Crimes mais cometidos em São Paulo em 1921 continuam em alta 100 anos depois

Destaques dos jornais eram para homicídios de mulheres, crimes patrimonais, acidentes de trânsito e violência policial

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Um belo dia, já faz bastante tempo, Margarida de Andrade, uma mocinha que trabalhava na fábrica de tecidos Maria Zelia, da Companhia de Tecidos da Juta, viu pela primeira vez um rapaz que muito lhe agradou. Era Pedro Sartorio, também operário, que segundo lhe disseram era muito amante do trabalho e cumpridor dos seus deveres.

E entre os dois nasceram logo fortes laços de amor, tão fortes que em breve eles se declararam noivos e começaram a ir juntos ao cinema e a outros divertimentos, fazendo inveja a muitos colegas de trabalho. Mas o amor que tinha para com Margarida veio perturbar um tanto o nosso Sartorio.

Foi assim que em 9 de agosto de 1921 a Folha iniciou a narrativa de mais um assassinato de mulher na capital paulista, causa da maioria dos homicídios registrados pelo jornal naquele ano, quase todos ligados a “Vingança Amorosa” —como destacou o título da reportagem—, ocorrências que na maioria das vezes terminaram com o suicídio do agressor.

Sartorio, 25, matou Margarida, 18, por não se conformar com o fim do noivado. Sua perturbação, conforme registrado, já havia levado o rapaz a abandonar o trabalho e a perambular pelas ruas —motivos que levaram os pais da moça a cobrar o fim do noivado. “Tornou-se, afinal, um verdadeiro vagabundo”, dizia a reportagem.

A ex foi morta com duas facadas, uma nas costas e outro no peito, quando seguia para o trabalho. Ao ser preso momentos depois, Sartorio disse ao delegado responsável pela investigação que não tinha intenção de matar seu amor, apenas de "dar um susto". Tinha planos de tirar a própria vida, mas não se sabe se conseguiu posteriormente.

Ao menos outros cinco homicídios de mulheres ganharam destaque naquele ano, o que indicava uma das preocupações mais recorrentes dos paulistas nos anos 1920. O feminicídio só viria a existir como crime em 2015, mas um dos problemas enfrentados pela polícia atualmente, já era muito presente então.

Em seguida vinham os crimes patrimoniais, como roubos e furtos, seguido pelos acidentes de trânsito, ou, “perigo dos veículos”. A violência policial também tinha destaque, incluindo contra jornalistas.

policiais usam uniforme inglês no policiamento de ruas
Policiais da Força Pública, origem da PM paulista, fazem policiamento nas ruas de São Paulo com fardamento inspirado na polícia inglesa - Museu da Polícia Militar de São Paulo

Uma sequência de crimes patrimoniais ocorreu em Perdizes, zona oeste da capital, que levou o jornal a publicar uma reportagem intitulada “Perdizes, paraíso dos ladrões”, que narrava o “clamor dos moradores do belo bairro” contra a “absoluta falta de policiamento”.

Segundo a reportagem, guardas-noturnos existiam no bairro, mas em número insuficiente. “Soldado, nem um só.” “Ora, dessa forma é muito natural que os ladrões escolham aquele arrabalde para fazer o seu ‘trabalho’. E ‘trabalham’ de verdade, sem descanso...”

Um furto de roupas do varal de uma casa da rua Santos Dumont é citado como exemplo. “Mandaram à sua casa um soldado boçal, que nada mais fez do que admirar-se da sem-vergonhice do gatuno”, diz trecho da reportagem que conclui após citar outros casos. “E enquanto isso, a portentosa polícia de S. Paulo continua naturalmente emboscada com a ‘sem-vergonhice’ desses vagabundos."

uniformes usados pela polícia em 1921
Uniformes utilizados pela polícia de São Paulo em 1921; Homens da Guarda Cívica, integrantes da Força Pública, faziam o policiamento de ruas - Museu da Polícia Militar

As críticas feitas ao trabalho da polícia nem sempre terminavam bem para os jornalistas da época. A Folha noticiou caso de repórter de Santos que, quando estava em um restaurante da cidade, foi ameaçado de morte por um policial descontente com uma de suas reportagens.

O jornalista fugiu do policial, que estava com um punhal em riste. Escapou porque encontrou dois soldados que patrulhavam a rua.

A própria Folha noticiou, também, críticas a abusos praticados pela polícia: “Apesar das providências solicitadas às autoridades competentes, quase todos os dias, pelas folhas diárias, esse estado de coisas tem continuado invariavelmente”.

