Festivais de música no Brasil são palco para promover cigarro entre jovens

Hashtags sutis, como #tastethecity, da Souza Cruz, aparecem em festas e posts nas redes sociais

Phillippe Watanabe
São Paulo

Com as proibições de propagandas, a indústria do tabaco está apostando em festivais de música para alcançar um público mais jovem, segundo pesquisadores e uma investigação internacional.

“Estão sempre inserindo o cigarro em contextos de festa, onde o jovem está. E, claro, essa divulgação de cigarro não revela o que é o produto”, diz Adriana Carvalho, diretora jurídica da ONG ACT Promoção da Saúde (antiga Aliança de Controle do Tabagismo). “A indústria faz associação com situações positivas, em que há modelos, artistas, em cenários de festa, celebração, em locais até de exclusividade.”

Mais sobre o esquema de promoção da indústria para o público jovem nas redes sociais foi revelado recentemente com uma investigação internacional. O documento foi apresentado —com pedidos de proibição às práticas descritas— à Comissão Federal do Comércio (FTC), nos EUA. 

A petição foi assinada por entidades como Campaign for Tobacco-Free Kids e a Associação Americana do Câncer.

“Propagandas enganosas de cigarro em redes sociais são o último capítulo de uma longa história de marketing ilusório direcionado à população jovem”, afirma o documento apresentado à FTC. 

Uma das formas de alcançar esse público é a partir de hashtags —o símbolo #, que facilita agrupamentos de informações online.

Uma das hashtags impulsionadas pela indústria do tabaco, segundo a investigação, é #tastethecity (saboreie a cidade, em tradução livre), que estaria relacionado aos produtos da British American Tobacco, que controla a Souza Cruz.

Também através de entrevistas confidenciais, o braço brasileiro do estudo encontrou relações entre essa hashtag, festas e festivais. Fotos em redes sociais ajudaram na pesquisa. Em algumas, é possível ver DJs tocando ao lado de um luminoso com a inscrição #tastethecity. Completa a imagem um maço de cigarro Dunhill, da Souza Cruz.

A marca Taste the City tinha uma página no Facebook na qual se classificava como uma plataforma de curadoria para dicas de festas, eventos e exibições. Com a ajuda de um robô no Facebook Messenger, a marca perguntava sobre idade, clubes e praias favoritos e sobre consumo de cigarro, segundo a investigação.

A pesquisa indica também que, em nenhum momento, em nenhuma rede social, é feita uma associação direta entre a Taste the City e a Dunhill (Souza Cruz). Há, contudo, a presença sutil de cigarros em várias das postagens.

Não é mais possível encontrar a plataforma Taste the City tanto no Facebook quanto no Instagram. “Surpreende pela sofisticação da estratégia”, afirma Carvalho.

Segundo Maribel Suarez, da Coppead/UFRJ, uma das pesquisadoras que fez parte do estudo no Brasil, esse tipo de postagem fica mais mais claro nas festas.

“Quando você olha o fenômeno pelas mídias, vê uma parte do quebra-cabeça. Quando você vai numa dessas festas, monta a outra. Você vê o estande do Dunhill com o Taste the City. É um slogan”, diz Suarez, que para a investigação também contou com Thaysa Nascimento e Camila Teixeira. “Na internet, o Taste the City fica mascarado.” 

Um dos lugares onde o slogan se concretizou foi no festival MecaInhotim de 2016 e de 2017. A ação contou com um camping para influenciadores convidados —que postavam fotos com maços Dunhill ou pessoas fumando, usando #tastethecity— e até mesmo um balão de ar quente.

Carvalho diz ainda que foram distribuídos kits aos influenciadores contendo, entre outros itens, um maço de cigarro —ação reportada no relatório internacional. A Souza Cruz diz que, seguindo a lei, não faz esse tipo de ação e está levantando informações sobre ações passadas.

Influenciador digital recebe kit de boas vindas com cigarro e o título “TasteTheCity invites”.
Influenciador digital recebe kit de boas vindas para o festival MecaInhotim com cigarro e o título “TasteTheCity invites”. - Reprodução

A Anvisa, em nota, afirma que a prática de distribuição gratuita de cigarros é proibida e pode resultar em apreensão e multa que vai de R$ 5.000 a R$ 100 mil, variando de acordo com a capacidade econômica do infrator.

