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Hábitos e Consumo no Segundo Ano da Pandemia

André Barcinski: 'Setor musical cresce na pandemia, mas renda dos artistas cai'

Enquanto cantores famosos faturam alto com lives patrocinadas, pequenos ainda sofrem sem poder fazer shows

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Se alguém ainda tinha dúvida sobre o poder terapêutico da música, basta conferir a nova pesquisa Datafolha para observar como nossas canções prediletas nos ajudam a enfrentar situações difíceis.

Em meio à tristeza e à solidão da quarentena, 91% dos entrevistados ouviram música. Na pesquisa, a música foi uma companheira mais lembrada que orações, pets, livros, e até, pasmem, a TV.


Na pandemia, o mercado fonográfico mundial cresceu pouco mais de 7%, mas os números no Brasil foram muito mais altos. Segundo dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), nosso mercado de música cresceu 24,5%, puxado pelo aumento do consumo de streaming.

Uma pesquisa interna da plataforma Spotify, revelada pelo portal Terra, mostrou que o streaming de música no Brasil cresceu 31% no primeiro trimestre de 2020, comparado ao mesmo período do ano anterior. E, se antes da pandemia os picos de tráfego nesses serviços ocorriam de manhã, quando os brasileiros se dirigiam ao trabalho ou à escola, agora o consumo está espalhado ao longo do dia, usado como trilha sonora em casa.

Não resta dúvida de que o brasileiro está consumindo mais música. Infelizmente, isso não parece representar um aumento na renda de músicos e compositores brasileiros, por uma razão simples: o setor que cresceu foi o streaming, que paga valores ridículos aos artistas. O mercado de shows, que sustenta boa parte dos artistas brasileiros, está numa crise sem precedentes.

Para se ter uma ideia da miséria paga pelos serviços de streaming, um artista brasileiro precisa ter uma música tocada cerca de 800 mil vezes no Spotify ou 5 milhões de vezes no YouTube para conseguir receber um salário mínimo.


Esse problema não acontece só no Brasil. Pesquisa feita em 2020 pelo sindicato dos músicos na Inglaterra mostrou que 82% de seus membros ganharam menos de £ 200 (cerca de R$ 1.400) em um ano inteiro. E outro dado mostra o grau de disparidade de receita entre o topo da pirâmide dos artistas mais populares e a imensa massa de compositores: em 2020, dos 1,6 milhão de artistas que colocaram suas músicas em serviços de streaming, cerca de 16 mil artistas, ou 1%, foram responsáveis por 90% do faturamento total.

No Brasil, a situação é parecida. Se artistas como Marilia Mendonça, Luan Santana, Jorge e Mateus e Gusttavo Lima foram capazes de vender patrocínios de lives para grandes empresas e continuar faturando alto, a imensa massa de artistas “médios” e “pequenos” —e não estamos falando de talento, mas de apelo comercial— sofreu muito.

Sem poder fazer shows, nomes fundamentais da música pediram ajuda aos fãs para pagar contas: o ex-Mutante Arnaldo Baptista, 73, fez uma rifa de objetos pessoais, incluindo o famoso casaco vermelho que vestiu na capa do LP “Singin’ Alone” (1982), enquanto a cantora Angela Ro Ro, 71, fez um apelo nas redes sociais: “Estou passando dificuldade financeira. Quem puder depositar R$ 10, agradeço. Já tentei vender barato uma live, mas ninguém se interessa”. Em 14 de abril de 2020, o compositor Aldir Blanc foi internado no Rio, e uma de suas filhas, Isabel, pediu doações para custear o tratamento. Infelizmente, Aldir morreu 20 dias depois, de Covid-19, aos 73 anos.


A crise no mercado de shows no Brasil não poupou nem os grandes palcos: se pequenos locais como a Casa do Mancha, importante na cena musical alternativa de São Paulo, fechou as portas depois de 14 anos, o mesmo ocorreu com o imponente Unimed Hall (ex-Credicard Hall), casa de espetáculos do grupo T4F (Time for Fun).

A situação está ruim para artistas de todos os tamanhos, mas especialmente crítica para os músicos menos conhecidos. Uma recente pesquisa da União Brasileira dos Compositores, feita em parceira com a ESPM, mostra que 86% dos compositores entrevistados tiveram perdas financeiras na pandemia. Desses, 44% afirmaram que vivem com menos de R$ 3.000 por mês.

Dois dados mostram o tsunami que se abateu sobre o mercado musical brasileiro: 30% dos trabalhadores do setor perderam toda a sua renda na pandemia, e 56% não arrecadaram nada com apresentações ao vivo, incluindo lives.

Ninguém sabe quando os shows voltarão e como voltarão. Mas uma coisa é certa: se os brasileiros não apoiarem as pequenas casas de shows e os artistas de menor expressão comercial, corremos o risco de ver nossa cena musical formada apenas pelos artistas mais famosos, enquanto uma imensa massa de cantores e compositores vai simplesmente desistir da música.

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