrante do grupo que sequenciou o genoma do coronavírus “brasileiro”.

Nessas amostras, o nível de anticorpos de doadores infectados faz mais tempo também pode diminuir. O grupo de Ester então acompanhou pessoas infectadas por Covid a fim de medir esse ritmo
de diminuição e corrigir os resultados.

Com ajustes estatísticos para a demografia, para a sensibilidade do teste e essa correção, chegaram a uma estimativa de infecção real em Manaus: de 44% a 66% em agosto, passando de 60% no início de junho. Como o número de novos casos passou a diminuir desde então na cidade, supõe-se que estaria aí o limiar da imunidade coletiva.

Desde que a pandemia começou, há controvérsia sobre imunidade coletiva. De início, com modelos matemáticos simples e premissas intestadas, seria de 60%, calculava-se. Levando em conta a heterogeneidade dos contatos sociais e o fato de que poucas pessoas infectadas são mais contaminantes do que a maioria, o limiar da imunidade coletiva poderia ser de 20% a 40%. Os números de Manaus e a dificuldade de estimar o tamanho real da epidemia colocam em dúvida todas essas contas, porém.

Pelo menos outros dois estudos brasileiros tentam descobrir por quanto tempo um infectado pode ser pego na rede dos testes em massa. Um deles, no Rio de Janeiro, da Fiocruz, colhe seguidas amostras de sangue e de material de garganta e nariz (com “swabs”, aqueles cotonetes grandes) e acompanha infectados. É o que conta o epidemiologista Claudio Struchiner, professor de matemática aplicada na Fundação Getúlio Vargas, que trabalhou com os pesquisadores que fizeram o estudo nacional, o Epicovid, um dos primeiros do mundo, iniciado por pessoal da Universidade Federal de Pelotas.

“Notamos a queda em junho, especialmente na região Norte. Uma hipótese é que o teste utilizado começa a perder sensibilidade em duas ou três semanas, esses testes que foram concebidos quando não se conheciam bem as dinâmicas do vírus. Agora vamos tentar descobrir o que de fato medem”, diz Struchiner. Trabalho similar é realizado em Pelotas (RS), conta Pedro Hallal, epidemiologista e reitor da Ufpel, que coordena a Epicovid.

Foi também em junho que começaram a aparecer os primeiros estudos a medir o nível e a velocidade de decaimento da quantidade de anticorpos. Mas esses trabalhos na China, no Reino Unido e nos EUA obtiveram números diversos para o ritmo de redução de anticorpos. Não se sabe, de resto, se esse ritmo será constante e se segue indefinidamente. Para complicar, amplo estudo na Islândia constatou que lá o nível de anticorpos cai apenas um pouco, mas permanece estável por pelo menos quatro meses.

Um dos pesquisadores da Epicovid, Aluísio Barros, epidemiologista da Ufpel, aponta outras dificuldades. O nível de anticorpos detectável depende da severidade da infecção, além de outras características dos indivíduos. Como não se sabe como está distribuída a severidade da doença entre os infectados, também seria difícil estimar a quantidade e o ritmo geral do decaimento do nível de anticorpos e, assim, um número mais preciso de taxa de infecção.

No estudo do grupo de Ester Sabino, pede-se cautela na extrapolação dos resultados. A amostra dos doadores de sangue não é representativa da população em geral (contém apenas assintomáticos e pessoas entre 16 e 69 anos, por exemplo), embora tenha sido corrigida pelas características gerais dos habitantes de Manaus e São Paulo. Além do mais, os dados brutos (sem correção qualquer) da prevalência da infecção entre doadores de São Paulo e os da amostra da prefeitura paulistana, na população em geral, são muito similares, o que reforçaria os achados da pesquisa.

Barros, da Ufpel, acha que podemos estar no escuro ainda por outros motivos. Os casos de suspeita de reinfecção pelo novo coronavírus ainda são duas dúzias no mundo inteiro. Não se sabe se isso é boa notícia ou sinal de relativa ignorância. Uma pessoa pode ter tido infecção assintomática, raramente detectada, e uma reinfecção com sintomas leves ou vice-versa, observa Barros.

Outro problema de estudos com doadores de sangue é que poucas cidades dispõem de hemocentros com infraestrutura capaz de permitir estocagem e boa pesquisa, diz Ester. Além do trabalho já publicado sobre Manaus e São Paulo, seu grupo estuda Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Salvador.

Entre as tantas controvérsias está a capacidade de diferentes pesquisas captarem o número de infectados mesmo em um determinado momento. Em fins de junho, os testes da Epicovid indicavam prevalência de 1,2% na cidade de São Paulo; no inquérito da prefeitura, a taxa de infecção era de quase 10% no início de julho.

Todas essas dificuldades colocam em dúvida a ideia de “passaportes de imunidade” (quem teve o vírus pode circular livremente) ou estimativas de imunidade coletiva. Tornam mais difícil separar qual o efeito da taxa de (possível) imunidade da influência do comportamento (distanciamento, máscaras) na diminuição do ritmo da epidemia. Se a imunidade coletiva de fato está próxima ou foi atingida, é possível relaxar medidas de distanciamento. Mas ainda não sabemos.

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