Descrição de chapéu
Jairo Marques

O lugar da criança com deficiência na escola

Mudança imposta por governo Bolsonaro muda caráter inclusivo da educação no Brasil; nem ficção permite mais exclusão nos dias de hoje

São Paulo

Milhares de crianças ao redor do mundo já se encantaram e vibraram com as aventuras de uma menina corajosa e diferentona chamada Moana, protagonista de uma animação de muito sucesso da Disney que versa a respeito da liberdade de ser quem é, do valor das diferenças humanas e da busca por espaços plurais de convivência.

Em suma, o pai da garota fazia das tripas coração para que ela vivesse sempre “em seu lugar”, protegida e amparada por seus iguais, numa ilha —Moto Nui— que enfrentava a plena decadência de seus recursos naturais. Os cocos estavam secos, os peixes não mais apareciam, a sabedoria não evoluía e uma sombra escura ameaçava o continuísmo da existência daquele lugar insular.

Moana, em seu íntimo, tinha consciência de que o mundo era muito maior e com muitas outras oportunidades que não aquelas restritas com que era obrigada a conviver pela tradição tacanha de pensamentos. A menina tinha certeza de que só saberia quem de fato era quando conseguisse ampliar seu campo de visão, suas possibilidades, suas relações.

Neste momento da educação brasileira, estudantes com deficiência do país foram colocados em Moto Nui, foram colocados “em seu lugar”, por obra de uma controversa canetada que reverte toda a construção moderna dos princípios inclusivos mundiais e retoma o superado modelo de apartar as pessoas.

Pesquisadores, médicos, psicólogos, educadores, matemáticos, pais e mães, ao longo de décadas, com demonstrações empíricas e também fartamente comprovadas construíram os princípios da educação inclusiva, em que todos aprendem e ganham, à sua maneira, juntos.

A segregação da sala ou da escola especial, do cantinho dos loucos, é ideia tão vergonhosa e devastadora para um “serumano” que, um dia, a história catalogará esses espaços entre as senzalas, os hospícios e as salas de tortura, todos sob a rubrica dos horrores.

Moana, para ganhar outros mares, abrir horizontes e despertar belezas, precisou de uma pequena embarcação, da ajuda da “alma” da avó e de alguma boa vontade da natureza, uma mãozinha.

Crianças com paralisia cerebral, autismo, síndrome de Down, dificuldades cognitivas diversas e graves ainda hoje, com tanto conhecimento de suas potencialidades de desenvolvimento já explicitadas, ainda são grandes provocadoras de olhares de dó e do pensamento assistencialista de que precisam de “muitos cuidados”, de serem “afastados” da escola comum para serem protegidos comendo o coco seco da ignorância.

Para acessar o direito incontestável à educação, o que o aluno com deficiência precisa é de instrumentos pedagógicos criativos e funcionais —que já existem aos borbotões—, de acolhimento às suas demandas específicas de ser —possível por meio de auxiliares pedagógicos ou até da empatia dos colegas—, precisa ser visto como agente, ativo em suas possibilidades de aprender e de ensinar.

Na viagem em busca do melhor, feita por Moana, um galinho doido —Hei Hei—, que não se sabia ao certo se era cego ou “tchubirube”, a acompanha em toda a aventura e dá a ela muito trabalho, ao mesmo tempo que a diverte e a faz pensar a respeito das diferentes formas de interagir com o mundo.

Não vivemos em um universo de fantasias, mas estamos na Semana da Criança no Brasil, momento de nos indignar a respeito da qualidade ofertada à infância e das condições de vida dos pequenos, quaisquer que sejam. Dar a elas oportunidades para irem além de um esquadrinhado território, ornamentado pelo desconhecimento ou mesmo por um apelativo espírito de “proteção”, é papel de todos nós dessa aldeia.

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