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Ribeirão Preto

23/11/2013 - 12h19

Sou centralizador, mesmo. Aqui tem um maestro só, diz Paulo Altomani

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JOÃO ALBERTO PEDRINI
ENVIADO ESPECIAL A SÃO CARLOS

Se depender da postura do prefeito, Paulo Altomani (PSDB), a cidade de São Carlos (232 km de São Paulo) pode continuar assistindo a várias mudanças no comando de secretarias e importantes órgãos da administração nos próximos anos.

Classificado como linha dura por pessoas mais próximas, o tucano não nega o papel de centralizador e faz questão de que todas as decisões do secretariado sejam submetidas ao seu crivo.

"Sou, mesmo [centralizador]. Aqui tem um maestro só. E todos têm de falar a mesma língua. Existe democracia? Existe, mas tem um comando único. Aqui quem comanda é o prefeito", afirmou Paulo Altomani.

São Carlos foi a cidade --das principais da região de Ribeirão Preto-- que mais registrou mudanças em cargos do primeiro escalão neste ano. Foram nove trocas de comando desde janeiro.

Ele também falou sobre as polêmicas envolvendo a gestão anterior de Oswaldo Barba (PT), já que diversas obras e eventos tiveram mudanças de rumo após o início da atual administração.

Confira a entrevista, na íntegra:

*

Folha de S.Paulo - Das principais cidades da região, em nenhuma houve tantas mudanças no primeiro escalão como em São Carlos. Foram nove desde o início da gestão...
Paulo Altomani - Atitude do prefeito.

Por que tantas mudanças?
Algumas pessoas vieram da iniciativa privada e não se adaptaram ao serviço público. E o serviço público não paga tão bem quanto a iniciativa privada.

Quanto ganha um secretário?
Em torno de R$ 7 mil. Com os secretários do nível que temos aqui, o mercado paga pelo menos o dobro ou até três vezes mais. Então, alguns secretários voltaram para a iniciativa privada.

E os outros?
Um ou outro não se adaptou às regras do sistema público. Porque aqui nós só podemos fazer o que a lei permite. Se você não se adapta, estará trabalhando fora das regras do jogo. Eu dei um tempo para o pessoal se preparar. Seis meses. Aqueles que se prepararam, ficaram. Quem não se preparou, nós estamos substituindo.

O senhor veio da iniciativa privada.
Sim. Sou um industrial, diretor-superintendente da Engemasa [indústria de São Carlos]. Trabalho lá no período da manhã, depois venho para a prefeitura e fico até 21h, 22h.

Qual a diferença entre a administração pública e a privada?
No particular eu faço o que quero. No serviço público só faço o que a lei permite. Aqui sou fiscalizado pelos vereadores, Tribunal de Contas, Ministério Público. A sua liberdade de ação no público é bem reduzida. Enquanto na minha empresa eu produzo cem, na administração pública eu produzo 20.

Há um engessamento?
Sim, porque tem os controles, que são necessários, e temos que respeitar.

Alguns secretários que saíram disseram que o senhor é muito centralizador.
Sou mesmo. Aqui tem um maestro só. E todos têm de falar a mesma linguagem. Existe democracia? Existe, mas tem um comando único. Não tem um partido que comanda. Aqui quem comanda é o prefeito. O prefeito e o vice-prefeito.

O senhor quer saber tudo o que os secretários fazem?
Tudo. Tudo passa pela minha mão. Todos os empenhos, todos os cheques passam pela minha assinatura. Eu chamei toda a ordenação de despesa para o gabinete. Sou responsável por tudo que acontece aqui. Fiscalizo tudo. O valor do dinheiro tem de ser o mesmo no seu comércio e na prefeitura. Entendeu? Se você deixa a coisa solta, cada um age de uma maneira. Cada um tem de trabalhar aqui com o cinto apertado. O meu símbolo está lá [aponta para um machado pendurado na parede do gabinete], para cortar a despesa supérflua. Temos de investir no essencial. Tudo isso para proporcionar melhorias. Por exemplo, pegamos R$ 9 milhões e fizemos 2.000 cirurgias eletivas. Estamos trabalhando também para resolver mais de 600 vazamentos de água. Para consertar buracos montamos quatro equipes. Estamos agindo em mutirões. E é assim que estamos atuando, para responder na velocidade que a sociedade precisa. E não na morosidade que, às vezes, o serviço público impõe. Se precisar, ligo para o secretário às 23h30.

Alguns secretários não acompanharam o seu ritmo?
Não aguenta. O cara não aguenta, entendeu? E muita gente não está acostumada a esse ritmo de trabalho. Porque eu cobro e vou ver se o cara resolveu o problema. Vou em cima. E aqui, "pô!", uma vez o secretário começou a embaçar e falei: "Meu filho, a porta da rua é a serventia da casa".

