Horário de verão é obsoleto, confuso e insalubre, afirmam críticos da mudança

Mudança é alvo de disputa nos EUA; projetos de leis querem torná-lo permanente, mas associações são contra

Joel Achenbach
Washington | The Washington Post

No fim de semana passado, os americanos mais uma vez enfrentaram sua complexa relação com o horário de verão, que causa confusões crônicas e é chamado, talvez erroneamente, de "horário econômico diurno" ("daylight saving time", ou DST). Os relógios saltam adiante na madrugada de domingo, quando 2h de repente se tornam 3h na maior parte dos Estados Unidos. As pessoas são aconselhadas a evitar marcar qualquer coisa importante para as 2h30 de domingo, já que, por lei, esse momento não existe. 

Mas a lei poderá mudar. A política nacional de mudar do horário normal para o de economia diurna e voltar está sendo contestado em legislativos de todo o país. Diversas iniciativas no Congresso e em Câmaras estaduais poriam fim ao atual sistema de marcação do tempo, que começou há um século e causa polêmica desde então.

Não é realmente o horário de economia diurna que é atacado. É o horário padrão. O senador republicano Marco Rubio, da Flórida, reapresentou na quarta-feira (6) um projeto de lei para tornar o horário de verão uma realidade durante o ano todo no país inteiro, sem mais mudanças bianuais. O deputado republicano Vern Buchanan, da Flórida, apresentou uma legislação semelhante na Câmara. As medidas seguem uma votação feita no Legislativo da Flórida no ano passado para adotar o horário de verão durante o ano todo.

Se a Lei de Proteção da Luz Solar for aprovada, basicamente porá fim ao DST, tornando-o o horário padrão permanente e imutável. (Só para esclarecer: astronomicamente não há nada de novo sob o Sol. Ele continuará sendo uma estrela, irradiando luz, e a Terra continuará em órbita do Sol, girando sobre um eixo. A quantidade de luz solar continuará a mesma.) 

Há dois problemas aqui. Um é se mudar o relógio é inerentemente uma má ideia, por causa da perturbação do sono, efeitos negativos para a saúde e a confusão geral causada por um sistema de tempo mutável. O outro é se devemos favorecer a tarde ou a manhã quando tentamos distribuir nossa luz solar —não apenas durante a primavera, o verão e o início do outono, mas durante o ano todo. 

Pesquisadores publicaram diversos estudos que questionam a sabedoria de mudar o relógio. Um estudo de 2016 descobriu evidências de que a mudança de volta ao horário padrão no outono está associada a um aumento dos diagnósticos de depressão, por exemplo. Um estudo publicado na Europa em 2018 revelou um aumento "modesto" nos infartos depois da mudança de horário, com o efeito mais pronunciado durante o avanço na primavera. Certamente a mudança de horário pode perturbar nossos ciclos de sono, especialmente na primavera, segundo pesquisas. 

Rubio e outros defensores do horário de verão o ano todo dizem que ele promove a segurança pública. Um relatório de 2015 publicado na "Review of Economics and Statistics" descobriu que a luz diurna extra ao entardecer, depois da mudança para o horário de verão, levou a uma queda na criminalidade que não foi compensada por um aumento durante as horas mais sombrias da manhã. "Os índices de furtos não aumentaram de manhã, embora essas horas fossem mais escuras —aparentemente, os criminosos não gostam de acordar cedo", escreveram os pesquisadores Jennifer Doleac e Nicholas Sanders em um artigo do Brookings Institution.

"Estudos mostraram muitos benefícios de um horário diurno durante o ano todo, e por isso o Legislativo da Flórida votou maciçamente por torná-lo permanente no ano passado. Refletindo a vontade do Estado da Flórida, orgulho-me em reapresentar este projeto para tornar o horário econômico diurno permanente em nível nacional", disse Rubio em um comunicado. 

Os eleitores da Califórnia aprovaram majoritariamente uma proposta semelhante em novembro. O deputado estadual democrata Kansen Chu, que representa San Jose e outras comunidades no centro do Vale do Silício, apresentou um projeto de horário fixo que atualmente tramita em duas comissões.

Chu disse que se interessou pela mudança de horário quando soube de riscos à saúde associados a mudar o relógio para a frente e para trás. Ele prevê que seu projeto será facilmente aprovado pelas duas casas do Legislativo estadual, mas acredita que o Congresso precisa atuar para que a ação estadual não se choque com a lei federal. 

