Pelo segundo ano, pandemia obriga Marcha para Jesus a virar carreata

Maior evento evangélico do país sairá com carros em junho e quer caminhada em novembro

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Rio de Janeiro

A empresária Glória Reis, 49, nunca achou que diria isso, "mas que saudade de calo no pé". A ex-católica se converteu evangélica em 2010, após ser demitida e abandonada pelo marido, tudo na mesma semana. Na seguinte, fraturou o pé "escorregando nas lágrimas", dramatiza —foi saindo do banho.

Desde então, não perdeu uma Marcha para Jesus, trajeto de quase quatro quilômetros em São Paulo que lhe rendia bolhas na sola do pé e paz no coração, diz. Pelo segundo ano consecutivo, contudo, Glória não gastará o tênis para louvar a Deus. "Não vou sair do carro, né?"

Como em 2020, o maior evento evangélico da América Latina virará uma procissão de carros, a Carreata da Solidariedade. Devido à pandemia da Covid-19, ficou inviável aglomerar milhares de pessoas numa caminhada que começava no centro e terminava numa praça da zona norte paulistana.

Carreata da Solidariedade, evento que substituiu a Marcha para Jesus em 2020 e se repetirá neste ano - Pedro Flausino/Divulgação

Os organizadores da marcha ainda têm esperança de realizá-la em novembro, se a crise sanitária arrefecer e a vacinação avançar. Por ora, ficarão com a carreata gospel no próximo dia 12 de junho. O ponto de saída será em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo, vizinha ao parque Ibirapuera.

Via assessoria de imprensa, a Prefeitura de São Paulo diz que ainda não recebeu pedido oficial para o evento. Como o formato foi autorizado no ano passado, a igreja não acredita que terá problemas.

A versão motorizada será mais enxuta. Segundo a igreja idealizadora do evento, a Renascer em Cristo, nenhuma autoridade política será convidada para esta edição.

Em anos passados, sobretudo os eleitorais, a Marcha para Jesus era um pit-stop certo de políticos. A última edição presencial, em 2019, recebeu pela primeira vez um presidente da República. Convidado pelo apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Renascer, Jair Bolsonaro subiu no palco e atribuiu a Deus sua vitória nas urnas: "Foi Ele quem nos deu a Presidência". O público o chamou de mito.

No ano anterior, de pleito presidencial, quem bateu ponto no evento foi o pré-candidato Bolsonaro. Ele desfilou nos bastidores com Magno Malta (PR-ES), senador à época, então cortejado como "vice dos sonhos" pelo amigo —que jurava ter mandado uma "cartinha de amor" para convencê-lo a entrar na chapa. Meio ano depois, Malta acabaria escanteado pelo governo Bolsonaro.

Segundo o bispo Ricardo Lima, responsável pela logística da carreata deste ano, a ideia é fazer um "esquenta" para a marcha propriamente dita, a princípio marcada para 2 de novembro. "Porém só será viável com vacinação em massa, liberação do governo. É um pré-agendamento com todas as ressalvas."

Em 2020, Lima esperava realizar a marcha em seu formato tradicional já no meio deste ano, mas a pandemia não deu trégua. "Nós somos pessoas de fé, cremos sempre que o melhor vai acontecer. Tinha expectativa, como todo brasileiro, de que em junho conseguisse ter alguma coisa diferente. Infelizmente não aconteceu."

No ano passado, formato que será copiado, a edição foi sobre rodas —o bispo calcula ter agregado 10 mil carros, com trios elétricos estacionados em frente ao parque Ibirapuera. Foi de cima de um deles que o apóstolo Estevam orientou a base evangélica: "Todo mundo que está me ouvindo põe a mão pra fora do carro e me dá um tchau". A pregação era transmitida via rádio.

O casal-fundador da Renascer em Cristo, Estevam, 67, e a bispa Sonia Hernandes, 62, já se vacinou, de acordo com Lima. Cerca de 80% da população brasileira, contudo, ainda não recebeu sequer uma dose.

Os dois são aliados de Bolsonaro. Estavam na primeira fila de um evento que reuniu líderes evangélicos no Palácio do Planalto em dezembro, muitos deles sem máscara.

Na ocasião, escutaram Bolsonaro creditar a Deus uma "situação de quase normalidade" à qual o Brasil teria chegado "ainda em 2020". A segunda onda da Covid-19 começava a pegar tração no país, que fecharia aquele ano com 195 mil vítimas do coronavírus. Em 2021, antes de abril acabar já haviam morrido mais pessoas do que em todo o ano anterior —o saldo chegou a 404.287 óbitos no fim do mês, o mais letal da pandemia no país.

A carreata programada para junho terá como ponto de concentração a Assembleia Legislativa de São Paulo, com um drive-thru para arrecadação de alimentos. Lima diz que os fiéis serão orientados a encher o porta-malas com comida para doação.

No ano passado, a carreata desembocou no Pavilhão de Exposições do Anhembi (zona norte), com shows gospel no esquema drive-in. Ainda não está decidido se o modelo se repetirá neste ano.

Glória, a fiel convertida uma década atrás, não se importa com o caminho, "desde que o ponto de chegada seja Deus", diz. "Deus é top."

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