O senhor acha que em algum momento faltou jogo de cintura?
É evidente que a gente pode melhorar, mas eu tenho um jeito... fico vermelho dois minutos, mas não fico amarelo dois anos. Então, se eu tiver de falar alguma coisa eu falo para você olhando no seu olho. Chamei um camarada aqui, que fez o melhor preço para licitação de tapa-buracos, e disse: "Você vai limpar a cratera como um dentista limpa um dente. Você vai até o fim. E depois, você vai fazer toda a cobertura, com a qualidade que tem de ser feita, porque eu vou acompanhar. Vou pegar dez ou 20 locais e vou checar in loco o serviço. Se não fizer, vai ser cortado. Estou avisando". O cara entendeu o recado. Aqui não tem propina, não tem gorjeta, pagamos em dia. O dinheiro público é bem respeitado.

Edson Silva/Folhapress
O prefeito de São Carlos, Paulo Altomani (PSDB), durante entrevista em seu gabinete
O prefeito de São Carlos, Paulo Altomani (PSDB), durante entrevista em seu gabinete

Por que São Carlos não vai mais receber o Campeonato Mundial de Balonismo, que estava previsto para ser realizado no próximo ano? O que houve?
Estava tudo acertado e comigo não tem duas conversas. Nós combinamos com o pessoal do balonismo [os organizadores] que investiríamos R$ 200 mil neste ano e R$ 300 mil ano que vem. O restante do custo eles conseguiriam por meio de patrocínios. Para 2014 chegou uma minuta de contrato imputando a prefeitura a assumir um compromisso de bancar R$ 1,9 milhão com o evento. Eu disse: "Isso eu não combinei". Então, não assinei. Procuraram outra cidade e acertaram com Rio Claro. Por isso não teremos mais o campeonato aqui, pois não houve entendimento. Vou investir o dinheiro na saúde. Aplicar na realização de cirurgias eletivas [não urgentes].

Por que a prefeitura ignorou o relatório elaborado pelo IAU-USP (Instituto de Arquitetura e Urbanismo), que serviria como diretriz para a revisão do Plano Diretor?
Não foi ignorado, mas nós vamos acatar uma parte. Esse relatório tem muita teoria e pouca prática. O Plano Diretor consubstancia uma série de ações sociais que a cidade deve implementar em benefício da população. E esse relatório não mostra onde está o vetor econômico [para realizar essas ações], para que possamos aumentar a arrecadação e cumprir esses vetores sociais.

Não prevê esse aspecto econômico?
Não. Precisamos prever muitas coisas. Onde é que vai ser o próximo distrito industrial? Onde vamos construir os galpões de logística? Quais as políticas que nós vamos ter para atrair novas empresas? Qual a estratégia de marketing para deixar nossa cidade mais competitiva? Então, o pessoal vê a coisa do ponto de vista teórico e não do ponto de vista prático.

O plano só contemplou um aspecto: o social?
Só viu um lado. Da mobilidade, expansão ordenada, meio ambiente. É claro que tudo isso é fundamental, mas é preciso analisar o vetor econômico da cidade, o resto é consequência. Você tem de definir as áreas de expansão industrial, expansão urbana.

O estudo é incompleto?
É um estudo teórico, feito pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo, e temos muito respeito. Mas nós estamos fazendo um benchmarking [processo de comparação entre gestões e ações de outros municípios]. O que São José dos Campos fez? O que Curitiba fez? Vamos tentar enxertar aqui ideias captadas nessas cidades.

Como ações de mobilidade, por exemplo, já que o trânsito é um dos principais problemas das grandes cidades hoje em dia?
Sim. O Jaime Lerner [arquiteto, ex-prefeito de Curitiba, ex-governador do Paraná e um dos urbanistas responsáveis pela idealização de projetos para a capital] falou que o carro é o cigarro do futuro. O que isso significa? Que nós vamos ter uma poluição cada vez mais intensa. Aí, precisamos ter uma solução de mobilidade. Estou vendo em outras cidades como funciona o VLT [veículo leve sobre trilhos], o VLP [veículo leve sobre pneus], o "ligeirinho" [ônibus que faz poucas paradas e percorre longas distâncias], para que possamos melhorar o transporte de massa aqui. Por que? Nós temos hoje 140 mil carros. Há cinco anos tínhamos 80 mil. Daqui a pouco ninguém anda mais na cidade das 11h ao meio-dia e das 17h às 19h. Então, você tem de ter um projeto de transporte de massa de qualidade, para fazer com que o motorista deixe o carro em casa e use o transporte coletivo.