A reportagem continua: “Anteontem, por exemplo, quando ia ser feita a distribuição da ‘Folha de Noite’ na esquina da ladeira Porto Geral, com a rua Boa Vista, apareceram ali policiais que, em atitude agressiva, impediram que os nossos jornaleiros recebessem as ‘Folhas’, proibindo o seu estacionamento pelas imediações”.

Embora o contingente de policiais fosse motivo de críticas dos paulistanos, em 1921 a Força Pública, corporação organizada militarmente que cuidava da segurança e ordem pública, tinha um efetivo fixado de 8.620 policiais para uma população estimada de 4,61 milhões de habitantes.

Atualmente, a Polícia Militar de São Paulo tem cerca de 83 mil agentes para uma população de quase 45 milhões. De 1 policial para cada 533 habitantes em 1921 passamos para 1 para cada 565 moradores cem anos depois.

arma usada pela polícia paulista em 1921
Revólver Saint Etiènne calibre 8mm, usado pela polícia de São Paulo em 1921, e atualmente faz parte do acervo do Museu da Polícia Militar - Museu da Polícia Militar

Embora a tropa da Força Pública se vestisse ao estilo da polícia inglesa, foi da França que veio seu maior impulso, com a “Missão Militar Francesa”: um contrato do governo do estado pelo qual oficiais do país de Charles de Gaulle vieram instruir e aprimorar o serviço policial, explica o coronel Galdino Vieira da Silva Neto, diretor do Museu da Polícia Militar.

“Foi um ponto de virada, uma alavancada que ninguém conseguiu superar até hoje”, disse.

A Força Pública deixou de existir em 1970 quando foi unificada com a Guarda Civil (criada em 1926), dando vida ao que é hoje a Polícia Militar de São Paulo. Muitos policiais militares paulistas preferem o termo Força Pública e defendem o retorno do nome.

A Polícia Civil também já existia na época, ligada à Secretaria da Justiça. De acordo com o delegado Paulo Roberto Queiroz Motta, considerado o guardião da memória da instituição, o governo de São Paulo também buscou ajuda externa para melhorar o trabalho da polícia paulista.

“O governo contratou o perito suíço Rudolph Archibald Reiss para ministrar um curso técnico de investigação, fotografia e exame em locais de crime para os seus delegados”, conta o delegado, que integra do Dipol (Departamento de Inteligência) da Polícia Civil.

Ainda segundo o policial, os crimes mais comuns da época eram os homicídios, lesão corporal, defloramento, estelionato, vadiagem, mendicância e furtos. “Defloramento é uma nomenclatura genérica, mas indicando a sedução, que no passado era crime”.

Não houve nenhum destaque nos jornais de 1921 para o tráfico de drogas, embora, segundo Motta, existissem comércio de cocaína e ópio.

documento de nomeação de delegados
Documento de nomeação de delegado de polícia em 1921 pelo Presidente do Estado de São Paulo - Acervo Memória da Polícia Civil

Na região da atual cracolândia no centro de São Paulo, uma ocorrência ganhou registro da Folha. Nada a ver com droga —o problema foi com Odilon Moura , hospedado havia duas semanas em uma pensão da alameda Glete.

Depois de um passeio pela cidade, segundo o registro policial, Moura decidiu falar mal de São Paulo aos colegas de pensão. O paulistano Dolivar Pereira Rosa saiu em defesa da cidade. Moura deu um tapa no rosto de Rosa, que em seguida o perfurou na barriga com uma tesoura. “Em resumo, o ferido foi medicado pela assistência e o agressor prestou declarações ao sr. Dr. Soares Calaby que vai abrir um inquérito."

De acordo com o Tribunal de Justiça de São Paulo, não há estatística sobre a maioria dos processos envolvendo crimes cometidos naquele ano.

Um dos problemas no Judiciário citados em várias reportagens da Folha era a quantidade de jurados convocados para participar de julgamentos de casos de homicídio que não compareciam. “As intimações dos jurados não se fazem com escrúpulos, porém, às vezes, elas se tornam impossíveis por causa dos próprios jurados que se esquivam de recebê-las.”

O próprio presidente do estado, Washington Luís, foi acionado para resolver o problema. Uma das ações na época foi a criação de varas específicas do tribunal do Júri, além da aplicação de multas aos jurados faltosos.

polícia de São Paulo com bicicletas em 1921
Pelotão da Guarda Cívica, integrantes da Força Pública, faziam o policiamento de ruas de São Paulo em bicicletas - Divulgação Polícia Militar
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.