Descrição de chapéu Coronavírus

'Prorrogação de quarentena em SP deve ser decidida junto com cientistas', diz virologista

Coordenadora da Plataforma Pasteur-USP diz que se pode estudar mais uma ou duas semanas de isolamento

São Paulo

A prorrogação ou não o prazo da quarentena no estado de São Paulo deve ser decidida em conjunto com cientistas levando em conta a situação epidemiológica até o dia 6, data em que o governador João Doria (PSDB) anunciará o término ou não do isolamento.

É o que defende a biomédica e virologista paulistana Paola Minoprio, 63, que coordena a Plataforma Científica Pasteur-USP, que trabalhou por 35 anos em laboratório do Instituto Pasteur na capital francesa e acabou e retornar ao Brasil.

Em palestra virtual promovida pelo Consulado Geral da França em São Paulo nesta quarta (1º), ela disse que pode ser estudada a possibilidade de a quarentena ser estendida por mais uma semana ou 15 dias.

Segundo Minoprio, ainda há possibilidade de as empresas trabalharem em turnos para evitar aglomerações. “Sou a favor do isolamento, mas todas essas questões precisam ser analisadas pelo pessoal decisório e os cientistas que estão vendo na carne o avanço da pandemia”, disse em entrevista à Folha.

A  imunologista Paola Minoprio, coordenadora da Plataforma Pasteur-USP, que desenvolve estudos sobre o novo coronavírus
A imunologista Paola Minoprio, coordenadora da Plataforma Pasteur-USP, que desenvolve estudos sobre o novo coronavírus - Divulgacao

Com uma equipe de dez pessoas, a plataforma criada para trabalhar com doenças emergentes e negligenciadas, como zika, dengue, febre amarela e influenza, voltou-se agora para estudos da Covid-19.

Várias linhas de estudo já estão em andamento, entre elas sobre o comportamento da epidemia no Brasil, as eventuais diferenças genéticas e do vírus em pessoas assintomáticas e as que adoecem, além das respostas inflamatórias das pessoas internadas com a infecção.

Ao mesmo tempo, a plataforma está fazendo testes diagnósticos moleculares em profissionais do Hospital das Clínicas e do Hospital Universitário, ambos ligados à USP.

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Testes diagnósticos
Vejo com preocupação a compra em larga escala dos testes rápidos ou imunológicos. O melhor teste é o molecular. Os testes rápidos são para dosar anticorpos. O sistema imunológico precisa de sete a dez dias para fazer anticorpos contra o vírus.

Existe o risco de você dosar nesse período, no meio da infecção, e o teste dar negativo, porque ainda não tem resposta, vai ter muito pouco anticorpo circulando. E a pessoa vai continuar espalhando o vírus por aí.

A gente vê o Instituto Adolfo Lutz com 14 mil amostras à espera de resultado dos testes moleculares. Precisam de 14 kits para dar conta dessa demanda. Onde vão arrumar isso? Vão precisar de quantas pessoas formadas, quantas máquinas para dosar? Deviam ter pedido ajuda [a outros parceiros, inclusive à plataforma Pasteur-USP] antes, já teria testado um montão. Esse tipo de egocentrismo que existe em determinados locais no Brasil me irrita.


Cloroquina e hidroxicloriquina
Se eu estivesse com a minha mãe de 89 anos nas últimas, com o pulmão deixando de funcionar, eu daria. Mas se eu tivesse dez pacientes aqui e alguém me dissesse ‘vamos dar indiscriminadamente para os dez', eu não daria. Cada um é cada um. Você não sabe o que vai acontecer. Você não tem nenhum controle sobre os efeitos colaterais disso, você não sabe o que vai acontecer daqui uma semana. Para a malária, você sabe a dose certa. Na Covid-19, a gente não sabe nada, tá todo mundo no escuro.

Existem dados da China, da França, dos EUA que são contraditórios. Tem gente que diminui a pneumopatia, a quantidade viral, faz o teste e tá quase zerado, mas para outras pessoas não funcionou. Por que? A gente não tem informação suficiente desses casos, quem são, idade, o que tinham antes. As pesquisas devem continuar no ritmo que nos é permitido.

