Descrição de chapéu Obituário Ana Maria Maia Senna (1952 - 2020)

Mortes: Fez preces pelas vítimas da Covid-19 e acabou nas estatísticas da pandemia

Professora aposentada Ana Maria Maia Senna, 68, buscou no diálogo e na escuta uma forma de unir pessoas

São Paulo

Escutar e dialogar foram os verbos mais praticados por Ana Maria Maia Senna ao longo de seus 68 anos de vida.

Sem precisar atingir a frequência de decibéis de quem grita, ela usou a voz doce e pausada que tinha para apaziguar ânimos exaltados, unir pessoas e aconselhar quando achava necessário –e sempre era.

Usou essa mesma capacidade nos mais de 20 anos em que lecionou língua portuguesa na rede pública de ensino em Rondonópolis, terceira maior cidade de Mato Grosso.

Com os filhos não era diferente, conta a primogênita Laura Senna, que seguiu os passos da mãe e tornou-se professora de biologia. “O diálogo foi fundamental na nossa criação. Ela era a nossa maior amiga”, diz a filha.

A força de Ana Maria se sobressaiu quando ela terminou o casamento em uma época em que divórcio parecia ser um ato falho. Sozinha, assumiu a criação de Laura, Leandro e Lisiane, na ocasião com 12, 8 e 5 anos de idade, respectivamente.

E foi nessa fase que ela incutiu nos filhos a importância de trilhar a vida pelos estudos. E conseguiu: todos conquistaram um diploma.

Quem a visitava ficava impressionado com duas coisas: as deliciosas vitaminas de frutas que ela fazia no café da manhã e sua estante de livros –imponente, ia do chão ao teto.

Não à toa, as conversas começavam pelos livros. Um romance ali, uma poesia acolá, até chegar na literatura espírita, cuja doutrina seguiu por 30 anos.

Os papos também paravam nas redes sociais. Dona de um português impecável, seus textos na internet chamavam a atenção e rendiam novas amizades virtuais.

Mergulhada no espiritismo, integrou por 15 anos um projeto de seu centro que buscava incentivar o pré-natal de mulheres grávidas na periferia de Rondonópolis.

Entre fraldas, alimentos e noções de primeiros cuidados com os recém-nascidos, Ana Maria usava o ouvido afinado que tinha para escutar os problemas daquelas mulheres –a maioria delas mães de primeira viagem. Saía dos encontros dizendo ter mais aprendido do que ensinado.

Assim que a pandemia de Covid-19 se instaurou no mundo, instituiu em casa uma prece ininterrupta em prol das vítimas e seus familiares.

As orações não contiveram a entrada do vírus em sua casa, porém. Os filhos foram os primeiros a contrair o coronavírus, mas manifestaram sintomas leves.

Internada numa UTI, Ana Maria viu seu quadro clínico piorar ao longo dos 18 dias em que respirou com a ajuda de aparelhos.

No seu leito, um mural de fotos com os momentos mais felizes da família foi fixado para ajudá-la a relembrar quem era quando voltasse a abrir os olhos.

A infecção provocada pela Covid-19, no entanto, afetou os rins, e Ana Maria fechou os olhos definitivamente no dia 18 deste mês.

Além de não ver o resultado da reforma de sua casa que tanto queria, a professora aposentada também não conseguirá tirar do papel seus planos de viagem. O mar era um destino sabido pelos filhos.

Ela deixa três filhos, três netos, duas irmãs, muitos sobrinhos, primos e amigos que continuarão em prece pelas famílias atingidas na pandemia.

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