Descrição de chapéu Dias Melhores

Sócios criam produtos editoriais e doam milhões

Roberta Faria e Rodrigo Pipponzi fundaram a Editora Mol, que produz revistas e livros com venda revertida para ONGs

Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

Antes de completar 30 anos, eles já ganharam o primeiro R$ 1 milhão –e doaram cada centavo.

Este é o negócio que a jornalista Roberta Faria, 37, e o administrador de empresas Rodrigo Pipponzi, 38, inventaram há dez anos, quando fundaram a Mol, que eles definem como “a maior editora de impacto social do mundo”.

“A gente faz livros, revistas com conteúdo positivo, que inspire as pessoas, a um preço acessível e com renda sendo revertida para uma organização”, explica Roberta.

As publicações “socioeditoriais” são vendidas em parceria com redes de varejo, com o objetivo de arrecadar microdoações para diversas causas. Ao longo de uma década, os produtos editoriais da Mol renderam mais de R$ 25 milhões em doações para 39 ONGs, entre elas o Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) e o Instituto Ayrton Senna.

“A grande sacada da editora, da Roberta e do Rodrigo, foi o conteúdo transformador da revista, que ajuda a salvar vidas, mas também transforma a vida dos leitores”, diz Tammy Allersdorfer, superintendente do Graacc, sobre a Sorria, o produto mais bem-sucedido da Mol. 

A revista vendida em farmácia já rendeu cerca de R$ 14 milhões para a instituição, referência no tratamento de câncer de crianças e adolescentes. 

Quando se encontraram pela primeira vez, para tomar café numa padaria paulistana, os futuros sócios perceberam logo que, apesar das histórias de vida bem diferentes, tinham o mesmo propósito.

“O valor que pautou a criação da Mol é fazer diferença com o que a gente faz”, diz a jornalista. Logo após se formar, Roberta foi selecionada para o concorrido programa de treinamento de uma das principais editoras do país, a Abril, onde depois foi contratada.

“Nunca colocamos o financeiro na frente do propósito. Nascemos assim”, afirma Rodrigo, formado em administração de empresas pela FGV. “Queríamos entender como nosso trabalho, nossa competência e até nossos privilégios podiam ser transformados em algo a ser devolvido à sociedade.”

MÃE ADOLESCENTE

Roberta cresceu em Rio do Sul, no interior de Santa Catarina, para onde a família se mudou após um episódio traumático de violência no Rio de Janeiro.  

É filha de uma dona de salão de beleza e do único médico infectologista do SUS em uma região de 32 municípios e 1 milhão de habitantes. “Tínhamos uma Brasília dos Flintstones, com o chão furado de ferrugem, e nossa casa era de madeira, com buracos entre as tábuas e gambás correndo pelo forro do telhado.”

Começou a trabalhar aos 13 anos e engravidou aos 17, no mesmo ano em que passou no vestibular para o curso de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.

A filha Gabriela, hoje com 18 anos, nasceu quando Roberta estava no segundo semestre. Precisou equilibrar a faculdade em período semi-integral com estágios e bicos para sustentar a nova família. “As aulas começavam antes de o berçário abrir, e poucos professores eram solidários.” 

Alguns chegavam a tirar pontos da aluna que se atrasava na primeira aula, em razão de a abertura da creche coincidir com o horário da faculdade. “Fui mãe muito cedo, não tinha possibilidade de dar certo.”  

A experiência virou editorial numa edição da revista Sorria sobre como superar contratempos.

Aos 75 anos e ainda trabalhando, Roberto Faria conta que coleciona as revistas editadas pela filha.

“Aprendi com meu pai, e acho que passei para ela, que o mais importante não é ficar rico, mas fazer algo de que se goste.”

Roberta manteve os valores familiares em mente, mesmo diante de dificuldades. “Ele sempre disse que a gente não podia cobrar por conhecimento que recebeu de graça em escolas e universidades públicas e que o objetivo do trabalho não é enriquecer, mas contribuir para a sociedade.”

Da mãe, aprendeu a ser empreendedora. “Roberta decidiu que seu trabalho deve ajudar os outros, e não se desvia dessa linha”, diz Loiva Faria, 60. Ela contava com a ajuda da filha no salão de beleza, em Rio do Sul, desde a recepção ao caixa ou onde mais fosse preciso.

Roberta fez curso técnico de maquiagem, que, além de lhe permitir se maquiar com o carro em movimento sem borrar uma linha, garantiu uma renda extra durante os tempos da faculdade.

EXEMPLO EM CASA

Rodrigo também desenvolveu o espírito empreendedor em casa. “Sempre tive o varejo correndo na minha veia, apesar de não me interessar em trabalhar no negócio da família [a rede Droga Raia]”, diz.

Ao deixar a faculdade, também não cogitou trabalhar em banco ou consultoria como a maioria dos colegas.  

É filho de um empresário de sucesso, que transformou a empresa farmacêutica familiar numa das maiores redes de varejo do país, a Droga Raia, hoje associada à Drogasil, com mais de 1.700 lojas.

“Meu pai é a figura mais importante quando penso no meu desenvolvimento profissional. Ele nunca trabalhou para enriquecer, acumular patrimônio. Sempre acreditou no trabalho como ferramenta de transformação social e em dar oportunidade para pessoas”, afirma. “Trabalho para ganhar muito mais do que dinheiro.”

Para o pai,  Antonio Carlos Pipponzi, 66, o filho e a sócia se complementam à frente de um negócio de impacto social: “Ele tem uma veia empreendedora muito sólida, e ela é uma jornalista extraordinária”. A mãe de Rodrigo, Isaura, 62, também elogia a sintonia da dupla e a capacidade de fazer uma ação social que vai além da caridade e que se sustenta como um negócio.

O fato de Rodrigo ser um dos herdeiros da rede Droga Raia ajudou no início da empreitada, quando era preciso provar que o modelo de venda no varejo, e não em banca de revistas, era viável.  

“É verdade que isso ajudou muito nesse processo, mas a Raia foi se profissionalizando, fundos entraram, houve a abertura de capital na Bolsa, e tivemos que nos provar –e nos provamos todos os dias– dignos dessa parceria, independentemente do Rodrigo”, diz Roberta.

Os sócios da Mol podem celebrar um balanço para lá de positivo como empreendedores sociais que fazem bastante dinheiro ao longo da última década. “Para cada R$ 1 que lucramos, R$ 5 foram doados”, explica Rodrigo.

“Nunca nos pautamos pelo lucro, que também nunca deixou de ser relevante. Não somos uma ONG, mas um negócio social sustentável, lucrativo e generoso”, completa Roberta.

A dupla sonha em chegar a R$ 100 milhões líquidos doados. “Não é utopia”, diz ele, ao ver que já percorreu um quarto do caminho na última década.  

“Nosso papel é mostrar como esse modelo pode ser multiplicado e servir para qualquer instituição no Brasil e no mundo. Estamos aqui para fomentar a cultura de doação.”

A partir de uma causa maior, os sócios da Mol esperam abraçar muitas outras, mesmo não sendo uma ONG nem trabalhando diretamente com os beneficiários finais das microdoações.

“Queremos ajudar a combater o câncer infantil, empoderar mulheres, melhorar educação pública e a mobilidade urbana, que os rios sejam limpos. Enfim, a lista é infinita”, conclui Roberta. “Quando o nosso negócio cresce, as causas crescem junto.”

 

Editora Mol

Fundação
2007

Área de atuação 
Cultura de doação

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.