O senhor usa o transporte coletivo?
Não. Não faço essa demagogia. Mas já andei, já conheço, para saber como é. Tenho informações. E estou cobrando melhorias da empresa [que detém a concessão].

Quando vence a concessão?
Em março de 2014.

Haverá renovação ou licitação?
Provavelmente haverá uma nova licitação, mas estamos discutindo a renovação até que o edital seja publicado.

O edital está sendo elaborado?
Está em estudos.

Por que a prefeitura interditou o prédio do NAI (Núcleo de Atendimento Integrado)? (Em julho, o município anunciou que constatou diversas irregularidades na edificação, na Vila Marina. De acordo com a prefeitura, foram encontrados vários problemas no acabamento)
O prédio do NAI foi entregue inacabado, com pintura mal feita, com portas usadas. Fui lá in loco. O local vai abrigar alguns menores infratores por um tempo. A grade que puseram lá, por exemplo, você arranca com a mão. O menor pode escapar, o local é totalmente vulnerável, sem nenhum tipo de cerca, sem nada. Então, resolvemos não abrir. Estamos reformando e adequando ao nível de periculosidade dos jovens que vamos receber lá.

Existe alguma apuração para saber o que aconteceu?
Eu peguei a prefeitura com 42 obras paralisadas. Ou porque a empresa não recebeu ou porque foram contratadas empresas que não tinham capacidade para fazer a obra. Dessas 42, retomamos 24. Paguei o que estava atrasado, renegociei o término de outras e já estamos tocando 24 obras [das 42 que estavam paradas, segundo o prefeito].

E a questão do Hospital-Escola? A UFSCar defende que a administração seja toda federal. Já a prefeitura pensa de forma diferente. Por que?
Eu defendo uma cogestão. O pessoal que está lá em Brasília não tem a mesma facilidade de administrar que nós temos. Estamos mais próximos da população. Sentimos o pulsar das ruas e as necessidades do povo. Quem mora [citou o endereço residencial] é o prefeito. Às 7h tem gente batendo na porta da minha casa, pedindo uma solução para algum problema. Então, no Hospital-Escola eu defendo uma gestão compartilhada entre o departamento de medicina [da UFSCar] e o secretário da Saúde, com recursos do governo federal e do Estado.

Os gestores do Hospital-Escola dizem que a federalização é mais interessante.
Nós precisamos equilibrar as coisas. Deve haver um protocolo de intenções. Eu não posso "jogar" os acidentes graves, de moto, para a Santa Casa e deixar o filé mignon para o Hospital-Escola, uma cirurgia de hérnia, vesícula. Então, nós temos de equilibrar as coisas, porque senão a Santa Casa continua quebrada e o Hospital-Escola vai receber mais recursos. Vamos reunir todos os interessados e chegar a um denominador comum.

E quando começam as obras na praça Itália [Em março, a prefeitura suspendeu os serviços porque entendeu que o método construtivo estava equivocado]?
O método construtivo proposto é inexequível. Coloca em risco o trem [a obra, de mobilidade urbana prevê alargamento de uma via sob um viaduto onde passa linha férrea], o trabalhador da obra e a população.

Um novo projeto não chegou a ser discutido?
Sentou todo mundo aqui. Representantes do Dnit [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes], ALL [América Latina Logística], da empresa que venceu a licitação. Um não concorda com uma coisa, outro não concorda com outra. Como essa indefinição persistiu, decidimos não realizar a obra. Estamos propondo um outro método construtivo com materiais pré-fabricados. Primeiro será feita uma metade, depois a outra, sem interromper o fluxo de trens. É um novo projeto.

O projeto da Cidade da Energia [complexo que reuniria espaço para grandes eventos voltados ao setor bionergético e para pesquisas de desenvolvimento tecnológico na área de bioenergia] foi definitivamente sepultado?
Logo após assumir a prefeitura, recebemos [no dia 15 de janeiro] uma carta da Abimaq [Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos] desistindo do projeto. Fui conversar com o presidente da entidade [Luiz Aubert Neto] e ele disse que a intenção era desistir do projeto no final do ano passado, mas como era ano de eleição deixaram para comunicar este ano. Um outro problema era que a Embrapa havia comunicado que o terreno onde o projeto estava programado para ser implementado, e que seria doado ao município por comodato, estava sendo retomado pelo governo.

Após isso, o projeto [bandeira da administração anterior, petista] foi deixado de lado?
Não, retomamos e está em pé. A Embrapa já se manifestou verbalmente, por meio de seu presidente, que a área pode ser novamente cedida ao município. A Abimaq também manifestou interesse em retomar o projeto. Então, criamos uma equipe com representantes da sociedade e pesquisadores para tocar o projeto.

 

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