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Coronavírus

Entenda por que quase todos os países fecharam escolas

Jair Bolsonaro questionou medida que outros presidentes adotaram baseados na ciência

Bruxelas

Prudência, e não histeria, explica por que todos os países europeus fecharam suas escolas para conter a pandemia de coronavírus.

A ciência —e a realidade dos países em estágio mais avançado da pandemia— contradizem afirmações do presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento na noite desta terça (24).

"O que se passa no mundo mostra que o grupo de risco é de pessoas acima de 60 anos. Então, por que fechar escolas?", questionou Bolsonaro, argumentando que "raros são os casos fatais, de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade”.

Ao desdenhar de medidas que mais de uma centena de governos já tomou para proteger sua população, o presidente mostra ignorar evidências que têm sido repetidas por especialistas em contenção de doenças transmissíveis em todo o mundo:

Jovens são tão suscetíveis a contrair o vírus quanto os mais velhos —a Coreia do Sul é um bom caso de estudo, porque fez testes massivos, e quanto mais testes são feitos mais clareza se tem sobre o comportamento do coronavírus. No país asiático, a distribuição dos casos confirmados é semelhante à proporção das faixas etárias, com exceção justamente da faixa de jovens entre 20 e 29 anos de idade. Eles são 13% dos coreanos, mas 30% dos casos confirmados estão nesse grupo.

Jovens e crianças também podem morrer —a evolução da doença nos mais jovens é mais branda que entre os mais velhos, mas o novo coronavírus pode matar até mesmo crianças, com uma probabilidade maior que a da gripe comum. Com base na experiência chinesa e italiana, o número de mortes por caso detectado supera 15% entre os maiores de 80 anos, e fica abaixo de 1% entre os que têm menos de 40.

Mas uma mortalidade de 0,2% entre crianças de 10 a 19 anos não se torna irrelevante só porque ela é 20 vezes maior no grupo de 60 a 69. De cada 1.000 crianças que pegam o vírus, duas morrem. Quanto menos protegidas de contágio estiverem as crianças de um país, maior será o número de mortes infantis.

Mesmo sem sintomas, crianças e jovens transmitem o vírus —estudos já mostraram que não é preciso ficar doente para transmitir o coronavírus para outras pessoas da família (dentro de casa o contato é mais intenso) ou da comunidade. Por isso, quanto mais jovens contaminados, maior o risco para os mais velhos e doentes.

Entre os mais jovens, a transmissão é mais intensa —além de características do próprio coronavírus, a velocidade de transmissão depende da intensidade de contato entre as pessoas. Nas escolas, essa taxa de interação é o dobro da verificada nas empresas ou no cotidiano das cidades, e cientistas britânicos do Imperial College, referência global em epidemiologia, estimam que um terço das transmissões do novo coronavírus aconteça nas escolas.

Cientistas têm calculado que, na média, o coronavírus mata 1% das pessoas infectadas. É uma proporção. Se 100 pegarem o vírus, 1 morre. Se forem 100 mil, teremos 1.000 mortes. Impedir o contágio nos locais onde ele é mais intenso reduz o número final de vítimas.

O sistema de saúde precisa ser protegido —sem medidas mais drásticas que reduzam a velocidade de contágio, os hospitais entram em colapso mesmo nos países mais ricos. Cálculos no Reino Unido mostraram que os mais de 4.000 leitos de UTI do país seriam insuficientes para atender a todos os casos graves de Covid-19 se o país não adotasse medidas como fechar escolas e lojas.

Na Itália e na Espanha, já ocorrem mortes desnecessárias porque é preciso escolher quais pacientes serão internados em UTIs e quais ficarão sem cuidados intensivos.

Além disso, com hospitais lotados e equipes médicas exaustas e desfalcadas, morrem mais pacientes com outras doenças que não a causada pelo coronavírus.

É preciso planejamento —o fechamento de escolas, lojas, fábricas e escritórios tem impacto econômico e social, e exigem planejamento. Precisam ser feitos na hora certa, e, de preferência, com planos para reduzir os danos provocados.

No pronunciamento, Bolsonaro afirmou que "nossa vida tem que continuar" e os empregos precisam "ser mantidos". "O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade."

O mundo está mostrando que, sem ações cientificamente embasadas, competentemente desenhadas, coordenadamente aplicadas e corretamente comunicadas, muito mais empregos serão destruídos, muito mais famílias perderão seu sustento e muito mais tempo levaremos para voltar à normalidade.

Escolas e lojas estão sendo fechadas no mundo todo justamente para que, passado o inevitável desastre, a vida possa continuar. Não é por histeria. É por prudência.

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