Descrição de chapéu Enem

Com medo do horário de verão, estudantes chegam até 3 horas antes para o Enem

Estudantes fazem provas de linguagens, ciências humanas e redação neste domingo

Guilherme Botacini Carolina Moraes Carolina Linhares Anna Satie
Campinas , São Paulo e Belo Horizonte

O horário de verão começou a valer neste domingo (4), mesmo dia da primeira etapa do Enem, exame que 5,5 milhões de pessoas farão para concorrer a uma vaga em universidades de todo o país. Na dúvida com o relógio, os estudantes resolveram se adiantar e chegaram aos locais de prova com até três horas de antecedência.

Neste domingo, os candidatos farão provas de linguagens, ciências humanas e redação. O exame dura 5h30. No próximo domingo (11), as provas serão de química, física e biologia.

O tema da redação foi "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet"

​Álex Cardoso, 17, chegou às 10h aos portões da Uninove na Barra Funda, na capital paulista. Segundo ele, que faz o exame pela primeira vez, "não queria virar meme". O horário de verão também o preocupava: só foi dormir depois de conferir se seu relógio havia se atualizado. 

​Gabriella Lima Silva, de 19 anos, também ficou apreensiva com a mudança de horário —ela verificou em três sites diferentes se o relógio do celular estava correto e chegou meia hora antes da abertura dos portões. É a terceira vez que a estudante tenta uma vaga em medicina pelo concurso. 

Bruna Maciel Melo chegou à Uninove ao coro dos que vieram assistir os atrasados. "Atrasou vai virar meme", cantavam. Essa foi  uma preocupação da estudante, que mora em Taipas e saiu com 1h40 de antecedência de casa. "O caminho foi tranquilo. Espero que a prova também seja", conta.

Beatriz Albuquerque, 16, e Matheus Henoch, 17, chegaram à Unip Vergueiro, em São Paulo, às 11h, duas horas antes do fechamento dos portões. “Bate um medo porque todo mundo fala que é difícil”, diz Beatriz. A dupla de amigos estudou mais para a redação, etapa que consideram a mais desafiadora do Enem. “Aposto em três temas: fake news, preconceito linguístico e pedofilia”, afirma Matheus.

Em Belo Horizonte, Gabriela Lara, 17, chegou às 11h30 na PUC também "para não virar meme". Ela e as colegas do terceiro ano do lnstituto Coração de Jesus resolveram se prevenir e chegar cedo. "O tema da redação pode ser preconceito linguístico, pedofilia na internet e fake news", diz Julia Vitória, 17, que quer ser veterinária. Sofia Belezia, 19, completa o trio. Quer veterinária como a colega e trouxe chiclete pra se manter atenta e acordada.

Por volta de 12h45, os estudantes já buscavam entrar em suas salas de prova. Boa parte nem trouxe celular. Os que trouxeram precisavam colocar o aparelho desligado em um saco plástico próprio e lacrá-lo, deixando-o abaixo da cadeira.

Entre os mineiros, boa parte dos alunos aposta em fake news como tema de redação. Para Fernando Saldanha, 19, esse é um tema quente. "Se for abordado, acho que será no passado, ou seja, os boatos antigamente, no século 19 ou 20, por exemplo."

Em Campinas, 24 mil estudantes prestam a primeira etapa do Enem, segundo o Inep. Os primeiros candidatos chegaram cedo à Faculdade Anhanguera do bairro Taquaral, um dos locais de prova da cidade. Bruno Junqueira, 21, atento ao horário de verão, adiantou manualmente seu relógio em uma hora. A operadora, no entanto, adiantou, automaticamente, mais uma hora, o que fez Bruno chegar às dez da manhã.

Outros candidatos não tiveram problemas com o horário. Bianca Andreza, 17, acordou mais cedo e foi à igreja antes de chegar às 10h40. Apesar disso, está ansiosa e dormiu pouco de ontem para hoje. "Às vezes, a gente sente que todo estudo parece insuficiente." É sua primeira vez prestando o Enem.

Na capital, Michel Mesquita, 23, adiantou o despertador em uma hora e chegou à Unip Vergueiro, às 10h30. É a segunda que vez que presta a prova para tentar uma vaga em Engenharia Elétrica. Ele gostou da prova dividida em dois domingos, como acontece desde o ano passado.  “Você tem mais tempo pra descansar, não fica tão tenso. O lado ruim é que é difícil controlar a ansiedade nessa semana, mas achei mais positivo.”

