No Lollapalooza, Souza Cruz ensinou como fazer mais fumaça com cigarro

ONGs acusam empresa de infração da lei antifumo; festival gerou autos de infração relacionados ao tabaco

Phillippe Watanabe
São Paulo

O Lollapalooza 2019 colocou o cigarro no mapa. Segundo informações do guia do festival, havia oito tabacarias espalhadas pelo Autódromo de Interlagos, enquanto eram quatro os estandes para quem buscava informações gerais. Nos locais de venda, um encarte no maço explicava como fazer mais fumaça com o cigarro da Souza Cruz e citava o “sabor único e refrescante” do produto.

Além de acusações de trabalho análogo à escravidão, no festival de música, produzido pela Time for Fun (T4F), foram verificadas infrações da lei antifumo pelo segundo ano consecutivo. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, foram lavrados dois autos de infração referentes ao tabaco e um à lei antiálcool —proibição de venda para crianças e adolescentes. 

Sem detalhamentos sobre o que motivou os autos, a secretaria afirma que um processo administrativo foi aberto.

Além disso, as organizações ACT Promoção da Saúde e a Fundação Interamericana do Coração (FIC) acusam a Souza Cruz, controlada pela British American Tobacco, de fazer publicidade irregular de tabaco no festival e de se utilizar do ambiente descontraído para atingir os jovens.

Mariana Pinho, especialista em controle do tabaco da FIC, foi ao Lollapalooza e afirma que nas tabacarias do festival era possível encontrar embalagens vazias de cigarro (para fins de exposição) e um encarte em volta do maço, com a frase “Sabor único e refrescante com controle de intensidade nas suas mãos”.

A especialista afirma que, após insistir, obteve o encarte mesmo sem a compra do cigarro. 

“A lei proíbe qualquer ação comercial para promover direta ou indiretamente um produto de tabaco. A interpretação da lei precisa ser muito restritiva”, diz Adriana Carvalho, diretora jurídica da ONG ACT Promoção da Saúde. “A apresentação do produto por encartes também é vedada.”

A Souza Cruz afirma que o encarte tinha intenção de transparência, para fornecer informações técnicas aos clientes. Segundo a empresa, que nega ter feito publicidade de tabaco, havia uma maneira de o cigarro vendido gerar mais fumaça e, por isso, era necessário um material de apoio.

“O investimento na beleza das embalagens, nos pontos de venda e na iluminação é claramente uma estratégia de propaganda”, afirma Tânia Cavalcante, secretária executiva da comissão nacional para implementação da convenção quadro para controle do tabaco. “Mock-up [modelo vazio] é uma propaganda. Se eu tenho uma caixinha que finge ser o produto, ela passa a ser uma propaganda se está vazia.” 

Pinho diz também ter observado que nos estandes de venda não era verificado se os consumidores eram maiores de idade —o que era determinado por uma pulseira.

Questionada, a Souza Cruz diz que “participou do evento Lollapalooza como fornecedora para tabacarias que comercializaram cigarros exclusivamente para fumantes adultos. Vender cigarros para menores de 18 anos é proibido por lei e a Souza Cruz reforça esta diretriz com nossos parceiros comerciais em forma de ações educativas e de conscientização”.

Mesmo sem proibições expressas na lei, a arquitetura chamativa das tabacarias também pode ser considerada uma forma de atrair o público mais novo, segundo especialistas ouvidos pela Folha. “Tinha tabacaria que era lounge, você podia sentar, tinha carregador, eram locais confortáveis. Você acaba trazendo o público para o espaço”, diz Pinho.

No ano passado, a Folha mostrou como empresas de cigarro se utilizam de festivais de música no Brasil, festas e de hashtags —símbolo #, que facilita agrupamentos de informações online— para se aproximar do público jovem.

A própria Souza Cruz se utilizou nos últimos anos da #tastethecity —que era associada à marca Dunhill— para marcar presença, por exemplo, ao lado de DJs e no festival MecaInhotim de 2016 e de 2017, no qual havia um balão de ar quente com a hashtag.

A empresa também ganhou um impulso de influenciadores que postavam fotos fumando. No festival MecaInhotim, eles chegaram a ser concentrados em um camping, no qual ganhavam kits que, entre outros itens, continha um maço de cigarro. A distribuição gratuita de cigarros é proibida por lei.

No Lollapalooza de 2018, foram lavrados três autos de infração contra a Souza Cruz, que geraram multas no valor de R$ 700 mil. A empresa afirma que recorreu das penalidades por considerar que não infringiu nenhuma norma.

A fiscalização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) flagrou, no evento do ano passado, vendedores ambulantes de cigarro, o que não é permitido por lei.

“Não estamos falando que não possa vender cigarro ali, mas não pode ter estímulos para o consumo. O festival tem responsabilidade quanto ao assunto”, diz Carvalho. A ACT apresentará denúncias contra a Souza Cruz e contra o festival.

A Folha tentou duas vezes obter um posicionamento junto à T4F, responsável pelo Lollapalooza no Brasil, mas a empresa se negou a prestar quaisquer esclarecimentos.

A reportagem questionou a T4F sobre o público total e dados de meia entrada e como ocorre a definição da quantidade necessária de balcões de informação e de tabacarias, pediu contratos referentes às tabacarias, perguntou se houve marcas, além da Souza Cruz, que forneceram cigarros ao festival, qual era a posição da empresa quanto às acusações apresentadas nesta reportagem e os autos de infração, se houve reincidência no festival de infrações relacionadas a cigarro e quais foram as possíveis ações de conscientização do festival quanto aos perigos do tabaco.

A Souza Cruz afirma que não tem conhecimento sobre os autos de infração gerados no Lollapalooza 2019.

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