Descrição de chapéu Coronavírus

Ao alcançar os R$ 6 bilhões, doações desaceleram em meio a novas emergências

Após recorde de R$ 5,5 bilhões em dois meses, contribuições em junho caíram para R$ 270 milhões; ONGs sofrem com a falta de recursos

São Paulo

O enfrentamento à Covid-19 ultrapassou nesta segunda-feira (20) o marco de R$ 6 bilhões em doações, segundo o Monitor das Doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR).

A média mensal de contribuições, porém, teve queda no último mês de junho --período com maior número de casos e maior demanda de auxílio às populações vulneráveis.

Entre o final de março, quando teve início o isolamento social, e o final de maio, foram doados R$ 5,5 bilhões​, uma média de mais de R$ 2,2 bilhões contribuídos ao mês. ​

Em junho, no entanto, a arrecadação somou pouco mais de R$ 270 milhões, 88% a menos que a média anterior. Já nas duas primeiras semanas de julho, o ritmo antes estável das doações voltou a subir, com R$ 230 milhões em 15 dias.

São consideradas pelo Monitor, atualizado diariamente, todas as contribuições anunciadas publicamente por empresas, pessoas físicas, instituições e associações desde o início da pandemia no Brasil, em março.

De acordo com Márcia Woods, presidente do conselho da ABCR, a diminuição no volume mensal pode ser explicada pelo fato de que 82% do montante refere-se às doações milionárias de empresas feitas no susto inicial da pandemia, como o R$ 1 bilhão do Itaú e os R$ 400 milhões da JBS.

Estes valores, embora anunciados há meses, ainda estão sendo desembolsados e convertidos em benefício social. Esse fator, somado ao cenário de incertezas econômicas, justifica a escassez de grandes movimentações no terceiro mês de pandemia.

“A doação que foi divulgada no começo está só agora sendo transformada em benefício social. Então não tem por que as empresas anunciarem mais doações enquanto elas ainda estão destinando o recurso que prometeram”, explica Marcia.

“Ainda estamos vendo os respiradores chegando, os leitos sendo abertos. O recurso empenhado naquele primeiro momento de emergência ainda está sendo entregue”, completa.

Apesar da queda na arrecadação, o número de doadores, que já ultrapassa os 440 mil, continua crescendo de maneira significativa, com cerca de 15 mil novos contribuintes a cada semana.

Segundo Woods, a quantidade de contribuintes é reflexo do número crescente de campanhas —já são mais de 500 financiamentos coletivos mapeados pela ABCR. Essas mobilizações alcançam cada vez mais doadores, ainda que estes contribuam com valores pequenos.

“O que se mantém são as campanhas, elas continuam crescendo. Isso é importante, porque são os pequenos projetos que estão sendo financiados, então temos uma pulverização de causas maior”, afirma.

As campanhas e lives se encontram logo atrás das empresas no ranking de doações consolidadas do Monitor ABCR. Juntas, representam representam 8% do montante (R$ 480 milhões).

A maior parte desse quase meio bilhão arrecadado diz respeito aos financiamentos coletivos das organizações sociais, que no momento concentram seus esforços na distribuição de auxílios emergenciais, cestas básicas e outras iniciativas de combate à Covid-19.

Só a ONG Gerando Falcões, presente em dezenas de favelas brasileiras, já arrecadou mais de R$ 11 milhões com sua campanha “Corona no Paredão” de distribuição de cestas básicas digitais a comunidades vulneráveis.

Outra campanha, lançada no início de julho, é a do Movimento União Amazônia Viva para captar R$ 6 milhões em caráter emergencial.

Organizado por personalidades famosas e voluntários, o Movimento tem o objetivo de conter o avanço da Covid-19 entre os povos da floresta e vai destinar os recursos arrecadados às ações no Alto Rio Negro (AM), no Baixo Amazonas (PA) e junto às comunidades do Vale do Javari (AM) e Yanomami (AM e RR).

Nessas primeiras semanas de julho, o fundo já arrecadou R$ 1,4 milhões. Para doar, acesse o site.

Uma iniciativa semelhante que tem fortalecido a população carioca em vulnerabilidade desde o início da pandemia é o Movimento União Rio.

O que começou como uma campanha de WhatsApp para ajudar a reformar parte do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) evoluiu para uma mobilização de 11 mil doadores.

Até o momento, a campanha já arrecadou mais de R$ 55 milhões de reais. Desse total, mais de R$ 20 milhões foram destinados à assistência de 237 comunidades cariocas.

Mais de 235 mil famílias foram beneficiadas com a entrega de mais de 3.000 toneladas de alimentos e quase 950 mil litros de materiais de limpeza e higiene.

Para contribuir com as ações do Movimento, acesse movimentouniaorio.org.

