Sem Carnaval, ambulantes vivem de doações e temem falta de renda

Venda de bebidas e outros produtos em blocos ajuda a quitar dívidas e a pagar contas

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Lucas Veloso
São Paulo | Agência Mural

A diarista Juliana Oliveira, 31, aproveitou o Carnaval de rua dos últimos anos para complementar a renda. Em 2020, chegou a conseguir cerca de R$ 5.000 nas vendas de cerveja, água e refrigerante.

Mas, neste ano, com o cancelamento dos blocos por causa da Covid-19, a situação será diferente e tende a agravar ainda mais o orçamento da família. Moradora do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, ela é mãe de uma menina de quatro meses.

Além de limpar casas, Juliana decora festas de aniversário e atua como confeiteira, mas no momento não espera dinheiro de lugar nenhum. “Não tenho renda alguma agora. Estou ganhando uma cesta da igreja e contando com a ajuda de algumas pessoas para fraldas e leite”, resume.

Na pandemia, só conseguiu três parcelas de R$ 600 do auxílio emergencial. Ela até tentou abrir um CNPJ para formalizar sua empresa de festas e doces, mas esbarrou na burocracia. A situação financeira dos vizinhos também é um problema, pois quem pede o serviço costuma pedir fiado. “Estão todos na mesma situação financeira. Fica muito difícil."

Como Juliana, as periferias de São Paulo concentram milhares de pessoas que atuavam como ambulantes nos carnavais. Informais, a maioria usava a festa para conseguir dinheiro extra para o sustento da família, possibilidade que não existe neste ano.

Selfie de mulher loira maquiada usando cílios postiços cor de rosa e blusa vermelha em uma praça
Na zona sul de SP, Daniele lamenta cancelamento do Carnaval que servia para complementar a renda - Arquivo pessoal

Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, no ano passado foram 12 mil pessoas credenciadas oficialmente para vender cervejas, águas e refrigerantes para os cerca de 15 milhões de foliões. Em 2019, foram 10 mil. No levantamento, não foram contabilizados os comerciantes não autorizados.

O Carnaval de 2021 foi cancelado para evitar aglomerações e a propagação do vírus. O governo do estado anunciou no final de janeiro a suspensão do ponto facultativo que seria na próxima terça-feira (16), medida seguida pela Prefeitura de São Paulo.

O cancelamento já era esperado, mas afetou um mercado que atraia também trabalhadores de cidades vizinhas na região metropolitana, como a diarista Fabia Barbosa, 42, moradora do bairro Recanto Feliz, em Francisco Morato. Nos últimos anos, ela saía da cidade e vinha para a capital, onde vendia produtos no centro paulistano.

Ela usou os valores que conseguiu nos carnavais para pagamento das contas atrasadas. Chegou a tirar cerca de R$ 3.000 na última vez.

Neste ano, ainda não sabe como vai fazer para conseguir dinheiro. “Minha renda está muito difícil, pois os serviços são mais difíceis de achar. O Carnaval sempre me ajudou no começo do ano”, afirma.

Para tentar driblar essa fase, apostou na venda de lanches para ter uma renda mínima. Fabia diz que onde mora outras pessoas serão prejudicadas. “Na periferia estamos sem assistência. São só os esquecidos aqui. O dinheiro está pouco pra sobreviver.”

No Jardim São Carlos, distrito de Pedreira, na zona sul da capital, Daniele Vieira de Almeida, 39, está desempregada. Mãe de três filhos, há cinco anos vendia mercadorias como cerveja e água, no Carnaval de rua da capital. Segundo ela, as perspectivas dos próximos meses também não são boas. “Este ano está sendo muito difícil sem a renda do Carnaval. Vai fazer muita falta."

Hoje, ela está empenhada na venda de bolas e brinquedos em praças da cidade. “A desigualdade social está explícita. Está muito difícil tirar o dinheiro para as coisas básicas”.

O trabalho nos blocos é pesado e causa cansaço físico por causa do peso das bebidas, conta Priscilla de Souza Santos, 40, que atua nas ruas da capital há três anos. Apesar disso, diz que a esperança de lucro compensava esse peso. Mas é preciso de estratégia.

“Tem que saber escolher um bloco bom, saber onde se posicionar para melhor vender e se proteger de arrastões."

Moradora da Vila Carmosina, em Itaquera, na zona leste, em setembro passado ela teve que lidar com o fechamento da lanchonete delivery que tinha.

Com um filho de 9 anos, um comércio fechado e sem o auxílio emergencial, Priscilla diz temer os próximos meses. “Tenho uma renda de um apartamento alugado e recebi o auxílio, mas estou à procura de emprego.”

De acordo com a economista Regiane Vieira Wochler, 43, nas famílias das periferias, o cenário é incerto e carregado de desesperança, o que se agrava com a perda de renda em períodos como o Carnaval.

Ela cita a ausência de políticas de transferência de renda, o aumento significativo de preços de alimentos, os números de contaminação e mortes por Covid-19 ainda altos e a pouca organização do setor público para promover a vacinação em massa.

“Para essas pessoas, que já sofreram ao longo dos últimos meses com a pandemia, a impossibilidade de retomar as atividades na festa veio como um balde de água fria e desesperança”, observa a especialista.

“O Carnaval tem histórico de gerar renda direta e indiretamente para milhares de famílias periféricas, que usam essa renda sazonal para reforçar o orçamento ou ainda realizar pequenos projetos.”

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