Condephaat rejeita tombar complexo esportivo do Ibirapuera

Abertura de processo de preservação frearia planos do governo Doria para concessão do conjunto à iniciativa privada

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São Paulo

Em reunião nesta segunda (30), o Condephaat, órgão estadual de preservação do patrimônio, rejeitou abrir processo de tombamento do Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, no Ibirapuera (zona sul da capital).

O local deverá ser renovado com a criação de uma arena multiúso, para esportes e shows, no lugar de uma das raras pistas públicas de atletismo de padrão oficial na cidade. O ginásio se tornará um shopping, a se somar aos 53 hoje operantes na capital.

A abertura do processo de tombamento poria freio aos planos da gestão João Doria (PSDB) de conceder por 35 anos o conjunto de 92 mil m².

 Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, que deve ser concedido à iniciativa privada pelo governo de São Paulo
Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, que deve ser concedido à iniciativa privada pelo governo de São Paulo - Gabriel Cabral -22.out.2019/Folhapress

A expectativa é que o concessionário seja escolhido em fevereiro. Ele deverá construir instalações para atividades como lojas, hotel, pista de skate e playground —e liberar o estado de gastar em média R$ 15 milhões ao ano.

Votaram a favor da abertura do processo 8 conselheiros; 16 foram contra.

O resultado reflete o temor expressado por especialistas quando, em abril de 2019, Doria alterou por decreto a composição do Condephaat.

Além de aumentar a participação dos membros do governo, o decreto determinava que representantes de universidades e da sociedade civil seriam escolhidos pelo governador a partir de listas tríplices indicadas pelas entidades.

Dos 16 votos contrários, 12 vieram de representantes do governo. Os outros 4 foram da Associação Paulista de Municípios e do Instituto de Engenharia de São Paulo, que não tinham assento no conselho até 2019, e de 2 profissionais de “notório saber” designados pelo governador.

Ao longo das últimas semanas, houve mobilização pedindo que o conselho estudasse a possibilidade de preservar o complexo por sua importância histórica e arquitetônica.

Postagens em redes sociais e projeções em empenas lembraram talentos esportivos que treinaram ou atuaram ali.

Um abaixo-assinado com mais de 5.000 nomes somou-se ao entendimento, favorável ao tombamento, de um dossiê da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico.

Técnicos da unidade, cujos pareceres subsidiam as decisões do Condephaat, vistoriaram o espaço em 2019, atestando “boas condições estruturais em geral”.

Em 26 de outubro, o dossiê foi apresentado ao conselho, junto do parecer do relator do processo, Pedro Taddei. O arquiteto, que tem assento como profissional de notório saber em urbanismo, foi contrário ao estudo de tombamento.

Representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no conselho, Renato Anelli pediu vistas do processo, que voltou à pauta nesta segunda. Na reunião, Anelli apresentou o arrazoado que elaborou após avaliar os documentos.

À Folha o professor titular sênior do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP frisa que seu parecer defende a abertura do processo de tombamento, mas estabelecendo valores culturais a preservar e “aceitando a modernização do conjunto”.

“Seria o desafio de um tombamento mais aberto, que definisse o essencial e permitisse as mudanças que garantam o uso”, diz. Ele lembra o projeto vencedor de concurso público em 2003 para renovação do conjunto, de Héctor Vigliecca e equipe, que “acrescenta 50% de área sem demolir nada”.

Para Anelli, tratava-se de aprofundar o debate para chegar a usos compatíveis com a vocação original do espaço.

Projetado para as comemorações do Quarto Centenário da cidade, em 1954, o complexo teve ginásio e velódromo concebidos por Ícaro de Castro Mello (1913-1986), ex-atleta olímpico que se tornou um dos principais projetistas esportivos do modernismo.

O conjunto aquático, de 1968, foi obra do arquiteto Nestor Lindenberg, inspirado no trabalho de Mello.

A Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo diz que não há atletas alojados ou em treinamento no complexo desde o início da quarentena contra a Covid-19. Entre maio e setembro, o local abrigou um hospital de campanha.

A pasta informa que dará a atletas e judocas, que usavam o Centro de Excelência do complexo, estruturas de alojamento e treinamento na Vila Olímpica Mário Covas, no Butantã (zona oeste) e, por convênio, em estruturas “superiores às atuais”, em cidades da Grande São Paulo.

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