Descrição de chapéu Coronavírus

De cloroquina a remdesivir e dexametasona, veja o que está em teste contra o novo coronavírus

Pesquisas recentes apontaram resultados positivos no uso de remdesivir e dexametasona

São Carlos (SP) e São Paulo

Para enfrentar a emergência global de saúde pública causada pela Covid-19, cientistas e médicos se mobilizaram com velocidade sem precedentes para testar medicamentos contra a doença. A maioria desses testes envolve fármacos que já são empregados para tratar outras enfermidades, em parte porque o conhecimento acerca da dosagem e da segurança dessas substâncias já é relativamente sólido.

Por causa dessa base anterior de dados sobre tais medicamentos, diversas análises já estão sendo feitas diretamente a partir da resposta de pacientes humanos às terapias.

Por ora, entretanto, muitos desses testes ainda estão sendo realizados com grupos pequenos de pessoas, o que diminui a confiabilidade estatística dos resultados —efeitos aparentemente positivos de um tratamento podem acabar não se confirmando em populações maiores, por exemplo. Já existem esforços para ampliar o número de participantes dos testes para centenas e mesmo milhares, coordenados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e outras instituições.

Algumas moléculas com potencial farmacológico que ainda não estão disponíveis comercialmente também estão sendo testadas, inicialmente em células cultivadas em laboratório e animais.

É importante lembrar que muitos dos estudos estão sendo divulgados primeiro em depositórios online de artigos científicos, sem a chamada revisão por pares, na qual cientistas da mesma área que os autores de um estudo avaliam os dados antes da publicação.

O processo de revisão por pares também está acontecendo, além disso, em ritmo acelerado, para dar conta do desafio representado pela Covid-19. Tudo isso dificulta a avaliação da qualidade das pesquisas no momento, embora facilite a disseminação das informações

Hidroxicloroquina

Testada com aparente sucesso em diversos ensaios clínicos na China e na França, o medicamento tem a vantagem de já ser aprovado para uso em seres humanos há décadas, sendo produzido em quantidades apreciáveis para tratar malária e doenças autoimunes (nas quais o organismo se volta contra si mesmo), como artrite reumatoide e lúpus. O uso indiscriminado contra a Covid-19 também traz a preocupação de que o medicamento acabe faltando para pessoas com essas doenças.

Já se sabe que a substância é capaz de modular o sistema de defesa do organismo, o que poderia ajudar o organismo a combater o vírus sem reagir a ele de maneira desmedida, o que também pode ser um problema. Também há indícios de que ela dificultaria a entrada do vírus nas células humanas.

Em alguns testes, a hidroxicloroquina foi usada em combinação com o antibiótico azitromicina, que ajudaria a impedir que bactérias já presentes no organismo se aproveitassem da debilidade causada pelo vírus para agravar a pneumonia sofrida pelo paciente.

Estudos mais recentes publicados em algumas das mais renomadas revistas científicas, porém, não observaram eficácia da droga contra a Covid-19 em pacientes hospitalizados, quando comparado ao tratamento padrão já utilizado. Já foram publicados pesquisas sobre o assunto em revistas como a BMJ e o The New England Journal of Medicine.

Além disso, um estudo padrão-ouro, ou seja, duplo-cego, randomizado e com grupo controle, também não encontrou efeito preventivo para a droga em pacientes recém-expostos ao novo coronavírus (profilaxia pós-exposição). Essa pesquisa foi publicada no The New England Journal of Medicine.

Um grande estudo, com 96 mil pessoas, publicado no respeitado periódico The Lancet havia mostrado risco de morte aumentado em pessoas com Covid-19 que tomavam a droga. Após a publicação e a análise de outros pesquisadores, foram encontradas incossistências nos dados apresentados.

As informações haviam sido coletadas do banco de dados de uma empresa particular, a Surgisphere. Posteriormente, uma matéria do The Guardian mostrou que a empresa desconhecida tinha pessoas sem formação em dados ou em ciência no seu quadro de funcionários.

Buscou-se a realização de uma auditória externa dos dados usados na pesquisa, mas a empresa se negou a abrir todo o banco de informações, o que impossibilitou uma análise independente. Com isso, houve retratação do estudo, o que significa que seus resultados foram anulados.

Mesmo com os resultados negativos obtidos até o momento com a droga, diversas pesquisas sobre ela continuam em andamento no mundo.

Efeitos colaterais e contraindicações: pacientes com problemas de coração, psoríase e diabetes devem ter cuidado com o uso. Os efeitos colaterais podem incluir náuseas, diarreia, vômitos e dores de cabeça. Também pode afetar a retina com o uso crônico (de longo prazo).