Para mim, estão fazendo mais uma nuvem de fumaça em cima desse assunto, muita gente esperando muito em cima de disso.


O vírus
Ainda não temos modelo experimental para o novo coronavírus Sars-CoV-2. O melhor modelo é o camundongo, mas ele não serve para esse vírus. Esse vírus tem um spike [tipo de espinho que fica do lado de fora do vírus e é usado para penetrar nas paredes externas das células humanas] que encontra nas células epiteliais o seu receptor, e aí ele se multiplica. Mas o vírus não infecta o camundongo. A gente vai ter que criar um camundongo transgênico, e vai levar de seis meses a oito meses para mudar o genoma dele. Ao mesmo tempo, precisamos trabalhar com células in vitro para ver se anticorpos bloqueiam a entrada do vírus, ou ainda estudar se moléculas de compostos químicos conseguem impedir de o vírus se multiplicar. Esses experimentos são coisas para um ano.


Imunidade de rebanho
Quando você ouve o nosso caríssimo presidente minimizando, falando que todo mundo vai pegar, ele se refere a imunidade de rebanho, mas mostra em total desconhecimento em relação à nova doença. A gente se infecta, vai criando anticorpos, imunidade, para uma segunda leva de infecção, até que todos a sua volta estejam imunes e você começa a bloquear a transmissibilidade.

Com a Covid, precisaria infectar 60% da população brasileira para ter imunidade de rebanho, isso dá 120 milhões de pessoas. Nessas, a mortalidade será de 2% a 5%. Quando ele diz que no Brasil morre-se mais de fome do que do vírus, é uma vergonha. Se 2% morrerem no Brasil de Covid-19, serão 2,5 milhões de óbitos. De fome, são 6.500. É um perfeito desconhecimento da epidemiologia e do processo que estamos passando mundialmente. Nunca vi isso, poderia morrer sem ver isso.

“Gripinha”
Se você pega o Sars-CoV de 2002, ele começou na mesma China e precisou de seis meses para infectar 29 países. Agora, com o novo coronavírus, ele começou no dia 29 de dezembro do ano passado e em três meses já tinha atingido 180 países. No H1N1, a taxa de mortalidade é 0,1%, e a gente tem vacina e o Tamiflu para os sintomas. Estamos brincando com esse vírus no escuro, a gente não sabe nada desse vírus, aonde ele vai primeiro, o que ele gosta. Não é uma gripinha, está redondamente enganado quem pensou isso.

O vírus não é só respiratório, ele é gástrico também. Se você faz cocô, ele está lá. Se você não tampar a privada antes de dar a descarga, aquilo faz aerosol e vai infectar as pessoa à sua volta.

Isolamento social
Não se pode transpor o que acontece em alguns países para cá. Quando a gente pega o número de leitos de UTI preconizado pela OMS, estamos perfeitamente dentro da cota de 2 a 3 leitos por 10 mil. O Brasil tem 55 mil leitos, cerca de 50% no SUS. Os outros 50% são privadas só servem a 1/4 da população. A França tem menos que 1, a Itália, por volta de 1,5, e a Alemanha tem 3. Mas a Alemanha tá fazendo um controle fantástico, testando todo mundo, e não é testinho imunológico não, colocando em leito de CTI quem precisa. Isso faz toda a diferença.

Se não fizéssemos nada de isolamento, 80% da população estaria infectada e haveria uma ocupação de 300 leitos por 100 mil. Com isolamento social, controle, você achata a curva. Não é que teremos menos infectados, mas você terá infectados em espaços diferentes de tempo. Aí você não exaure a capacidade hospitalar, consegue cuidar das pessoas.

Desafios
Temos muitos desafios pela frente. A Índia, que produz muitos dos sais que a gente usa para fazer medicamentos para os nossos velhinhos, remédios do cotidiano, parou com as exportações. Poderá haver desabastecimento.

A gente precisa batalhar por vacinas, testes, tratamentos. Nós temos uma vantagem de duas a três semanas em relação a outros países, estamos colocando leitos no Pacaembu, no Anhembi, discutindo as alternativas mais viáveis, a mídia está podendo fazer uma coisa extraordinária que é ensinar as pessoas o que pode ser feito.

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