Acompanhada da mãe, Luiza Santana, 17, ficou preocupada com o funcionamento do metrô para chegar até a unidade. “Houve queda de energia na região por conta da chuva e do vento e resolvemos vir mais cedo”, conta Tatiana Santana. A estudante, que tenta uma vaga em arquitetura, também aposta no tema de preconceito linguístico e fez cursos específicos para a redação. 

Guilherme Eduardo, 17, tenta uma vaga no curso de História ou Ciências Sociais. Por isso, espera atingir uma pontuação alta hoje, nas questões de linguagens, humanas, e na redação. Sobre o tema da redação, comentou que o Inep deu dicas de possíveis assuntos em postagens na internet. Entre eles, tecnologia e pedofilia.

Fazendo prova em Belo Horizonte, João Paulo, 17, que participa do Enem pela segunda vez diz que preferia o formato anterior, com provas no sábado e domingo do mesmo fim de semana. "De uma semana para outra, só aumenta a tensão", diz. 

Locais de prova têm de abraço voluntário a cerveja para rir de atrasados

O estudante Renan Marques, 19, percorreu 20 km de Diadema (Grande SP) até a Uninove da Barra Funda (zona oeste da capital) só para assistir a quem chega atrasado e perde a chance de fazer a prova. Ele também trouxe um isopor com bebidas alcoólicas. "Vim para dar umas risadas e dar uma cerveja para quem se atrasar. Também não é o fim do mundo", diz.

Julio Cesar Silva, levou até cadeiras de praia para o local. Morador da Penha, chegou às 11h para não perder o "evento". Estudante da Uninove, ele nunca participou do Enem. "A pessoa tem um ano para se preparar. Se chega atrasada, não merece participar da prova", ele ri.

"É a seleção natural do mundo. Se a pessoa não consegue nem chegar a tempo para a prova, ela não vai conseguir nada nessa vida", diz Eduardo Artigas, 28.

Na PUC de Belo Horizonte, apenas uma senhora chegou após o fechamento dos portões. Assediada pela imprensa e por jovens que caçoavam de eventuais atrasados, foi embora dizendo apenas que se confundiu com o horário de verão.

O jornalista e publicitário Ivan de Souza, 34, veio pela primeira vez somente para acompanhar os atrasados. Vestido de capa de chuva amarela e segurando um boneco do Pica-Pau, em referência a um episódio do desenho animado, disse que quis ter a experiência de ver ao vivo.

"Infelizmente não teve muitos atrasados. Ou felizmente, porque o pessoal está aprendendo a respeitar o horário", disse.

Além dele, um grupo de jovens com um canal no Youtube também veio apenas para zoar os atrasados. "Viemos fazer um vídeo, porque esse movimento de zoar os atrasados vem crescendo muito", disse Hiro Miranda, 20.

Portando um relógio gigante, disse que fez Enem há muito tempo e que cursa engenharia civil.

Em Campinas (SP) e na capital, jovens do grupo religioso Aliança Bíblica Universitária, chegaram cedo para oferecer “abraços grátis” aos vestibulandos.

“É um momento em que as pessoas estão precisando de um acolhimento. Nós já passamos por isso e queremos dar o apoio que nós não recebemos”, diz Mariana Camata, 18, aluna do Mackenzie, que foi à Unip da capital para acompanhar a prova.  ​

Thalia Figueiredo, 21, diz que muitos chegam à prova nervosos e gostam de receber orações e palavras de conforto. Além disso, o grupo tem um canal no Youtube em que divulgam informações sobre cursos e a vida universitária. Eles levaram cartazes de incentivo e apoio, com dizeres como "Mantenha a calma", "Vai dar tudo certo, confie" e "Tô preparada para arrasar".

Em Belo Horizonte, membros de um grupo de jovens católicos, Natalia Izis, 21, e Mariane Fernandes, 19, foram até a PUC para distribuir abraços e mensagens de boa prova em papeizinhos vermelhos em formato de coração. "É um momento de aflição, então a presença de Deus acalma", diz Izis com os olhos marejados.

Antes do início da prova, conversaram, rezaram e distribuíram abraços com o objetivo de acalmar os estudantes. "A ideia é interceder pelo sonho deles. Eles chegam nervosos, desmotivados, não acreditam no seu potencial", diz Janaína Mendonça, 25.

A missão chamada "Jesus no Enem" é uma iniciativa da Renovação Carismática Católica. Segundo os voluntários, o abraço faz com que os estudantes se sintam acolhidos. "Um deles disse que a mãe lhe tinha dito que anjos acalmariam seu coração", contou Everton Vieira, 32. 

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