Remdesivir

A droga antiviral, desenvolvida pelo laboratório americano Gilead, chegou a ser testada contra o Ebola e contra uma série de vírus emergentes menos conhecidos, os quais possuem material genético formado por uma fita simples de RNA (molécula “prima” do DNA), assim como o Sars-CoV-2.

Contra o Ebola, o remédio se mostrou seguro para o uso em humanos, embora menos eficaz que o uso de anticorpos. O remdesivir é um análogo de nucleotídeo, ou seja, possui características bioquímicas similares às “letras” de RNA (que são nucleotídeos propriamente ditos). Assim, diante da droga, o vírus que está copiando seu material genético acaba inserindo as moléculas da droga no meio do processo por engano. O processo acaba parando, e o vírus deixa de se reproduzir. A droga também foi incluída no grande teste clínico da OMS.

No dia 29 de abril, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês) anunciou que o remdesivir é o primeiro remédio capaz de melhorar a situação de doentes com a Covid-19. O estudo mostrou, segundo o Niaid, que o antiviral reduziu o tempo mediano de recuperação dos doentes de 15 para 11 dias. A pesquisa sobre o modesto resultado positivo da droga foi publicada na The New England Journal of Medicine.

Em 1º de maio, os Estados Unidos autorizaram o uso emercialmente do remdesivir, medida que o Japão também adotou.

Em 12 de maio, a Gilead afirmou que abriu mão da patente sobre o medicamento para facilitar seu acesso em 127 países. O Brasil não consta na lista.

Efeitos colaterais e contraindicações: náusea, vômito, possíveis efeitos sobre o fígado. Mulheres grávidas não devem tomar o medicamento.

Dexametasona

Resultados positivos com o corticosteroide acessível dexametasona foram anunciados em 16 de junho por pesquisadores da Universidade de Oxford. Os cientistas, parte do estudo Recovery, afirmam que a droga reduziu em cerca de 35% a mortalidade pela Covid-19 em pacientes que recebiam ventilação pulmonar mecânica e em cerca de 20% nos que necessitavam de inalação de oxigêncio suplementar, sem a intubação.

Não encontraram benefício, contudo, em pacientes que não precisavam de suporte respiratório.

A dexametasona é usada para tratar doenças inflamatórias, respiratórias, reumatismo e alergias, entre outros.

Os dados do estudo com a droga, contudo, ainda não foram publicados em revista científica.

Efeitos colaterais e contraindicações: aumento de glicose; fraqueza muscular. Cuidado com pacientes diabéticos.

Lopinavir e ritonavir (com e sem interferon beta-1a)

Esses medicamentos antivirais já são usados de modo combinado contra o HIV, causador da Aids. Ambos fazem parte da classe dos chamados inibidores de protease. Ou seja, eles atrapalham a ação de moléculas virais cuja função é “fatiar” proteínas das células infectadas, de modo que o vírus consiga utilizá-las para seu próprio benefício (daí o nome “protease”).

O lopinavir e o ritonavir foram incluídos num grande teste clínico internacional sob os auspícios da OMS. Testes em pequena escala ainda não chegaram a revelar resultados animadores. Efeitos colaterais e contraindicações: em pacientes que carregam o HIV, podem causar diarreia, vômito e dores de cabeça. Há casos bem mais raros de problemas no pâncreas e no fígado.

Na mesma bateria de testes clínicos, a combinação de antivirais está sendo ministrada junto com o interferon beta-1a, medicamento que modula processos inflamatórios e é usado para tratar esclerose múltipla.

Efeitos colaterais e contraindicações: reações na pele quando injetado, dores musculares e de cabeça, fadiga.

Favipiravir

Desenvolvido no Japão, onde leva o nome comercial de Avigan, o medicamento também interfere na multiplicação da cadeia de RNA que funciona como o genoma de muitos vírus. Foi criado originalmente para combater o vírus da gripe. Testes com algumas dezenas de pacientes na China indicam que ele teria ajudado a encurtar o tempo de manifestação de sintomas como tosse e febre, embora não tenha ajudado os doentes em estado mais graves.

Efeitos colaterais e contraindicações: mulheres grávidas não devem usar o remédio por causa de possíveis deformidades em fetos.

Anticoagulantes

Os casos mais graves da Covid-19 podem incluir o aparecimento de problemas na coagulação do sangue, com o aparecimento de coágulos dentro dos vasos sanguíneos. Para impedir isso, os médicos têm usado medicamentos como o anticoagulante fondaparinux ou, nos casos em que o paciente não pode receber esses remédios, aparelhos de compressão pneumática que têm efeito parecido por via mecânica.

