Descrição de chapéu Coronavírus

Múltiplas mortes por Covid-19 arrasam famílias em São Paulo

Estado chegou neste sábado à marca de 100 mil óbitos causados pela doença

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São Paulo

O estado de São Paulo alcançou, neste sábado (7), a triste marca de 100 mil mortos por Covid-19, segundo aponta a plataforma Coronavírus no site da Fundação Seade.

A velocidade da tragédia é maior e muito mais sentida em 2021 em comparação à primeira onda da pandemia. A reportagem ouviu depoimentos de quem perdeu seus entes queridos.

“É muito difícil. Tem hora que choramos muito; em outras, rimos ao lembrarmos de tudo o que vivemos com ela.” As palavras são da coordenadora comercial Eliane Ferreira dos Santos, 48. Ela e os dez irmãos perderam a mãe para a Covid-19. Osmarina Ferreira dos Santos, 78, morreu oito dias depois do aparecimento dos primeiros sintomas.

Familiares relatam que a sensação é de que perderam o rumo e o chão. “Não é uma doença em que a pessoa é internada e dá tempo de nos preparamos para a morte”, conta Santos.

A coordenadora comercial Eliane Ferreira dos Santos, 48, ao lado do jardim que estão construindo em homenagem a mãe Osmarina Ferreira dos Santos, 78, que morreu de Covid-19
A coordenadora comercial Eliane Ferreira dos Santos, 48, ao lado do jardim que estão construindo em homenagem a mãe Osmarina Ferreira dos Santos, 78, que morreu de Covid-19 - Adriano Vizoni - 16.abr.2021/Folhapress

Osmarina era pura alegria. Tudo era motivo de festa. Natal, no Rio Grande do Norte, foi sua última viagem. Permaneceu na cidade entre 31 de dezembro de 2020 e 18 de janeiro deste ano.

O ano de 2021 seria muito importante para ela, pois prestaria mais uma vez a prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Osmarina deu à luz 17 filhos. Após a viuvez, aos 47 anos, resolveu realizar seus sonhos: um deles foi a faculdade de Direito, que terminou aos 70 anos.

No dia 26 de janeiro, oito dias após voltar de viagem, começou a sentir-se mal e a filha a levou a uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

Após estabilização do quadro, retornou para casa. No dia 2 de fevereiro, no oxímetro, viu a saturação cair para 68 e foi levada ao Hospital Geral de São Mateus (zona leste).

“Duas horas depois que o médico nos informou que ela estava bem, ligou para dizer que seria intubada”, conta Santos. Osmarina morreu na madrugada do dia 8 de fevereiro, durante o procedimento de intubação.

Anestesiada foi a palavra mais citada pelas irmãs Michelle e Alessandra Bressiani ao relatarem a perda dos pais para a Covid-19. As duas não têm deia de como darão a partida para seguirem pela nova estrada imposta pela vida.

O último beijo entre Roberto Bressiani, 80, e Gilda Cerpeloni Bressiani, 74, não aconteceu. Nem a comemoração de 53 anos de casados no dia 27 de abril. Em março, em um intervalo de quatro dias, o coronavírus infectou o casal e a filha Michelle Bressiani, 36, que é contadora.

Roberto foi o primeiro a contrair o vírus, provavelmente em uma ida ao dentista, que também pegou a doença. Mediante resultado de teste positivo para Covid-19, foi a um hospital da Prevent Senior e iniciou o tratamento com o kit Covid. Com Gilda e Michelle ocorreu o mesmo.

Roberto foi o primeiro a piorar, com queda na oxigenação e comprometimento do pulmão. Depois, Gilda. Internados, ambos foram para a UTI no mesmo dia e morreram com 14 dias de diferença.

A Michelle, a Covid-19 não trouxe complicações. “Nos meus pais, a doença começou silenciosa, tomou proporção devastadora e terminou em morte. Eu me sinto dentro de um filme de terror, um pesadelo do qual não consigo acordar. Morei a vida inteira com eles. Tenho escritório em casa e tinha toda uma rotina. Eu terei que recomeçar”, diz Michelle.