Os financiamentos coletivos mapeados pela ABCR são aqueles que já angariaram pelo menos mais de R$ 10 mil.

Enquanto isso, milhares de campanhas digitais ocupam plataformas online como a Vakinha. A empresa criou, inclusive, uma página específica só para as arrecadações para o enfrentamento da Covid-19.

Segundo o site, as campanhas criadas a partir da chegada do coronavírus no Brasil já arrecadaram, juntas, mais de R$ 15 milhões.

Desde fevereiro deste ano, foram criadas mais de 250 mil vaquinhas. Já são mais de 1 milhão na plataforma, sendo 40% delas com viés solidário.

Com uma quantidade tão grande de campanhas pedindo doações, muitas instituições do terceiro setor sofrem tentando captar os recursos necessários para continuar seus projetos, principalmente aquelas cujo trabalho original não se alinha às necessidades do combate à Covid-19.

Um exemplo é a Turma do Bem, cuja maior parte dos recursos provém de vendas comissionadas de produtos odontológicos. Com os dentistas parados desde março por conta do isolamento, houve queda brusca na renda da organização.

Desde o início da pandemia, as ONGs são impactadas pelas políticas de isolamento social, que impedem a realização de eventos e bazares beneficentes, importantes fontes de captação de muitas organizações.

Mesmo com a digitalização das campanhas, mantém-se a dificuldade de arrecadação durante a crise econômica, uma vez que são muitos financiamentos coletivos de emergência em um cenário de incertezas financeiras.

De acordo com Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, o recorde de R$ 6 bilhões em três meses deve ser comemorado, mas sem deixar de questionar para onde vai todo esse dinheiro.

"É importante observar que mais de 80% das doações são provenientes de empresas, principalmente as que atuam no sistema financeiro, nos ramos de alimentos e bebidas, e mineração. Com a verba já enviada, é o momento de observar se chegou ao destino. Isto é o mais importante", afirma.

O especialista destaca que analisou o estudo inédito “O impacto da Covid-19 nas organizações da sociedade civil brasileiras”, coordenado pelas consultorias Mobiliza e Reos Partners e cofinanciado pelo Instituto Sabin, Fundação Tide Setúbal, Fundação Laudes, Instituto ACP, Instituto Humanize, Instituto Ibirapitanga e Ambev.

A pesquisa mostra que, mesmo com o marco histórico das doações, duas em cada dez instituições do país estão sem fundos para manter projetos e dar continuidade às atividades junto às comunidades em que atuam.

Para chegar aos indicadores, foram realizadas entrevistas qualitativas com gestores de 1.760 organizações da sociedade civil do país e, por meio destes formulários, as entidades destacaram como foram impactadas pela crise.

As respostas apontam para um cenário bastante complexo: 87% delas relataram ter todas ou parte de suas atividades principais interrompidas ou suspensas, 73% revelaram que a crise as enfraqueceu muito (36%) ou parcialmente (37%).

Sobre os principais impactos negativos da pandemia, 73% das entidades responderam que houve queda significativa da captação de recursos. Os índices apontados no estudo citado, segundo Fábio, permitem propor questões sobre o destino das doações.

"De que forma toda essa verba é direcionada às organizações sociais? Os recursos também são encaminhados para cobrir custos fixos e institucionais das organizações? E o mais importante: depois da pandemia, estas organizações sociais que atuam na intermediação destes donativos conseguirão manter suas equipes, espaços físicos, estruturas, projetos?", questiona Deboni.

O que explica o prejuízo das ONGs mesmo em meio a um recorde de doações é a estimativa da ABCR de que 78% dos R$ 6 bilhões arrecadados desde março foram destinados à área da saúde (infraestrutura, compra de equipamentos e insumos), valor muito maior que os 17% voltados à assistência social e os 5% à educação.

Agora, com a redução e desaceleração das doações mensais, as organizações enfrentam um período de maior demanda de auxílio por parte dos beneficiados e menor quantidade de recursos para atendê-los.

Para Márcia Woods, o segundo semestre de 2020 será ainda mais desafiador para as ONGs, uma vez que o pós-crise ampliará problemáticas como desemprego, violência e desigualdade, tornando o trabalho do terceiro setor ainda mais necessário.

Nessa linha, as doações serão essenciais para que essas instituições se reergam da crise. “As estratégias [das organizações] tiveram que ser revistas, e agora muitas delas estão agindo no online. Isso é muito positivo, é o que vai dar fôlego para que o terceiro setor consiga dar conta dos desafios que estão vindo no segundo semestre”, afirma a presidente do conselho da ABCR.

“As questões sociais e humanitárias estão emergindo e, nesse segundo momento, a preocupação da população vai ser difusa. Os problemas vão emergir em diversas frentes e o apoio descentralizado da população, com cada um doando para o que acredita, é o que vai fazer as organizações se levantarem”, completa.

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