"Acho que tudo depende da rapidez com que o pessoal do Capitólio agirá nesta questão. Sei que há dores de cabeça muito mais importantes", disse Chu ao "Post".

Interesses comerciais há muito apoiam o horário adiantado, segundo ele. Por exemplo, a indústria do golfe e de churrascos são grandes promotores.

Há uma grande objeção à ideia do horário de verão o ano todo: as manhãs já escuras e frias do outono e inverno no horário padrão ficariam ainda mais escuras e frias, e potencialmente perigosas para as crianças caminharem até o ponto de ônibus ou a escola. "A Associação Nacional de Pais e Mestres se opõe ao horário de verão nos meses de inverno por causa do fator segurança", disse Heidi May Wilson, porta-voz da associação.

O horário econômico diurno foi implementado pela primeira vez na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial, e logo foi adotado nos Estados Unidos. Mas sempre foi polêmico, especialmente entre agricultores, que gostavam da luz matinal no verão. Tornou-se um conflito cultural entre interesses agrícolas e metropolitanos, disse Michael Downing, professor de inglês na Universidade Tufts e autor de "Spring Forward: The Annual Madness of Daylight Saving Time" [O avanço da primavera: a loucura anual do horário de verão].

O horário econômico foi implementado aleatoriamente durante décadas, até que o Congresso aprovou a Lei do Tempo Uniforme em 1966, para pôr ordem no sistema. Alguns Estados e territórios optaram ao contrário, porém. Arizona, Havaí, Porto Rico e Ilhas Virgens Americanas são alguns lugares que rejeitaram o horário de verão. O Congresso ampliou a duração do DST duas vezes, e hoje ele cobre dois terços do ano. Desde 2007, o horário começa no segundo domingo de março e termina no primeiro domingo de novembro. 

Os críticos dizem que o horário diurno é uma criação de outra era. Uma das supostas virtudes da mudança era a poupança de energia elétrica. Mas não há provas no mundo moderno de que poupe uma quantidade significativa, segundo Matthew Kotchen, professor de economia em Yale que é coautor de um estudo sobre o uso de energia em Indiana antes e depois que o Estado adotou o horário de verão. A iluminação é muito mais eficiente hoje, disse ele. Além disso, quando o Sol continua no céu nas horas "noturnas", as casas continuam quentes e os moradores mantêm ligados os aparelhos de ar-condicionado. O aquecimento e o resfriamento são fatores muito maiores que a iluminação no que se refere ao consumo de energia, disse ele. 

"Pode haver muitos motivos para querermos o horário de verão ou não, mas a única coisa que sei com certeza é que o horário econômico diurno não deve fazer parte da Lei de Políticas Energéticas", disse Kotchen.

Nota: não é "horário econômico diurno". Essa linguagem é imprecisa. E também o horário econômico diurno na verdade não economiza a luz diurna. Deveria se chamar horário de mudança diurna.

"Continua havendo a ideia mítica de que estamos economizando algo avançando ou recuando nossos relógios", disse Downing. "É uma ideia absurda que podemos ganhar ou perder uma hora simplesmente metendo o dedo no mostrador do relógio." 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 
 

Veja dicas para lidar com o horário de verão

Efeitos adversos do horário de verão no corpo 
- Irritabilidade
- Fadiga, cansaço
- Déficit de atenção
- Perda da memória recente

7 dias é o tempo médio que o corpo leva para se adaptar ao novo horário

Quem mais sofre
- Crianças
- Idosos
- Pessoas com insônia

O que fazer

Sono Procure dormir bem. No caso de crianças, faça com que elas durmam no fim de semana o mesmo número de horas que costumam dormir durante a semana

Exercício Para manter o padrão de sono durante o horário de verão, faça atividades físicas

Alimentação Evite a ingestão de comidas pesadas, café e chá preto à noite

Sem celular Ao ir dormir, procure criar um momento livre da influência de qualquer aparelho luminoso e sonoro, como smartphones e TV. Em silêncio e no escuro, você vai dormir mais rápido e com qualidade

Consulta médica Procure um médico e veja se você precisa tomar melatonina. O hormônio é manipulado no Brasil e funciona como um ativador de sono

Fonte: Associação Brasileira do Sono

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