A filha mais velha, a secretária-executiva Alessandra Bressiani, 49, mora em Florianópolis (SC). Viu os pais pessoalmente pela última vez em outubro passado. Todos os dias falava com os pais pelo celular ou mensagens de vídeo. O contato foi rompido bruscamente quando foram para a UTI.

“Parece que estamos anestesiadas, que a qualquer momento o pesadelo acaba e eles voltam. Foi muito rápido. Não caiu a ficha. Não tivemos aquele tempo de sofrer”, afirma Alessandra.

“O dia em que eles foram para a UTI, na rua Maestro Cardim, na mesma rua da Prevent, estava tendo uma balada. Eu falei a uma amiga que tinha vontade de pegar esse povo e mandar dar uma volta onde meus pais estavam internados”, relata Michelle.

“Agora, é viver um dia de cada vez. Amei, cuidei e aproveitei meus pais. Sempre pensei que não sabia quando seria o último dia das mães e dos pais. Não temos controle da vida. Temos que dar o melhor enquanto as pessoas estão vivas. Aproveitem, vivem, amem, que a gente não sabe quando será o último dia”, completa.

A contadora Michelle Bressani, 36 (junto com a irmã Alexandra, que mora em Florianópolis). Elas perderam os pais por Covid-19 num intervalo de 15 dias
A contadora Michelle Bressani, 36 (junto com a irmã Alexandra, que mora em Florianópolis). Elas perderam os pais por Covid-19 num intervalo de 15 dias - Adriano Vizoni - 14.abr.2021/Folhapress

A Covid-19 traz um complicador ao processo de luto, segundo a psicóloga especializada em luto Ana Lúcia Naletto.

“É uma morte sem a possibilidade da pessoa prestar os últimos cuidados, no caso da internação, por exemplo, e sem poder depois fazer uma despedida adequada ou ver o corpo. Este fator complica o que a pessoa viverá depois, porque houve etapas anteriores que não puderam ser cumpridas, como a despedida adequada ou o apoio da família”, explica Naletto.

“Essa pandemia em si impacta muitos pontos do processo de luto, desde a questão das redes de apoio, das mortes múltiplas e o impedimento de cuidar das pessoas”, afirma a especialista.

No final de março de 2020, a Covid-19 chegou à família do jornalista, dramaturgo e roteirista da TV Globo Mário Viana, 60. Primeiro, morreram três primos, em três dias seguidos. Eles eram irmãos e tinham na faixa de 60 anos.

“Meus primos de Itapecerica da Serra —sete irmãos —eram muito unidos e fizeram a festa de aniversário da mulher de um deles. Foram só a família e alguns amigos. Dias depois, começaram a ficar doentes e apresentar sintomas parecidos. Todo mundo dizia que parecia essa doença nova, a doença do corona, mas não havia nada que os ligasse à transmissão da doença. Não viajaram ao exterior e nem tiveram amigos que viajaram. Era um negócio muito novo e os médicos não sabiam tratar, tanto que ficaram vários dias até serem hospitalizados. Eu não lembro a ordem, mas morreu um na quarta, outro na quinta e outro na sexta. Foi um choque. Era uma galera muito alto astral”, conta Viana.

Tempos depois, quando a Covid-19 já havia se estabelecido no país, Mário Viana perdeu o irmão, aos 54 anos, que era diabético. A doença ainda levou uma tia que morava na Bahia e o cantor Genival Lacerda, este em janeiro de 2021, aos 89 anos, no Recife.

“Foi uma rasteira. Tem horas que você acha que não passou por isso. Não ter vivido o luto, não ter ido ao enterro, não ter levado o caixão do meu irmão, não ter sofrido esse processo te afasta da dor. A ficha demora demais a cair. É como se tivesse vendo um filme, como 'Contágio', e as pessoas morrendo; só que essas pessoas eram meus parentes”, afirma Viana.

“Estou meio passado. De vez em quando bate uma onda e eu penso que não vou ligar mais para eles. Sem falar nos amigos. Já perdi as contas de quantos amigos morreram. Com esse monte de perdas eu estou como a música do Arnaldo Antunes, 'envelhecendo e aprendendo a esquecer'."

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