'Podemos doar muito mais que dinheiro', afirmam convidados do #ComoPossoAjudar

Movimento de solidariedade na pandemia e cultura de doação foram temas de debate online realizado pela Folha

São Paulo

Ocorreu nesta quarta-feira (8) o #ComoPossoAjudar, seminário online realizado pela Folha em parceria com o Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) que reuniu empreendedores sociais e especialistas para discutir sobre movimento de solidariedade na pandemia da Covid-19.

Mediado pela editora do Empreendedor Social, Eliane Trindade, a abertura do evento se deu pela apresentação do relatório inédito "Um Retrato da Doação no Brasil", produzido pela Aliança Global da Charities Aid Foundation (Caf).

Representada pelo Idis na América Latina, a Caf é uma rede mundial de organizações que trabalham na vanguarda da filantropia e da sociedade civil. Quem apresentou o estudo foi Paula Fabiani, diretora-presidente do Idis.

Segundo Paula, a pesquisa mostrou o aumento na visão positiva dos brasileiros em relação às ONGs, o aumento no número de doadores, para onde são direcionadas as doações, entre outras questões relacionadas à solidariedade.

Um dos principais apontamentos do estudo é o de que oito em cada dez brasileiros afirmaram que as organizações sociais tiveram um impacto positivo no país como um todo (82% contra 73% em 2018) e em suas comunidades locais (80% contra 73% em 2018).

Paula apontou durante a discussão a conscientização dos brasileiros sobre a importância de doar na pandemia. "O brasileiro acordou para isso e está percebendo a doação como essencial para a cidadania", afirma.

Interessados podem conferir o estudo na íntegra pelo site do Idis.

Outros participantes do debate também levantaram a influência da pandemia sobre o movimento de solidariedade no Brasil, uma vez que escancarou a desigualdade e aumentou a demanda por doações.

A presidente do conselho da ABCR, Márcia Woods, acredita que a pandemia tornou nítida a relação de interdependência entre os brasileiros. "Dependemos uns dos outros e o Brasil só vai avançar e desenvolver se olharmos para o próximo com empatia e cuidado", diz.

"Eu sou muito confiante de que realmente estamos em um momento de inflexão em que as pessoas estão se engajando mais e vendo a diferença que o engajamento delas causa no desenvolvimento do país e na vida das pessoas", afirma Woods.

Rodrigo Pipponzi, da Editora Mol, endossa esse pensamento. Sobre as doações no combate à pandemia, o empreendedor social acredita que a Covid-19 exacerbou o sentimento de responsabilidade da sociedade.

"Essa pandemia ensina a gente a olhar para dentro e ver as ferramentas e dificuldades que a gente tem. A gente não pode mais viver de uma maneira onde vemos problemas, desigualdades, e simplesmente ignoramos", diz.

Em sua fala final, Pipponzi retomou a fala de outra convidada, a empresária Luiza Trajano: "doar, fazer o bem, certamente faz ainda melhor para a gente mesmo". A presidente do conselho do Magalu falou também sobre sua atuação na filantropia e no Grupo Mulheres do Brasil, grupo político apartidário que visa a criação de políticas públicas voltadas principalmente à população feminina.

Para ela, além de doar, comunidades e empresários devem se unir para que juntos possam "dar um salto grande" nas políticas públicas. "Precisamos estar unidos com propósito", afirma.

Outro ponto levantado, pela youtuber e CEO da Me Poupe! Nathalia Arcuri, foi a importância de não considerar apenas doações financeiras como parte desse movimento de solidariedade.

"Tem muito mais do que dinheiro que a gente pode doar, e é importante incentivar que isso seja feito", aponta a especialista em finanças. Ela usa como exemplo a doação de tempo para levar educação a comunidades mais vulneráveis.

Eugênio Mattar, da Localiza e do Movimento Bem Maior, completa a fala de Nathalia dizendo que algumas doações são muito mais valiosas do que contribuições financeiras.

"A doação não é apenas financeira, a maior doação é a doação de tempo, de mentoria, isso vale mais do que qualquer recurso econômico que você coloque", afirma.

Ao ser questionado sobre a diferença entre as pequenas e grandes doações, Mattar afirmou que as pequenas são muito mais significativas.

"Quem doa pouco e pode pouco é muito mais importante do que quem doa muito e pode muito. O pequeno doador é aquele que tira do que faz falta pra ele no dia a dia, é vontade genuína", diz.

A fundadora da Feira Preta e do PretaHub e vencedora do Troféu Grão 2019, Adriana Barbosa, relacionou o movimento de solidariedade na pandemia às demandas da população negra, maioria no país.

Para ela, a filantropia e o investimento social no Brasil não só crescer no pós-pandemia como também devem incorporar as questões de raça no direcionamento das contribuições.

"Em um contexo de pandemia, a população negra é ainda mais afetada financeiramente, em saúde, em educação", diz Adriana.

Adriana é uma das líderes da coalizão Éditodos, que impulsiona empreendedores negros. Na pandemia, a união criou o Fundo Emergências Econômicas para levar auxílio emergencial aos afroempreendedores impactados.

"Não tem como olhar para o investimento social privado, para a filantropia, se não fizer esse recorte de raça", afirma. "As questões raciais têm que ser uma pauta constante para as áreas de responsabilidade social das empresas, institutos e fundações."

O seminário #ComoPossoAjudar teve como patrocinadores Intituto ACP, Instituto Mol e Movimento Bem Maior. E conta com apoio de Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) e Movimento pela Cultura de Doação.

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