No site do festival Meca, ainda é possível achar postagens referentes à ação

Rodrigo Santanna, criador dos eventos Meca, afirma que não tinha conhecimento sobre a proximidade do Taste the City com a Souza Cruz. Segundo Santanna, havia até 2017 uma parceria comercial com a empresa de tabaco para fornecimento para os pontos de venda no festival.

Tanto o acordo comercial quanto a presença de postos de venda de cigarros foram descontinuados no festival, como um posicionamento interno relacionado às experiências pretendidas pelo festival, segundo Santanna. 

“Isso causava algumas formas de trabalhar em que não acreditamos”, diz o criador do Meca. “Tudo fez com que escolhêssemos parar de fazer parcerias desse tipo.” Ao mesmo tempo, Santanna diz que não é favor de proibicionismos.

A presença de tabacarias e fácil acesso ao cigarro em festivais e festas preocupa os especialistas ouvidos pela Folha.

A ação nem chega a ser uma novidade para pessoas da área. “A indústria do tabaco no Brasil tradicionalmente sempre manteve patrocínio de eventos e festas para jovens”, diz Tânia Cavalcante, secretária-executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco.

“Na última edição do Rock in Rio houve, na nossa interpretação, venda casada de cigarro junto com a marca do Rock in Rio”, diz, referindo-se à venda de um maço de cigarro junto a um isqueiro com o símbolo do evento. 

José de Araújo, presidente da comissão de propriedade intelectual e de direito do entretenimento da OAB-SP, afirma que os fatos apresentados poderiam ser interpretados como publicidade disfarçada e um abuso da lei vigente referente à publicidade de cigarro. Mas ressalta que são necessárias análises do Conar quanto ao assunto.

“Há um agravante ainda, por se tratar de um evento que envolve jovens, que é o principal público destinatário da lei”, diz Araújo. “É altamente suspeita e nociva essa proximidade.”

A Souza Cruz afirma que sua participação no MecaInhotim e no Rock in Rio se deu exclusivamente em regime de comercialização de produtos e que o patrocínio de eventos por marcas de cigarro é proibido por lei. “Atualmente, a Souza Cruz não utiliza mídias sociais em suas atividades de marketing, direta ou indiretamente”, diz a empresa. 

O Rock in Rio não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta edição.

Carvalho diz que a ACT estuda apresentar uma denúncia ao Ministério Público sobre os fatos relatados.

Procurada, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que a existência de pontos de venda "como tem sido observado em grandes eventos, apresentando logos e painéis que deixam claro a promoção de uma determinada marca representam forma de publicidade abusiva.

A agência afirma que, após denúncias contra o Rock in Rio 2017, foi conduzida uma investigação que resultou em três autos de infração relacionados à fabricação, comercialização de produtos fumígenos sem registro (kits promocionais), propaganda irregular e venda ambulante.

Os vendedores ambulantes em festivais também constituem infração de publicidade de cigarro. A Anvisa afirma que a prática foi documentada no Lollapalooza 2018 (no qual também foram observadas outras irregularidades relacionadas a tabaco que geraram sete autos de infração), além do Rock in Rio 2017.

Procurado pela reportagem, o Lollapalooza se recusou a responder questões sobre a presença e venda de tabaco no evento e sobre os patrocinadores do festival.

Segundo a agência, os pontos de vendas de tabaco não podem fazer menção a marcas de cigarro, ter posters ou painéis, e também não deve haver promoção do hábito de fumar.

A venda conjunta de cigarro com isqueiro —como visto em fotos do Rock in Rio—, também representa abuso da lei.

"Quanto à denúncia relativa ao uso da #tastethecity, informamos que verificaremos legalmente os limites da ação da agência, uma vez que não há explicitamente a veiculação de uma marca de produto", afirma a Anvisa, em nota.

A agência diz que denúncias relativas a propagandas irregulares e abusivas podem ser feitas por meio dos seus canais de atendimento. Facilita a investigação o maior detalhamento possível do ocorrido, como "provas e vinculações das irregularidades aos eventos, tais como nome de empresas, marcas, evidências de comercialização, notas fiscais, fotos, vídeos, reportagens".

Mais informações sobre fiscalização podem ser encontradas  aqui.

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