Descrição de chapéu Coronavírus

Mandetta diz que quarentena total será desastre e critica carreatas

Ministro descartou isolamento vertical como forma de combater o coronavírus

Brasília

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou neste sábado (28) que o isolamento vertical (restrito a grupos de risco) está, por ora, descartado como forma de enfrentar o novo coronavírus. Ele classificou como um desastre um cenário de lockdown para todo o país, a interdição total do sistema econômico e social.

Mandetta criticou indiretamente os apoiadores de Jair Bolsonaro (sem partido) que foram às ruas em carreatas nos últimos dois dias após pronunciamento do presidente em que reclamou de medidas restritivas e a divulgação de um vídeo, produzido pela Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), com o slogan “O Brasil não pode parar”.

Ministro fala ao microfone gesticulando
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, atualiza dados em coletiva de imprensa sobre à infecção pelo novo coronavírus no Brasil - Msrcello Casal Jr/Agência Bras

O próprio presidente e seus filhos postaram nas suas redes vídeos com imagens das manifestações ocorridas em estados como Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.

"Daqui a duas, três semanas, os que falam 'vamos fazer carreata" vão ser os mesmos que vão ficar em casa. Não é hora", declarou.

“Ainda não dá para falar: 'Libera todo mundo para sair', porque a gente não está conseguindo chegar com o equipamento 'just in time' [na hora certa], como a gente precisa”, afirmou o ministro.

“Se sair andando todo mundo de uma vez, vai faltar [atendimento] para rico e pobre”, completou.

Em um discurso cheio de recados políticos para dentro e para fora do governo, Mandetta pediu calma e disse que não é correto comparar a atual pandemia do coronavírus com outras ocorridas no Brasil e no mundo.

Na sexta (28), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cobrou do Ministério da Saúde uma mudança na orientação para que haja uma flexibilização nas medidas de isolamento vigentes.

O presidente afirmou que lamenta, mas “alguns vão morrer” da doença no Brasil, e que a atual pandemia não causou mais impacto que o H1N1 no país em 2009.

“As pessoas que estão morrendo de Covid-19 iam morrer também de H1N1”, disse Bolsonaro, que tem minimizado a pandemia e a chamou de “gripezinha” e “resfriadinho”.

Em menos de três meses, o novo coronavírus já registra um total de mortes superior aos óbitos da pandemia de H1N1 (Influenza A), ocorrida durante 16 meses nos anos de 2009 e 2010.

Pelos números da OMS (Organização Mundial da Saúde), foram mais de 30 mil casos de mortes pelo novo vírus, enquanto a antiga gripe matou um total de 18.449 durante o período de surto.

“Na H1N1, existia uma perspectiva de vacina, porque era do grupo da influenza”, explicou o ministro. “Não há receita de bolo. Quem raciocinar pensando que essa aqui foi assim, vai errar feio”.

“Aqueles que fazem prognósticos positivos, de que não vai acontecer nada, são os que eu mais rezo para que estejam certos. Aqueles que fazem provisões catastróficas, de que o mundo vai acabar, são os que eu mais rezo para que estejam errados”, completou.

O ministro também criticou o discurso a favor do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. "Cloroquina não é panaceia. Não é o remédio que veio para salvar a humanidade".

Mandetta disse ainda que o lockdown —como é chamada a interdição total do sistema econômico e social, adotado em países como a Itália— não deve ser aplicado no país.

"A última vez que foi usada quarentena no Brasil foi em 1917. Ninguém tem esse parâmetro. Não é apontar o dedo para governador A, B ou C e prefeitos A, B ou C", disse.

"Não existe quarentena vertical, não existe quarentena horizontal, não existe nada", disse. "O lockdown, que é a parada absoluta, total, ela pode vir a ser necessária em algum momento, em alguma cidade.

O que não existe é um lockdown, um fechamento de todo o território brasileiro ao mesmo tempo, desarticulado. Isso é um desastre que vai causar muitos problemas para nós da Saúde".

Mandetta afirmou que o momento é de isolamento social, mas que os setores básicos de infraestrutura devem continuar operando.

“Nós atravessamos essa semana passada com praticamente metade das capitais brasileiras sem voo”, afirmou o ministro sem citar diretamente o Rio e São Paulo que criaram restrições mais pesadas à circulação de pessoas e mercadorias.

Ele afirmou que a medida do isolamento vertical —que mantém em confinamento apenas grupos de riscos e aqueles maiores de 60 anos— não é indicada no momento.

As crianças, muitas das vezes assintomáticas, vão voltar para casa e levar o vírus”, disse.

O chefe do SUS (Sistema Único de Saúde) disse também que os mais jovens também estão suscetíveis à doença e devem se preservar. Disse que a cloroquina, medicamento em fase de testes para tratamento da Covid-19, "não é o remédio que veio para salvar a humanidade, ainda".

O ministro alegou que, depois de muito debate interno, os discursos dentro do governo foram alinhados.

Em reunião no Palácio da Alvorada na manhã deste sábado, integrantes do primeiro escalão pediram ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) um alinhamento de discurso sobre as ações governamentais contra o novo coronavírus.

Os ministros avaliaram com o presidente que não é hora de um novo pronunciamento e receberam a sinalização de que Bolsonaro não voltaria a falar em cadeia nacional de rádio e TV neste fim de semana, como estava sendo programado.

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