EIDD-1931

Ainda não empregado comercialmente, o fármaco designado por essa sigla foi testado por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte em culturas de células das vias respiratórias humanas e em camundongos, mostrando ser capaz de inibir a ação do Sars-CoV-2 e de dois outros coronavírus, os causadores da Sars e da Mers (ambas doenças respiratórias graves).

A molécula atua causando erros no processo de cópia do material genético dos diferentes coronavírus, impedindo a replicação (multiplicação) deles. Uma de suas vantagens é poder ser administrada por via oral.

Efeitos colaterais e contraindicações: não houve efeitos negativos para o material genético das células humanas e dos camundongos, mas ainda não é possível dizer se haveria problemas no organismo humano.

Anticorpos contra o Sars-CoV-2

A ideia é transferir anticorpos —moléculas produzidas pelo organismo com a função específica de neutralizar um invasor— do sangue de pessoas que já se recuperaram da Covid-19 para o organismo de quem ainda está com a doença.

O procedimento está sendo realizado em diversos países, como os EUA e o Brasil. O problema é que, nas condições atuais, não é possível realizá-lo em larga escala, já que apenas poucos doentes poderiam se beneficiar do plasma (parte líquida do sangue) com anticorpos de cada doador.

Por isso, pesquisadores de instituições como a Universidade Rockefeller, em Nova York, planejam usar técnicas de biotecnologia para produzir os anticorpos em grande quantidade, processo que deve demorar vários meses até ser aperfeiçoado.

Efeitos colaterais e contraindicações: é preciso cuidado para que a doação de plasma com anticorpos não transfira outras doenças dos doadores para os pacientes.

Regulação de interleucinas

A família das interleucinas, que inclui dezenas de moléculas produzidas naturalmente pelo organismo humano, são importantes em diversos processos de sinalização e coordenação do sistema de defesa do organismo, como a inflamação. Acontece que, nos casos mais graves da Covid-19, o que parece estar acontecendo é um estímulo excessivo à ação das interleucinas e outras sinalizadoras do sistema imunológico, processo que acaba danificando severamente os pulmões dos doentes e levando-os à morte. A reação descontrolada do organismo ao vírus parece ser o grande problema.

Para tratar esses doentes mais graves, testes clínicos em países como a China e a Suíça estão usando anticorpos que bloqueiam as interleucinas, como o tocilizumabe, projetado para diminuir a ação da interleucina-6. Em pessoas com doenças autoimunes, como artrite reumatoide, vários remédios similares já são utilizados.

Efeitos colaterais e contraindicações: é preciso ter cuidado para achar um ponto de equilíbrio entre moderar a ação do sistema imune e, ao mesmo tempo, não impedir que ele combata o vírus.

Ciclesonida

Pertencente à classe dos glicocorticoides e usado para tratar, por exemplo, asma e os sintomas da rinite alérgica, o medicamento está sendo testado no Japão por pessoas que foram infectadas pelo Sars-CoV-2 mas ainda não manifestaram sintomas. Os resultados do teste ainda não foram divulgados.

Efeitos colaterais e contraindicações: dor de cabeça e sangramento no nariz.

Teste automatizado de medicamentos

Para tentar alargar ao máximo as possibilidades de usar remédios já aprovados comercialmente contra o Sars-CoV-2, um caminho é empregar plataformas de testes automatizados de moléculas in vitro (ou seja, em tubo de ensaio) contra o vírus. Uma dessas iniciativas está sendo tocada por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, em parceria com a Eurofarma.

O sistema, segundo a equipe, será capaz de testar milhares de diferentes compostos por semana. Uma vez que medicamentos com ação promissora forem identificados, será possível continuar o processo de testes em animais e seres humanos. Um trabalho parecido está sendo realizado por pesquisadores do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), órgão federal localizado em Campinas.

Drogas antiparasitas

Testes in vitro e simulações computacionais também revelaram algum potencial anticoronavírus no caso de drogas que já são usadas há décadas contra piolhos, vermes intestinais (lombrigas, solitárias etc.), protozoários e outros parasitas. A lista inclui fármacos como a ivermectina, a nitazoxanida e a niclosamida.

O problema desses medicamentos, além da grande quantidade de efeitos colaterais, é a aparente falta de uma ação suficientemente específica contra o coronavírus, o que inviabilizaria o uso clínico em larga escala.

Óxido nítrico inalatório

Essa pequena molécula, importante na regulação da largura dos vasos sanguíneos, é importante para o mecanismo de funcionamento do Viagra e será testada nos EUA, na forma inalável, na tentativa de ajudar pacientes com formas leves e moderadas de Covid-19. Espera-se que ele ajude a minimizar a falta de ar causada pela doença.

Efeitos colaterais e contraindicações: não há problemas significativos, desde que a concentração do gás no inalador seja bem regulada.

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